terça-feira, 16 de março de 2010

Mente


A

MENTE

MENTE

SE DIZ

QUE EM SI

TRAZ

APENAS A

SEMENTE

POIS

SER

MENTE

TAMBÉM

É FRUTO

NADA QUE SE

LAMENTE

SOMENTE, MAS

PLENAMENTE

O SER

ABSOLUTAMENTE

A

FLOR

A EXALAR A SI

A ALMA

DESSE

PRESENTE

QUE

O AMOR

SENTE

ESSE

SIM

A SEMENTE

SENÃO MENTE

A

MENTE

VERDADEIRA

MENTE

EM


TI

O desejo


Às vezes,
sou um poço
ou, às vezes
sou alguém no fundo deste poço
ou mesmo a água,
a fonte que alimenta o poço
às vezes, o eco que reverbera
nas paredes circulares dele
solitárias rochas.

De lá, do horizonte
virá a caravana
que irá me tirar daqui
e beber-me

mas a minha voz ressoa ainda
pelas paredes de pedra
Levem-me ao Egito, grito
alimentar-me das pirâmides
de mel, crocodilos e versos

Regurgitarei rios sobre a areia
desenhando a forma do sol sobre o Nilo

Entretanto, ninguém entende a língua dos poços
Quem atenderá um eco?
O que ainda terei de ser?
Tudo posso ser !
Aí vem o desfile da rainha!
Posso ser o tapete vermelho
ou a coroa de diamantes
nas eternas cabeças dessa realeza de cores
Posso ser como essas cabeças vermelhas, douradas ou azuis
cabeças de faraó ou de rei
rolando pelo tapete da eternidade
se fazendo de deuses
curvando a história a lhes beijar os pés.

Tudo eu posso ser, vê?
basta que me dê as suas mãos
Onde estão suas mãos?

Bom dia!



Todos sentem desejos, é certo. É bom sentir um sonho de perto.

Desembrulhar a malícia lenta e inevitavelmente. Risos. Carinho e urgência. O silêncio de se estar acompanhado e o universo que subitamente se faz matéria, se condensa até poder tocá-lo. E que então te chama.

O presente está ali, o tempo parou. Surge como uma surpresa à sua frente e te conduz a um oceano que pode te tragar e à sua embarcação, que extenuada e faminta, ruma ao desconhecido além, talvez praias inóspitas, mas que escondem ainda um perdido paraíso, o impossível possível - a falta, o que te determina a ser feito para lhe satisfazer de maneira vital, a lhe dispor ali, de uma hora para outra, tudo que nunca se teve - a razão para vida.

O destino da viagem, de repente, não é mais o futuro, mas o sempre-já que chegou, o que está ali à sua frente e te despe e se expõe, se desnuda, com toda urgência para te engolfar em sua própria carne que vibra. E te invade ciente da necessidade que transcende razões. Tudo é urgência, respiração veloz, bruta.

E, à sua volta, explodem foguetes imaginários que não se sabia que existiam, o tempo novo do que não se mede com tempos que se iniciam, e por isso mistério.

A presença se faz matéria fremente ao toque cada vez mais rápido, batidas e empurrões, pele à pele, na dor do querer, pela inundação à lhe queimar e uma umidade que nos amansa.

O interminável em um pequeno tempo para ver e explorar essa fome que não sacia - um dia de mil e uma noites no escuro, como quem espera uma rua com casas vazias e encontra uma cidade perdida e iluminada, feliz e, em algum lugar, a hospitalidade de um invisível querido.

Histórias se misturam entre suor, corpos e afagos e formam o novo, o que nunca se viu.

Chegaste à minha oculta morada, meu íntimo.

Então bata à minha porta, coma a minha comida, desperte a minha sede, durma o meu sono.
Acompanhe-me até o meu abandono, a caverna oculta onde se faz a minha entrega - não há mais pudor em ser ou não ser.

E me mostre o meu engano - acenda a luz para que veja quem chegou e descubra que há mais alguém, mas que adora o teu avesso, o que se vê e o que se imagina, toda embate, teu arremesso, a sua companhia, os dedos sempre acesos para o meu gelo. E, diante da bem aventurança, se dá o encontro.

À volta, agora, tudo e todos são os outros, o que não se entende, o gelo. Ao aqui, nada se compara em calor crescente e ao oásis revelado. E aí, então, esse deserto te agradecerá e finalmente te dará as boas vindas.

Bom dia!

segunda-feira, 15 de março de 2010

metamorfética


Matei outro dia
uma barata a comer farelo
me culpei como podia
seria Kafka embaixo do chinelo?

A vida tudo me confunde
como me confunde pensar
no que ainda não pensei achar
até uma poça penso que me inunde
morro de sede olhando o mar

não há certezas, na verdade
na lida que travo todo dia
tudo que acho que é certo é a metade
de um engano mais metade que eu não sabia

Então é por isso que não sou culpado
dessa metamorfose entre o certo e o errado
Talvez Kafka vivesse nessa barata
enquanto ela pensasse ter finado
só por não ter umas pratas
no banco até hoje depositado.

A alma sente a brisa
como delícia
que o corpo não oprime.
Sentirá ela liberta
maiores gozos, prazeres
os quais não exime?

Mas se alma então acredita
que é a imaginação livre a sentir
que nada a prende por todo universo
que de tudo faz parte e vive
e o infinito lhe é propenso
e que o destino lhe dita

Não se sentirá ela mais infinita
a fazer algo a fremir
com um perdido nada
que dentro de si tramita?



De nada adianta pensar que estás aqui,se não estás,


pois não me consola as mentiras bem intencionadas,


as que inventamos para nós mesmos a nos enganar - não é uma boa causa!


O mundo não volta para trás, a chuva não retorna aos céus,


não continuamos a existir em falso, cadafalso, jogo de gato e rato....de dama ou xadrez.


Mas de ti dependo tanto quanto não posso te compreender.


É como um sopro bendito, tu, inspiração iluminada, geniosa guia dessa torta estrada, cândida portadora de idéias.


Faz meus traços, minha letra, teu porto, pouso, mosteiro do que penso.


No entanto, agora já lhe sinto, sei que chegaste!


E vamos mais uma vez abrir as portas ao que vem além de nós, além de qualquer criação que já foi imaginada.


E agora já lhe sinto, tu, estranha flama, benvinda amada! Escrevo, crio!

Tem dias que mordo os lábios e trinco os dentes, percebo que estou de carona nas idiossincrasias como única locomoção. Algo avança como um ventinho, bule nas caraminholas. Sopra lento. Vai misturando tudo aqui por dentro, embaçando, penetrando as gretas da sensatez ( se é que alguma vez as tive).


E, de súbito, já sinto a sensação do troço - é como levantar voo, planar perigosamente sobre cumes, pontas de rocha, espinhos, tudo que está aí que pode ferir e a gente tenta tomar altitude. Não responde a instrumentação, o manche não funciona. O céu é a salvação, mas o aparelho não se mexe - estou trancado num vazio.

Aí, as perguntas e as filosofices começam à aparecer. Não há solução para todas as bobagens que surgem esta hora.


Porém, de repente, os instrumentos voltam a funcionar.

Atravesso veloz o ar, porque imagino que sou o próprio voo desde a hora da decolagem até o momento em que aterrisso, onde descubro de antemão que a resposta para tudo eu já tinha, já conhecia de antemão!

Tudo tão simples, tão claro e logo ali, na minha frente. Então - luz! Reparo como este céu é enorme, infinito, brilhante e azul. E que para mim, surpreso, por toda minha vida, eu dele sempre tinha feito parte.

Tão tolo
como querer equiparar à qualquer coisa
à bolha de cuspe ou de cristal
estrume ou âmbar precioso
tudo que surge em horas do impreciso, ou angústia
deve se igualar
tanto para um Napoleão quanto para seu cabo

Cheire a anjo ou estivador
coma em porcelana ou com as mãos
o espetáculo é para todos
quer você queira ou não

se ninguém merece
as horas de espera pelo que se teme
ou se quer muito,
mesmo quando a terra treme
ou a nau lhe enjoa e o avião mal voa
já deu trabalho, mesmo fim,
pelo que parece nos tratados
à muita gente boa

Cada um sabe da colher
que lhe serve de almoço,
da posição de dormir,
ou quanto se espera um doutor chegar
para colocar o dedo na ferida

Eu prefiro ficar aqui
enchendo essa brancura
que também é momentânea
com esse caminho de letras
que nunca vai chegar à lugar nenhum
Quem sabe até lá
tudo isso passa?

domingo, 14 de março de 2010


Me dei conta que o amor deriva

pelos mares da imperfeição

e pelas terras desconhecidas do improvável


O que importa se a brisa é leve

e o meu coração flutua

Vem comigo, amigo

Deixa a sombra amarga de nossos defeitos

pelo vasto mirar do acontecer


O horizonte é um belo amante

que beija com a promessa do amanhã

e, só, o espera ali adiante

em seu leito branco

e linear com sua boca vã

o insaciável amor do navegante.


Anseia o que quer em si,

se firmar num belo ser

enquanto, só no seu mirante,

vê um continente perdido aparecer


O futuro assim te admira

te deseja

te recebe

te possui em breve surpresa

e te afaga

te constrói e intui que

apesar da correnteza dura

e o que mau tempo destrói

tudo é pela aventura em que

o amor é o herói.


Se portanto feliz e ruma

que o amor também o seguirá

Depressa, iça as velas

Anda, corre ligeiro, que o amor obediente te segue

te alcança, te atravessa

não dorme, é sopro ou vendaval

sem desespero


E aí pleno, estremece, aporta

e apenas é

infinito, nada, além, ponto, universo


E tu também o sendo - o devir, o sou, o será

o seu mundo, o esplendor

e o que não interessa e nem adianta pensar

o gozo depois da ansiedade,

luta, rebentar


Ou só nós ali

esquecidos, despidos, perdidos

enrolados na pele aquecida

do seu simples mirar.

Me surpreende
como se retorce
e se espalha a natureza
o que desabrocha hoje
amanhã já não se vê o pó
tudo é leveza

o já é passado
o hoje
uma fração perdida
entre as migalhas esparsas
de um lanche esquecido
sobre a mesa

Se contarmos
agora,
os dez dedos da mão
à palma e ao braço
e antebraço
unidos estarão
do nascimento ao último sopro
se cuidarmos com boa sorte
e um pouco de precaução.

Se calamidade nenhuma
os separa da vizinhança viva
e à alma presa
o que a vida não desune
a morte o faz como empresa

Porém, desta dita
não me leva a fortuna
não retenho
não resisto
não oponho
entrego "la plata"
dou benvindo a gatuna

Mas o bem que oculto
é mistério
cuja senha são poesias
sussurradas uma à uma

E se atento escutares
e levares à sério
aí não terás mais
infelicidade alguma

No entanto,
se são o beijos que são o encanto
eles que serão as bênçãos
sussurradas uma à uma.

A selva - primeira versão


Depois de longa jornada, campo lisos e vagos. A noite é calma e pensamos ali é o esteio, o repouso enfim. A viagem é finda, as estradas o passado. O pior já fora. O selvagem chamado da aflição, fim de nosso animal entranhado na herança inocente de nossos pais, está perdida no tempo, no esquecimento, um eco na distância - tudo apagado pra mim. Depois de arrasada a selva, a civilização interpõe-se, clarão e ordem. Pois, eis que então percebemos a cidade onde estamos. Temos a impressão que agora tudo podemos. Há paz, um suporte, a segurança de um método, da organização. Nossas cabeças se recostam em encostos macios, um vento sopra - o vento da ilusão. Pois, a selva não seria a selva, se não fosse indomável, incontrolável violência, eterna e inescrutável. Ela vence escondida e se entremeia, fecunda e se reproduz traiçoeiramente. Nós somos, pois, o seu adubo e as suas sementes, o avanço de sua fronteira verde e medonha, as ambições sangrentas de seus dedos galhos. Suas aflorações são alimentos do poder, abraços do terror e da brutalidade, seus infindáveis caminhos perdidos entre as palavras e de um calor úmido - as cidades perdidas, nossos corpos. É como perceber-se de repente, entre plantas famintas e a ganância de tesouros imaginários, entre monstros, feras, insetos, perdições e seus pusilânimes e rastejantes seres famintos ali, novamente, no seu mundo, nosso lar. Para a natureza pura e imaginária de nossos sonhos, apenas os desejos de sobrevivência e beleza é que renasceriam. Mas o que estará ali oculta realmente, desde então, será a verdadeira selva... a selva, a selva. Nem má, nem boa, mas quem nos leva e guia - a inocência, a ignorância. Apenas quem sobrevive lá vê a origem: - a selva, a selva, a selva - o rude cimento de nossas emoções. Quem nos tenta entre o torpor e o calor macio? As traições tem garras impiedosas - o inesperado, o cruel, o poder, o sem esperança, o desespero, o sem escrúpulos. Onde está o meu Deus? Por favor te imploro e me guia, e me diz, e me explica, e me ilumina porque à frente de mim está a escura, impiedosa, indiferente, a urbana selva continua a brotar sempre atrás de cada pensamento e ambição de nossos tolos corações quase domados. Escuta! Rugidos! Fujamos! Para aonde? Estamos perdidos? O paraíso se esconde entre as sombras e o negror das folhas.

a lua chama

a mariposa voa

a luz da chama

a mariposa à toa

a luz é chama

a mariposa vem, voa

a luz da lua

a luz da rua

a luz da chama

a luz é boa

a mariposa se engana

a luz magoa

queima uma patinha

queima outra patinha

queima uma anteninha

queima um olhinho

queima um cantinho

vai o corpo inteirinho

cinzas, pó, sujeira

acumulados

num escaninho


a lua chama

outra mariposa voa

a luz da chama

a mariposa vem

à toa

o amor é assim

sorri

voa,voa,voa...


Era uma vez
uma gaivota tonta
que de si
não podia tomar conta

E a cada vez
que no alçar voo
fez o que fez
à tudo embaralhou.

Até que entendeu
que a natureza
lhe comprometeu
no jogo da presteza.

Assim, hoje em dia
sabe o jugo terrível
e toma a primazia
do que é possível.

Pois, percebeu além
do que imaginava
que gaivota não nasceu
dentro de si
um vagalume ali jazia preso.

Surtando

Saca

quando canções

não me dizem mais nada

abstratos angustiados

debaixo de uma camiseta de grife

sobre um amor danado

que a Amy não resolve

eu

olho pela janela

vendo o cubismo de Picasso

surgir do cubismo de Braque

e se quebrar pelas esquinas

formigantes

pelas luzes

que ainda cantam para

o mundo menos

para mim

que não escuto, nem sinto

além de um acorde depois do outro

sem que o meu ouvido registre

um ai

Aí

então

sinto que é preciso

inventar um som precioso

apaixonicizante por alucinismos

e grito como Munch desesperos

Bachbatanas Bachbarrizando

e a razão some pro nada

pedindo socorro ou

por sangue

nas veias excitadas

mineiras ou argentinas

ourisanécticas matissinianas

goyastrais adMiróticas

poetronizéptycas

onde faço faloniciróferas

onde encontro o amor

poltronizado

e

logo

Duchamp canta

no espaço colorido

tecniramificando as sensactions

enquanto eu janto Dubuffet

doces formigas de Dali

como um tubarão

que tem uma jaws abocanhante

como a curvatura pi da terra

com suas pirâmides hieroglificas

e figuras hieráticas

que essas

sim

mandam beijinhos

por debaixo das colunas

e do nariz do sacerdote

como uuummmmmmmmmm

smaaaaaccccckkkkkkk

kkkkk!!!!!!!!!!

!!!!!

!!!

!


Travesseiro me responde
porque amacia tanto silêncio?
O que teu aconchego me esconde?
Será segredos mansos criados sob as cobertas?
Será o afogar de metáforas
que teu dono arrebanha não sei aonde?

Certo que o tranquilo e o escuro
são seus companheiros nessa insana alcova
aonde se aninham os indomados sentimentos
a inundar seus adormecidos pensamentos
às vezes, insones, nervosos
às vezes, puros ou sofridos, temerosos
mas, também aqueles desejos fremidos
que a fantasia a se excitar desova

Porém, quem será o dono tão presumido
a temer sua inspiração violada
e o seu oculto Parnaso de repente percebido?
Não sabe ele que ser Apolo
é não ser quase nada!
E mais vale iluminar seus olhos com o dia
para que a Razão e a sublime Poesia
lhe amem de madrugada?

Se for,
tola imaginação,
às vezes, o travesseiro se arrebenta
e os sonhos nele contidos
serão plumas devassadas
flutuando quando venta
e os versos esquecidos como folhas
de uma árvore seca e amarelenta,
serão, um dia,
lenha seca queimando inútil
numa casa fria que ninguém frequenta.

sábado, 13 de março de 2010


Por nada as horas passam
e não fazem nada que dizer
ainda...ainda..ainda
porque eu deveria compreender
aquilo que ninguém entende
que ninguém nunca entendeu!

Por nada me desespero em insistir
não há amargor
não há tudo que eu possa dizer
à menos que
ainda...ainda...ainda

Tenho que me ater a sobrevivência
como formigas sobre a mesa
haverá migalhas
haverá poeira
haverá mais e mais
haverá
ainda...ainda...ainda

Maciças sombras
são as minhas lembranças
tantos risos, tantos segredos
tanta esquinas à fugir pela noite
meus sonhos foram faróis
e as ressacas a molhar meu pés
recordações, tuas mãos

É noite,
meus sonhos são amantes
lençóis brancos e os olhos como nós
chegam ao nunca
ao que será
o que será amanhã
ainda...ainda...ainda

A razão agora tudo devora

somos nossos ditos carcereiros

tanto como tristes e frios prisioneiros

a mente levanta mil paredes

a nossa própria caixa de Pandora.

Se a razão é humana

a emoção e o afeto

são nossos frutos, fetos

onde nossa esperança mora


Paixão é do desejo

sua cria insana,

o filho que vive inquieto

esperneia e chora, chora, chora.

O que faz o homem

construir um mundo de máquinas

e admirar apenas à teoria,

as regras?


Somos os monstros que criamos,

o que imaginas.

Podemos pensar exclusivamente?

E o sentir negas?

As lágrimas estão fora de moda

e todo amor é piegas.

sexta-feira, 12 de março de 2010


Sabe, eu penso muito antes de dormir. Talvez dormir possa ser um treino para ir para o além e, antes de uma grande viagem como essa, todos devemos nos voltar à tudo que fizemos que ainda nos faz pensar muito, porque há algo ali a ser compreendido e, de uma maneira ou de outra, aceito. Mas, se pensamos em alguma coisa, pode haver várias opções, várias soluções. Porém, pensar para mim é a opção da reflexão, porque pensar pode ser apenas se lembrar ou ver imagens que não tem nenhuma ligação aparente, apenas memória sem nenhum ganho, flashes. Porém, todas as opções talvez sejam mesmo uma só, pois, se reflito quando lembro de uma recordação, qualquer coisa da infância, da mocidade, das aventuras, dos beijos e de todas as miragens alucinadas, sempre em mim desencadeia uma série de outras coisas . E, tudo que vem, é acompanhado de imagens, sons, sentimentos e todas as lembranças, lições e conclusões que se encadeiam no meu entender da época. Não é isso, esse saldo, esse sofrer para ganhar, o que podemos lucrar para também nos entender e nos aceitar? Com certeza, porque isso é o material da vida, dos que vivem intensamente, e viver é tudo que fizemos até então, mas é um fazer que precisa de descanso, pausa, intervalo para que haja um espaço em que entendamos o que aconteceu ou que virá, a reflexão. Contudo, é porque somos humanos. Uma borboleta, por exemplo, não pensa, e sim voa, se esvai, foge pra Lua. E deve ser bem mais fácil ser uma borboleta ou besouro, lagarto ou um caramujo qualquer que seja.para eles não existe ser ou não ser, apenas existem e é só. Não há julgamento, não refletem, não pensam. Às vezes, imagino assim, que eu queria ser um caramujo ou mariposa e apenas ser, ficar ali, pelo ar, pelas folhas, existir relâmpago, pela noite a desenhar minha vida no vento, nas flores, no espaço até além. Mas, qual seria o ganho no final, quando o vento para ou não há mais um caminho e não se rasteja mais atrás de alimento? Eu pelo menos posso dormir e assim me organizo, me programo. De tantas mil e uma noites, sonho sobre um tapete mágico. Durante o dia, sei que a caverna do Ali Babá é apenas uma consideração. À noite deito e sonho com ela e com o que foi, sempre meus fiel e amoroso companheiro - a fantasia, o irreal, livre, à voar comigo pelo universo como o gênio da lâmpada, sobre o tapete mágico que ganhei de presente, aquele que Deus me deu para criar.

quinta-feira, 11 de março de 2010




















Lento, lento tudo que passa
e, no entanto, à mim
é como um foguete rugindo
como é relativa a percepção, frágil sentido
a noite tão calada
e o dia
a balbúrdia de uma criança que nasce.

Mas, à noite, a cabeça fica zunindo
mesmo parada
e mesmo sendo
que tudo fosse o que fosse
viro a folha, luto mais
me animo.

Mesmo que o sentir
não estivesse mais se cumprindo
É dia. O porteiro varre,
a multidão acorda, continua,
os políticos falam de suas idéias
em que não se acredita,
o homem é falho, a ética finita
o povo passa, tudo se mexe, pulsa
é frenesi,tudo irrita

Quem não é louco?
Quem não é biruta?
é tudo a mesma coisa de sempre
nada de novo!
O tempo é um nada
que percebemos devagar
não existindo

E lentamente
tudo se vai, escoa, vaza.
Cada qual em seu tempo,
areia caindo

Mas, uma mosca
surge por acaso
bordando o ar, e passa
o telefone toca
é uma nova chance
de se saber de quem se ama,
é uma chance de ter alguém
te ouvindo

O tempo é contado
O tempo se esgota
O tempo é infindo


Se eu tivesse ainda a ti
e esse oceano não nos separasse
e as ondas não me levassem pra longe
do que de ti me restasse
e ali achasse o que me completa
mas, aonde?

Como sair desse impasse?
e se eu tivesse ainda todo o tempo
que eu a brincar não sabia que tinha
se ainda fosse ligeiro
se eu corresse, jogasse queimado
se toda esta vida
fosse um só dia inteiro
um mínimo que passou
uma fração que voasse
mesmo que fosse fingindo?

estaria eu a ver esse rio vazio
estaria eu nesse barco sem destino
Ah, se eu tivesse ainda a mirar a distancia
e se cercasse meu silêncio
com teu rosto sorrindo

não seria uma maneira de reaver os meus anos
não seria pegar um bonde partindo?
iria até a estação onde te veria saltar
para encontrar nossos olhares remotos
e aquela algazarra
que em nós vivíamos ouvindo?

mas, a rua é deserta
e quem não passa
não sabe das horas se indo
Eu me sento num banco num dia quente
e percebo o movimento, as lojas se abrindo
mais uma manhã que chega
mais um dia a sentir fugindo.