quinta-feira, 4 de março de 2010

O tempo e o vazio 2



Quantas pinceladas se fazem para surgir uma obra de arte?

Uns dizem dezessete mil, outros de tantos pensamentos quanto um discurso de um filósofo, ou de tantas

palavras quanto um escritor precisa para rabiscar e depois escrever seus livros.


Mas, alguns se armam de uma profunda inspiração, inalando, se possível, todo ar da sala ou do universo,

olham para o alto e decretam em tom messiânico, como só as mais altas divindades pudessem lhe escutar e

lhes entender, que não há pinceladas e não há obra de arte e sim uma infinidades de volutas que atravessam

a mente e o espírito de cada um que pousar seus olhos além, ou seja, através dessa superfície que suporta a

pretensão de meia dúzia de reis que reinam nas barrigas de quem as pintam, até os planos em que se tornam

apenas ideias - puras e simples ideias. O olhar é iludido, enganado, traído, mas ao chegar ao terreno sublime

do ideal, tudo se desfaz, ao contemplar nua, despojada de tudo que lhe fosse supérfluo, a imortal e eterna

Verdade. Os olhos, apenas tolos, enquanto os cérebros, estes sim, privilegiados, alçam seus voos mais altos

para melhores e imortais companhias, as quais fariam do êxtase o leito de sua fartura.

E os olhos espertos então revistam e avaliam as condições financeiras dos fiéis adoradores, que pretendem

pagar o bilhete de viagem para o Parnaso prometido. Sorri.

 E eu?

O que faço?

 Eu só pretendo encher os segundos e esse espaço enorme e branco, esse papel qualquer, essas linhas por

onde o tempo caminha, escorre e desaparece, rindo de mim.



Nenhum comentário:

Postar um comentário