quinta-feira, 18 de março de 2010

A gota


O que nos faz querer

é uma gota inquieta

de uma essência invisível

tal como um cristal muito persistente



de tanto ziguezaguear

pelo caminho,

cobre tudo de seu material

como uma poderosa lente

e nos convence sem pudor

olhos, coração e mente



O curioso

é que amplia só aquilo

que nos faz contente

o triste é esquecido

ou é reduzido até o inexistente



A mesma lente que nos cega

nos faz tão crentes

que o que nos atinge é eterno

embora talvez termine

depois de alguma curva

que nos engane

e nos faça perceber

a felicidade ausente



Aí, depois de exaustos,

na viagem estafante

é que vamos descobrir

desaparecer a visão traiçoeira

que esconde o real retraído

ou inexistente

e a verdade

maravilhosa ou não

é o que se apresenta

não importando a desculpa

que se invente.

O cálice



LE.............. CRI
CRIA ...AÇÃO
CRIAS. SÃO
REAÇÃO
À

RAZÃO
mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm
mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Bilhete




O que me importa os fatos vãos

os ônibus,as intranquilidades

a passagem do tempo

as palavras, as dores

a insegurança,

se são as suas mãos que me faltam.


Ter-me-ia molhado os olhos

lavado meus erros

purificado meu caminho

se ele já não passasse mais

fosse névoa lenta


Tenta entender

eu aqui estou só

mas já não sofro

beijo a face da escuridão

e espero


Do nada tranquilo

que me tem à volta

dissolvo meu ser em espaço

deixo meu eu à luz

é benção não ser mais nada


Sou puro e eternamente

como o universo que fez o sim

justo ou insano

foi o que senti ali

quando eu te disse

eu te amo


PS:

Quando eu tudo te falei

isso ainda importava

e eu não era ainda

o que percebi em mim

não ser mais que um sôpro de sal

soluto no oceano

por isso, escrevi mais uma folha

mais um instante

em que não penso

em que não cometo enganos.

Livre arbítrio


Ordem

no universo

é o encontro arbitrário

ajustado ao que se convém


Sentido

é a arbitrariedade

elevado ao infinito além


Destino

é o resultado

dentro da certeza

das situações que vêm


Karma

aceitação dos acasos,

do destino e coincidências - Zen


Mas, o Caos

é fundamentalmente necessário

para encontrar a

Ordem

QUEM?

A origem da dúvida


Da incerteza do destino que fazemos a perfeição

do raciocínio

Das lacunas e do imprevisto que inventamos as soluções

pro destino

Os acidentes e acasos que nos antecipam o sucesso,

o futuro ou vaticínio

são o real , o processo divino

E apesar de tudo o final é o mesmo de sempre.

Abençoada ignorância!

Ou será melhor ser cretino?

quarta-feira, 17 de março de 2010


O real faz-se de vasta e viva ilusão, movida por vontade vertiginosa.

Miragem de clarão e ardor , o corpo da verdade - imensa e astuta

nebulosa.

Imaginemos então, se possível, a doida extensão de um espaço sem

limites de dia impalpável e acesa luz - à noite, concretude

maravilhosa.

Ali se faz tudo que há e o que mais já não há, como uma usina

de faz tudo do invisível - ópera miraculosa.


A lógica dos dados traça o caos - o jogo da natureza

é o nome da rosa.


Vence o que pensa que existe e não é tudo - o que não era, mas pode

ser agora a pura realidade, curva e enganosa.


O impossível se faz plausível e o impensável de uma crível fatuidade

goza.

Sem fim é o número de probabilidades, fazem as leis da ordem da

existência e o vivo que surge agora , a dimensão da majestade

apossa.

Tudo que imaginam é energia e vida e isso ao contrário não é tudo,

nem com boa vontade.


O poeta que é um sábio por entender de imensidão

e, às vezes, joga dados e outras vezes não

diz que comparado ao amor que o fêz e a chama que nele arde

que tudo isso é muito, muito mais além

não é nem mesmo o M com que se escreve metade

ou os dois zeros com que se fazem o cem.





Gôta após gôta

o tempo vai passando

e a gente nem se dá conta

que é um oceano

que está se formando


O importante é ter de aprender

qual o fluxo tem a direção da energia

a qual lhe ajuda a flutuar

pois a profundidade aumenta

e a inexperiência pode lhe afogar


Mas se a sua alma é sedenta

e se há como um pensamento

a fluir como um rio direto para o mar

e que direciona e aproveita o que se passa

pra ela tanto matar sua sede

ou ser como uma usina que a sua luz fique a gerar

é possível então não temer mais essas marés

ou até mesmo nelas aprender a nadar


Há quem apenas bóie

ou se debata

mas esses

não tem muito onde chegar


Só sei que com essa experiência

é melhor saber como

ou destampar a tampa do bueiro

ou apenas a torneira fechar


Mas ainda é melhor é saber

que o corpo experiente se inunda pra sempre

com o fluído da fonte da imaginação

que é o espírito do mar do universo presente

que nos afunda entre as estrelas

e por fim em seus sonhos nos deitar

até o seu fundo docemente

e que o eterno repouso apenas é

o amor do seu leito que se sente à chegar

a nós em descanso finalmente.

O desejo pode ser de algo
mas, às vezes, é do outro
O tesão é o desejo de diálogo
de algo com subjetivo análogo
ao objetivo do outro.

E se falta ali um pedaço,
é que algo é apenas objetivo
e o objeto não se une ao subjetivo
do outro que não o amarra em um forte laço.

Se, então, o outro e o algo
forem apenas objetivos
e não há motivos claros de afago
sendo que é por este que sei que vivo,
não há razão mesmo para continuar o dialogo.

Mas, se a louca alquimia
rende a matéria ao subjetivo
então o desejo liberta o afeto
agindo não sei como
e pode finalmente conquistar o mago.

Transições


Algumas coisas são como são.


Os carros não param nas avenidas,


tanta gente anda nas ruas,


nascem, vivem e morrem.


Madalena seca as mãos no avental, olha o vazio, pensa.


E eu nem sei porque eu falei nessa Madalena!


Quem seria Madalena?


Quem seria eu?


Serei eu como sou eu?


O tempo passa e de que serve tudo isso? É como é! Não serve, apenas é!


Outros caminhos não são, são apenas passagem. Mudam, transformam,


vivem a metamorfose do seu des-ser.


Mas, e o que pensei antes? As coisas são como são - é verdade.


É como é?


Ou é como será? Ou já será como foi?


Como se tudo fosse um único sendo? Sim, uma verdade.


Eu estou sendo a mim.


Não há como não ser senão à mim, em sendo eu.


Eu fui, eu sou, eu serei como tive ou terei de ser.


Tudo isso já existe em mim dentro desse movimento - o tempo essa dimensão de ser fluxo.


Assim como esta tal da Madalena, que nunca vi.


Sujou e depois lava as mãos e as guarda no bolso do avental.


Eu também lavo as minhas, pois se também as sujo.


Tudo será perdão, pois muda, flui.


Tudo será o que sempre foi - transição, mudança,


o não ser, que já sendo, é o que será, o que já existe desde o ínicio.


E o tempo é assim - é como é -não existe mais, passa.


Somos tudo isso.


Já passou.


Nada, tudo, como antes.

No íntimo


Eu escrevo para mim
para que eu sinta que não estou só
esse não-haver, essa incompetência de existir
isso não me deixa feliz comigo mesmo
Eu escrevo para minha pessoa não se ir
sinto que tentei ser como uma sugestão ínfima
do que foi um p da pessoa do Pessoa e tremo
para que eu por uma fração de segundo faça esse mundo
entender de mim o que esse absoluto ecoa nessa trama
P soa como poder, participar
P soa como planar, passarinho, pardal, periquito, voar
P soa como pacífico, ponto, parâmetro, pensar
P soa como persistente, perspicaz, paralelo, par em par
P soa como presente, passado, pronto
P soa como paraíso agora, Parnaso, gozar
P soa como personalidade, princípio, faço ou desfaço, sou
P soa como pai, pomba, paz
P soa como preciso, posso, perito, existir
P soa como perfeito, perene, eternizar
P soa como passageiro, passa, passa em qualquer lugar
P soa como para mim, próprio, puro, pio, é sério!
P soa como parceria, permitir, Eros e Psiquê, sentir, viver
P soa como parte pra luta!, ponte, pernas pra que te quero, vero!
P soa como puxa, vou continuar tentando, parti!
P soa como pois é, fiz minha parte, pertenço a ti
P soa como pode deitar e sonha, pleno, dormir
P soa como portanto é importante, fundamento, não se iludir
P soa como porta para o absoluto, para si
P soa como preciso, mas aqui está teu anjo, teu buriti
P soa como Poesia como Pessoa, o resto eu arranjo
                      
                            pra saber que existi.




O que me soa à hora primeira




faz de mim não mais esse corpo largado




esse meio que náufrago do silêncio




a ver seu navio




nave rôta




afundar em seu peito encapelado




sobre a nuvem do des-sinto




pois, não há mais um outro, o além de mim,




o trânsito de acompanhamento




pele soando em outra pele




afundando em teu-meu.




Não, agora talvez pressinta




que nada tem de ser assim




a sessão não acabou




posso ouvir que a vida não se tranca numa gaveta




o mar tem vários humores




mas ainda não chegou aonde estou.

Absurdos


Talvez eu tenha que ficar aqui para saber


o quanto faço parte do absurdo diante do que vejo,


embora seja esta a minha Terra e não Marte.


O que estranho aqui neste planeta ou outro qualquer,


por aí ou por lá,


no País das Maravilhas ou ali na rua,


é que tudo me espanta.


Talvez seja necessário saber




o barulho dos carros disparados




o alvoroço das aves na praça




o berro do feirante à cada um que passa




os seriados na tv




e o nada que é ser




sem estar diante de um absurdo




sem pensar porque a cabeça faz zum...




E as horas passam




e o tempo se esvai




as ruas lotam




os passantes se vão




as bocas falam




os dedos apontam




os gestos se perdem




os olhos se fixam em lugar algum. Penso.



Tenho-me estranho


porque não acredito no que vejo


Sei que o tempo está contado


e ainda não fiz o que esperava.


A surpresa sempre existe,


talvez próxima,


talvez ainda a chegar.


O certo é o lugar nenhum,


mas o impossível


é o caminho do meu ensejo.

O carrossel


O medo de se perder alguém é a condição que demarca os limites da tolerância do sofrer pela realidade do sentimento, que surge por não se encontrar a possibilidade da reciprocidade do outro, ou mesmo da sua própria ausência


e que o mundo gira como uma nuvem que pode estar em fúria, ou apenas a levitar, suspirar, fazer levantar de leve um lenço.


É quando a capacidade de se firmar ao solo, que são as únicas chances de sobrevivência que você tem, parece que voa, zunindo com a velocidade de um trem e ...adeus!

É tão espantoso saber que outro ser é tão parte do seu corpo, como as partículas que giram para formar toda matéria que o seu próprio ser tem


como seu existir luminoso e circular, que tudo e toda matéria em si contém, formasse o seu ser com algo do outro ser também.


Tudo como vento de um redemoinho a girar infinitamente para fazer de fumaça, da matéria, você ser alguém novo, com o outro.

A rodar se faz um parque de diversões, onde se pensa participar do impensável, do infinito, enfim vive-se.

Mas, se é você mesmo que faz seus redemoinhos, o que se espera é que não conseguirá controlar os giros, as rotações, e fará os seus monstros de voltas velozes que desfazem o que houver à sua volta, que fazem de tudo ninguém

E o outro se vai, rodopia, flui.

Isso forma seu limite, como o de tolerar que o vento dobre a esquina, leve seu cheiro, seu toque, seu carinho, enquanto você espera que o sinal se abra e demarque o seu domínios, suas posses, até onde é possível participar dessa rota em comum


Sabendo que ali, se o carrossel do destino parou, perderá todas as voltas, o parque se fecha e os portões são trancados.


E mostrar o bilhete não mais adianta, porque o carrossel evaporou e levou a música e sua felicidade com seus cavalinhos a girar no além

Amor é a vitória sobre a lei da sobrevivência.

Quando o de mim perdido se abre em dia e o inalienável salvo se apruma


o céu agradecido abre as portas invisíveis do inefável e me mostra o sem fim


vital voo para onde tudo ruma.


Me conta que o que nos pertence, ninguém nos tira ou é esquecido


É pleno, transborda, nos perdoa e não se limita à coisa alguma


Quanto ao resto sorri, tira do bolso do seu manto, o firmamento,


páginas dobradas em que lê


frases pelas constelações escritas com uma pluma:


De nada adianta

soprar contra o vento

nem tecer rede de coisa nenhuma

É como catar todo o vazio do universo

para preencher uma lacuna

terça-feira, 16 de março de 2010

Inconsistências




São altas horas
e o que é de mim é da natureza
se nada tenho e tudo perco
é porque nada tenho e nada perco

Tudo é passageiro, é natural

e o que é nosso
é nosso em trânsito
que é uma percepção do tempo
e o tempo é só uma dimensão do nada
nada tenho, nada perco

Tudo é ilusão em nós
nós que somos o que pensamos ser
e somos aquilo que não existe
porque o que existe
é o vazio que transita por nós
em sua rotação que faz o que existe
e não aquilo que queremos

É o seu caminho que nos ilude ao que somos
a pensar que somos nós
o que fomos tudo que somos
quando ainda não se é
quando o que se é
é apenas a caminho em que estamos
do que ainda não somos
E dói saber de tudo isso!
dói sofrer pelo que não se é!
se fossemos aquilo que um dia percebemos
saberíamos de tudo aquilo que não se é
e que talvez o que nunca fomos

Agora que a manhã nasce
a luz nos dita mais uma vez
sua quântica ilusão
que nos diz que agora é dia
que é o mesmo mecanismo
que em nossa visão se apagara
uma óbvia fantasia se prepara
ou total confusão

Sejamos gratos, portanto
ao que nos vêm seja o que for
embora, choremos cada minuto dessa desilusão
e o que nos vem abraçar
porque o acaso ou o sagrado deixou
pode ser a sabedoria que o mundo nos tem a dar
tudo que nos restou


Assim é a nossa vida
assim é o nosso trafegar
assim é a nossa existência
assim é a nossa dor

Talvez alguma alegria
seja ainda remédio
para toda essa incoerência
pro que ainda não dá para acreditar
mas se nada tenho, também nada dou
se tudo é ilusão ou quimera
também não posso estar onde estou!

Mente


A

MENTE

MENTE

SE DIZ

QUE EM SI

TRAZ

APENAS A

SEMENTE

POIS

SER

MENTE

TAMBÉM

É FRUTO

NADA QUE SE

LAMENTE

SOMENTE, MAS

PLENAMENTE

O SER

ABSOLUTAMENTE

A

FLOR

A EXALAR A SI

A ALMA

DESSE

PRESENTE

QUE

O AMOR

SENTE

ESSE

SIM

A SEMENTE

SENÃO MENTE

A

MENTE

VERDADEIRA

MENTE

EM


TI

O desejo


Às vezes,
sou um poço
ou, às vezes
sou alguém no fundo deste poço
ou mesmo a água,
a fonte que alimenta o poço
às vezes, o eco que reverbera
nas paredes circulares dele
solitárias rochas.

De lá, do horizonte
virá a caravana
que irá me tirar daqui
e beber-me

mas a minha voz ressoa ainda
pelas paredes de pedra
Levem-me ao Egito, grito
alimentar-me das pirâmides
de mel, crocodilos e versos

Regurgitarei rios sobre a areia
desenhando a forma do sol sobre o Nilo

Entretanto, ninguém entende a língua dos poços
Quem atenderá um eco?
O que ainda terei de ser?
Tudo posso ser !
Aí vem o desfile da rainha!
Posso ser o tapete vermelho
ou a coroa de diamantes
nas eternas cabeças dessa realeza de cores
Posso ser como essas cabeças vermelhas, douradas ou azuis
cabeças de faraó ou de rei
rolando pelo tapete da eternidade
se fazendo de deuses
curvando a história a lhes beijar os pés.

Tudo eu posso ser, vê?
basta que me dê as suas mãos
Onde estão suas mãos?

Bom dia!



Todos sentem desejos, é certo. É bom sentir um sonho de perto.

Desembrulhar a malícia lenta e inevitavelmente. Risos. Carinho e urgência. O silêncio de se estar acompanhado e o universo que subitamente se faz matéria, se condensa até poder tocá-lo. E que então te chama.

O presente está ali, o tempo parou. Surge como uma surpresa à sua frente e te conduz a um oceano que pode te tragar e à sua embarcação, que extenuada e faminta, ruma ao desconhecido além, talvez praias inóspitas, mas que escondem ainda um perdido paraíso, o impossível possível - a falta, o que te determina a ser feito para lhe satisfazer de maneira vital, a lhe dispor ali, de uma hora para outra, tudo que nunca se teve - a razão para vida.

O destino da viagem, de repente, não é mais o futuro, mas o sempre-já que chegou, o que está ali à sua frente e te despe e se expõe, se desnuda, com toda urgência para te engolfar em sua própria carne que vibra. E te invade ciente da necessidade que transcende razões. Tudo é urgência, respiração veloz, bruta.

E, à sua volta, explodem foguetes imaginários que não se sabia que existiam, o tempo novo do que não se mede com tempos que se iniciam, e por isso mistério.

A presença se faz matéria fremente ao toque cada vez mais rápido, batidas e empurrões, pele à pele, na dor do querer, pela inundação à lhe queimar e uma umidade que nos amansa.

O interminável em um pequeno tempo para ver e explorar essa fome que não sacia - um dia de mil e uma noites no escuro, como quem espera uma rua com casas vazias e encontra uma cidade perdida e iluminada, feliz e, em algum lugar, a hospitalidade de um invisível querido.

Histórias se misturam entre suor, corpos e afagos e formam o novo, o que nunca se viu.

Chegaste à minha oculta morada, meu íntimo.

Então bata à minha porta, coma a minha comida, desperte a minha sede, durma o meu sono.
Acompanhe-me até o meu abandono, a caverna oculta onde se faz a minha entrega - não há mais pudor em ser ou não ser.

E me mostre o meu engano - acenda a luz para que veja quem chegou e descubra que há mais alguém, mas que adora o teu avesso, o que se vê e o que se imagina, toda embate, teu arremesso, a sua companhia, os dedos sempre acesos para o meu gelo. E, diante da bem aventurança, se dá o encontro.

À volta, agora, tudo e todos são os outros, o que não se entende, o gelo. Ao aqui, nada se compara em calor crescente e ao oásis revelado. E aí, então, esse deserto te agradecerá e finalmente te dará as boas vindas.

Bom dia!

segunda-feira, 15 de março de 2010

metamorfética


Matei outro dia
uma barata a comer farelo
me culpei como podia
seria Kafka embaixo do chinelo?

A vida tudo me confunde
como me confunde pensar
no que ainda não pensei achar
até uma poça penso que me inunde
morro de sede olhando o mar

não há certezas, na verdade
na lida que travo todo dia
tudo que acho que é certo é a metade
de um engano mais metade que eu não sabia

Então é por isso que não sou culpado
dessa metamorfose entre o certo e o errado
Talvez Kafka vivesse nessa barata
enquanto ela pensasse ter finado
só por não ter umas pratas
no banco até hoje depositado.

A alma sente a brisa
como delícia
que o corpo não oprime.
Sentirá ela liberta
maiores gozos, prazeres
os quais não exime?

Mas se alma então acredita
que é a imaginação livre a sentir
que nada a prende por todo universo
que de tudo faz parte e vive
e o infinito lhe é propenso
e que o destino lhe dita

Não se sentirá ela mais infinita
a fazer algo a fremir
com um perdido nada
que dentro de si tramita?



De nada adianta pensar que estás aqui,se não estás,


pois não me consola as mentiras bem intencionadas,


as que inventamos para nós mesmos a nos enganar - não é uma boa causa!


O mundo não volta para trás, a chuva não retorna aos céus,


não continuamos a existir em falso, cadafalso, jogo de gato e rato....de dama ou xadrez.


Mas de ti dependo tanto quanto não posso te compreender.


É como um sopro bendito, tu, inspiração iluminada, geniosa guia dessa torta estrada, cândida portadora de idéias.


Faz meus traços, minha letra, teu porto, pouso, mosteiro do que penso.


No entanto, agora já lhe sinto, sei que chegaste!


E vamos mais uma vez abrir as portas ao que vem além de nós, além de qualquer criação que já foi imaginada.


E agora já lhe sinto, tu, estranha flama, benvinda amada! Escrevo, crio!

Tem dias que mordo os lábios e trinco os dentes, percebo que estou de carona nas idiossincrasias como única locomoção. Algo avança como um ventinho, bule nas caraminholas. Sopra lento. Vai misturando tudo aqui por dentro, embaçando, penetrando as gretas da sensatez ( se é que alguma vez as tive).


E, de súbito, já sinto a sensação do troço - é como levantar voo, planar perigosamente sobre cumes, pontas de rocha, espinhos, tudo que está aí que pode ferir e a gente tenta tomar altitude. Não responde a instrumentação, o manche não funciona. O céu é a salvação, mas o aparelho não se mexe - estou trancado num vazio.

Aí, as perguntas e as filosofices começam à aparecer. Não há solução para todas as bobagens que surgem esta hora.


Porém, de repente, os instrumentos voltam a funcionar.

Atravesso veloz o ar, porque imagino que sou o próprio voo desde a hora da decolagem até o momento em que aterrisso, onde descubro de antemão que a resposta para tudo eu já tinha, já conhecia de antemão!

Tudo tão simples, tão claro e logo ali, na minha frente. Então - luz! Reparo como este céu é enorme, infinito, brilhante e azul. E que para mim, surpreso, por toda minha vida, eu dele sempre tinha feito parte.

Tão tolo
como querer equiparar à qualquer coisa
à bolha de cuspe ou de cristal
estrume ou âmbar precioso
tudo que surge em horas do impreciso, ou angústia
deve se igualar
tanto para um Napoleão quanto para seu cabo

Cheire a anjo ou estivador
coma em porcelana ou com as mãos
o espetáculo é para todos
quer você queira ou não

se ninguém merece
as horas de espera pelo que se teme
ou se quer muito,
mesmo quando a terra treme
ou a nau lhe enjoa e o avião mal voa
já deu trabalho, mesmo fim,
pelo que parece nos tratados
à muita gente boa

Cada um sabe da colher
que lhe serve de almoço,
da posição de dormir,
ou quanto se espera um doutor chegar
para colocar o dedo na ferida

Eu prefiro ficar aqui
enchendo essa brancura
que também é momentânea
com esse caminho de letras
que nunca vai chegar à lugar nenhum
Quem sabe até lá
tudo isso passa?

domingo, 14 de março de 2010


Me dei conta que o amor deriva

pelos mares da imperfeição

e pelas terras desconhecidas do improvável


O que importa se a brisa é leve

e o meu coração flutua

Vem comigo, amigo

Deixa a sombra amarga de nossos defeitos

pelo vasto mirar do acontecer


O horizonte é um belo amante

que beija com a promessa do amanhã

e, só, o espera ali adiante

em seu leito branco

e linear com sua boca vã

o insaciável amor do navegante.


Anseia o que quer em si,

se firmar num belo ser

enquanto, só no seu mirante,

vê um continente perdido aparecer


O futuro assim te admira

te deseja

te recebe

te possui em breve surpresa

e te afaga

te constrói e intui que

apesar da correnteza dura

e o que mau tempo destrói

tudo é pela aventura em que

o amor é o herói.


Se portanto feliz e ruma

que o amor também o seguirá

Depressa, iça as velas

Anda, corre ligeiro, que o amor obediente te segue

te alcança, te atravessa

não dorme, é sopro ou vendaval

sem desespero


E aí pleno, estremece, aporta

e apenas é

infinito, nada, além, ponto, universo


E tu também o sendo - o devir, o sou, o será

o seu mundo, o esplendor

e o que não interessa e nem adianta pensar

o gozo depois da ansiedade,

luta, rebentar


Ou só nós ali

esquecidos, despidos, perdidos

enrolados na pele aquecida

do seu simples mirar.

Me surpreende
como se retorce
e se espalha a natureza
o que desabrocha hoje
amanhã já não se vê o pó
tudo é leveza

o já é passado
o hoje
uma fração perdida
entre as migalhas esparsas
de um lanche esquecido
sobre a mesa

Se contarmos
agora,
os dez dedos da mão
à palma e ao braço
e antebraço
unidos estarão
do nascimento ao último sopro
se cuidarmos com boa sorte
e um pouco de precaução.

Se calamidade nenhuma
os separa da vizinhança viva
e à alma presa
o que a vida não desune
a morte o faz como empresa

Porém, desta dita
não me leva a fortuna
não retenho
não resisto
não oponho
entrego "la plata"
dou benvindo a gatuna

Mas o bem que oculto
é mistério
cuja senha são poesias
sussurradas uma à uma

E se atento escutares
e levares à sério
aí não terás mais
infelicidade alguma

No entanto,
se são o beijos que são o encanto
eles que serão as bênçãos
sussurradas uma à uma.

A selva - primeira versão


Depois de longa jornada, campo lisos e vagos. A noite é calma e pensamos ali é o esteio, o repouso enfim. A viagem é finda, as estradas o passado. O pior já fora. O selvagem chamado da aflição, fim de nosso animal entranhado na herança inocente de nossos pais, está perdida no tempo, no esquecimento, um eco na distância - tudo apagado pra mim. Depois de arrasada a selva, a civilização interpõe-se, clarão e ordem. Pois, eis que então percebemos a cidade onde estamos. Temos a impressão que agora tudo podemos. Há paz, um suporte, a segurança de um método, da organização. Nossas cabeças se recostam em encostos macios, um vento sopra - o vento da ilusão. Pois, a selva não seria a selva, se não fosse indomável, incontrolável violência, eterna e inescrutável. Ela vence escondida e se entremeia, fecunda e se reproduz traiçoeiramente. Nós somos, pois, o seu adubo e as suas sementes, o avanço de sua fronteira verde e medonha, as ambições sangrentas de seus dedos galhos. Suas aflorações são alimentos do poder, abraços do terror e da brutalidade, seus infindáveis caminhos perdidos entre as palavras e de um calor úmido - as cidades perdidas, nossos corpos. É como perceber-se de repente, entre plantas famintas e a ganância de tesouros imaginários, entre monstros, feras, insetos, perdições e seus pusilânimes e rastejantes seres famintos ali, novamente, no seu mundo, nosso lar. Para a natureza pura e imaginária de nossos sonhos, apenas os desejos de sobrevivência e beleza é que renasceriam. Mas o que estará ali oculta realmente, desde então, será a verdadeira selva... a selva, a selva. Nem má, nem boa, mas quem nos leva e guia - a inocência, a ignorância. Apenas quem sobrevive lá vê a origem: - a selva, a selva, a selva - o rude cimento de nossas emoções. Quem nos tenta entre o torpor e o calor macio? As traições tem garras impiedosas - o inesperado, o cruel, o poder, o sem esperança, o desespero, o sem escrúpulos. Onde está o meu Deus? Por favor te imploro e me guia, e me diz, e me explica, e me ilumina porque à frente de mim está a escura, impiedosa, indiferente, a urbana selva continua a brotar sempre atrás de cada pensamento e ambição de nossos tolos corações quase domados. Escuta! Rugidos! Fujamos! Para aonde? Estamos perdidos? O paraíso se esconde entre as sombras e o negror das folhas.

a lua chama

a mariposa voa

a luz da chama

a mariposa à toa

a luz é chama

a mariposa vem, voa

a luz da lua

a luz da rua

a luz da chama

a luz é boa

a mariposa se engana

a luz magoa

queima uma patinha

queima outra patinha

queima uma anteninha

queima um olhinho

queima um cantinho

vai o corpo inteirinho

cinzas, pó, sujeira

acumulados

num escaninho


a lua chama

outra mariposa voa

a luz da chama

a mariposa vem

à toa

o amor é assim

sorri

voa,voa,voa...


Era uma vez
uma gaivota tonta
que de si
não podia tomar conta

E a cada vez
que no alçar voo
fez o que fez
à tudo embaralhou.

Até que entendeu
que a natureza
lhe comprometeu
no jogo da presteza.

Assim, hoje em dia
sabe o jugo terrível
e toma a primazia
do que é possível.

Pois, percebeu além
do que imaginava
que gaivota não nasceu
dentro de si
um vagalume ali jazia preso.

Surtando

Saca

quando canções

não me dizem mais nada

abstratos angustiados

debaixo de uma camiseta de grife

sobre um amor danado

que a Amy não resolve

eu

olho pela janela

vendo o cubismo de Picasso

surgir do cubismo de Braque

e se quebrar pelas esquinas

formigantes

pelas luzes

que ainda cantam para

o mundo menos

para mim

que não escuto, nem sinto

além de um acorde depois do outro

sem que o meu ouvido registre

um ai

então

sinto que é preciso

inventar um som precioso

apaixonicizante por alucinismos

e grito como Munch desesperos

Bachbatanas Bachbarrizando

e a razão some pro nada

pedindo socorro ou

por sangue

nas veias excitadas

mineiras ou argentinas

ourisanécticas matissinianas

goyastrais adMiróticas

poetronizéptycas

onde faço faloniciróferas

onde encontro o amor

poltronizado

e

logo

Duchamp canta

no espaço colorido

tecniramificando as sensactions

enquanto eu janto Dubuffet

doces formigas de Dali

como um tubarão

que tem uma jaws abocanhante

como a curvatura pi da terra

com suas pirâmides hieroglificas

e figuras hieráticas

que essas

sim

mandam beijinhos

por debaixo das colunas

e do nariz do sacerdote

como uuummmmmmmmmm

smaaaaaccccckkkkkkk

kkkkk!!!!!!!!!!

!!!!!

!!!

!


Travesseiro me responde
porque amacia tanto silêncio?
O que teu aconchego me esconde?
Será segredos mansos criados sob as cobertas?
Será o afogar de metáforas
que teu dono arrebanha não sei aonde?

Certo que o tranquilo e o escuro
são seus companheiros nessa insana alcova
aonde se aninham os indomados sentimentos
a inundar seus adormecidos pensamentos
às vezes, insones, nervosos
às vezes, puros ou sofridos, temerosos
mas, também aqueles desejos fremidos
que a fantasia a se excitar desova

Porém, quem será o dono tão presumido
a temer sua inspiração violada
e o seu oculto Parnaso de repente percebido?
Não sabe ele que ser Apolo
é não ser quase nada!
E mais vale iluminar seus olhos com o dia
para que a Razão e a sublime Poesia
lhe amem de madrugada?

Se for,
tola imaginação,
às vezes, o travesseiro se arrebenta
e os sonhos nele contidos
serão plumas devassadas
flutuando quando venta
e os versos esquecidos como folhas
de uma árvore seca e amarelenta,
serão, um dia,
lenha seca queimando inútil
numa casa fria que ninguém frequenta.

sábado, 13 de março de 2010


Por nada as horas passam
e não fazem nada que dizer
ainda...ainda..ainda
porque eu deveria compreender
aquilo que ninguém entende
que ninguém nunca entendeu!

Por nada me desespero em insistir
não há amargor
não há tudo que eu possa dizer
à menos que
ainda...ainda...ainda

Tenho que me ater a sobrevivência
como formigas sobre a mesa
haverá migalhas
haverá poeira
haverá mais e mais
haverá
ainda...ainda...ainda

Maciças sombras
são as minhas lembranças
tantos risos, tantos segredos
tanta esquinas à fugir pela noite
meus sonhos foram faróis
e as ressacas a molhar meu pés
recordações, tuas mãos

É noite,
meus sonhos são amantes
lençóis brancos e os olhos como nós
chegam ao nunca
ao que será
o que será amanhã
ainda...ainda...ainda

A razão agora tudo devora

somos nossos ditos carcereiros

tanto como tristes e frios prisioneiros

a mente levanta mil paredes

a nossa própria caixa de Pandora.

Se a razão é humana

a emoção e o afeto

são nossos frutos, fetos

onde nossa esperança mora


Paixão é do desejo

sua cria insana,

o filho que vive inquieto

esperneia e chora, chora, chora.

O que faz o homem

construir um mundo de máquinas

e admirar apenas à teoria,

as regras?


Somos os monstros que criamos,

o que imaginas.

Podemos pensar exclusivamente?

E o sentir negas?

As lágrimas estão fora de moda

e todo amor é piegas.

sexta-feira, 12 de março de 2010


Sabe, eu penso muito antes de dormir. Talvez dormir possa ser um treino para ir para o além e, antes de uma grande viagem como essa, todos devemos nos voltar à tudo que fizemos que ainda nos faz pensar muito, porque há algo ali a ser compreendido e, de uma maneira ou de outra, aceito. Mas, se pensamos em alguma coisa, pode haver várias opções, várias soluções. Porém, pensar para mim é a opção da reflexão, porque pensar pode ser apenas se lembrar ou ver imagens que não tem nenhuma ligação aparente, apenas memória sem nenhum ganho, flashes. Porém, todas as opções talvez sejam mesmo uma só, pois, se reflito quando lembro de uma recordação, qualquer coisa da infância, da mocidade, das aventuras, dos beijos e de todas as miragens alucinadas, sempre em mim desencadeia uma série de outras coisas . E, tudo que vem, é acompanhado de imagens, sons, sentimentos e todas as lembranças, lições e conclusões que se encadeiam no meu entender da época. Não é isso, esse saldo, esse sofrer para ganhar, o que podemos lucrar para também nos entender e nos aceitar? Com certeza, porque isso é o material da vida, dos que vivem intensamente, e viver é tudo que fizemos até então, mas é um fazer que precisa de descanso, pausa, intervalo para que haja um espaço em que entendamos o que aconteceu ou que virá, a reflexão. Contudo, é porque somos humanos. Uma borboleta, por exemplo, não pensa, e sim voa, se esvai, foge pra Lua. E deve ser bem mais fácil ser uma borboleta ou besouro, lagarto ou um caramujo qualquer que seja.para eles não existe ser ou não ser, apenas existem e é só. Não há julgamento, não refletem, não pensam. Às vezes, imagino assim, que eu queria ser um caramujo ou mariposa e apenas ser, ficar ali, pelo ar, pelas folhas, existir relâmpago, pela noite a desenhar minha vida no vento, nas flores, no espaço até além. Mas, qual seria o ganho no final, quando o vento para ou não há mais um caminho e não se rasteja mais atrás de alimento? Eu pelo menos posso dormir e assim me organizo, me programo. De tantas mil e uma noites, sonho sobre um tapete mágico. Durante o dia, sei que a caverna do Ali Babá é apenas uma consideração. À noite deito e sonho com ela e com o que foi, sempre meus fiel e amoroso companheiro - a fantasia, o irreal, livre, à voar comigo pelo universo como o gênio da lâmpada, sobre o tapete mágico que ganhei de presente, aquele que Deus me deu para criar.

quinta-feira, 11 de março de 2010




















Lento, lento tudo que passa
e, no entanto, à mim
é como um foguete rugindo
como é relativa a percepção, frágil sentido
a noite tão calada
e o dia
a balbúrdia de uma criança que nasce.

Mas, à noite, a cabeça fica zunindo
mesmo parada
e mesmo sendo
que tudo fosse o que fosse
viro a folha, luto mais
me animo.

Mesmo que o sentir
não estivesse mais se cumprindo
É dia. O porteiro varre,
a multidão acorda, continua,
os políticos falam de suas idéias
em que não se acredita,
o homem é falho, a ética finita
o povo passa, tudo se mexe, pulsa
é frenesi,tudo irrita

Quem não é louco?
Quem não é biruta?
é tudo a mesma coisa de sempre
nada de novo!
O tempo é um nada
que percebemos devagar
não existindo

E lentamente
tudo se vai, escoa, vaza.
Cada qual em seu tempo,
areia caindo

Mas, uma mosca
surge por acaso
bordando o ar, e passa
o telefone toca
é uma nova chance
de se saber de quem se ama,
é uma chance de ter alguém
te ouvindo

O tempo é contado
O tempo se esgota
O tempo é infindo


Se eu tivesse ainda a ti
e esse oceano não nos separasse
e as ondas não me levassem pra longe
do que de ti me restasse
e ali achasse o que me completa
mas, aonde?

Como sair desse impasse?
e se eu tivesse ainda todo o tempo
que eu a brincar não sabia que tinha
se ainda fosse ligeiro
se eu corresse, jogasse queimado
se toda esta vida
fosse um só dia inteiro
um mínimo que passou
uma fração que voasse
mesmo que fosse fingindo?

estaria eu a ver esse rio vazio
estaria eu nesse barco sem destino
Ah, se eu tivesse ainda a mirar a distancia
e se cercasse meu silêncio
com teu rosto sorrindo

não seria uma maneira de reaver os meus anos
não seria pegar um bonde partindo?
iria até a estação onde te veria saltar
para encontrar nossos olhares remotos
e aquela algazarra
que em nós vivíamos ouvindo?

mas, a rua é deserta
e quem não passa
não sabe das horas se indo
Eu me sento num banco num dia quente
e percebo o movimento, as lojas se abrindo
mais uma manhã que chega
mais um dia a sentir fugindo.

Além de Sófocles


Que me importa toda tragédia grega? Não quero extremos, procuro o banal. Há mais méritos em transcender o comum ou fechar as mãos aos céus e suplicar? Ou mesmo andar levando o peso do mundo às costas - insanidade? Ou ainda medir com passos o rio que se forma de nossas angústias e temor? Prefiro os caminhos simples. Em torno dele, desenho com os olhos uma solução minha e faço que por mim, seguindo essas linhas, como um fio de Ariadne, que tudo se desfaça, e o caminho surja livre, claro, salvador. A intensidade do que penso me revela os umbrais do se que faz o possível. Invento, crio. Minha humanidade treme, se espanta, se eleva por degraus aéreos. Aparto o que há por dentro em mim, para que se levante de mim o inverso de mim, a clareza, até chegar a atônita Fonte do Eu Perfeito, onde saciar minha ansiedade. Mas, eis que em sua margem me encontro em espectro. É tarde, admiro-me, narciso-me. Meu corpo agora é pedra. Minha faina factora a flor ad aeternum - mirabilis est.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Carta à uma artista


Ainda agora, escutei uma poetisa falando - dessas novas que aparecem de repente na televisão, enquanto a gente espera o domingo acabar. E era mesmo uma poetisa, não só porque fossem belos os seus versos ou porque a repórter assim chamasse a cândida mulher, mas porque se reconhecia nela que revelava a aura das pequenas coisas escondidas, como se tivesse um radar no coração e um microscópio no cérebro, que ampliasse todas as sensações possíveis, os nichos que se revelam entre as dobras dos pensamentos, acontinentando-se magicamente na harmonia clara que ouvíamos nos versos. Mas, o que mesmo me surpreendeu foi quando disse sonhar em ser Deus - ela queria ter escrito a Bíblia, ser Deus-poeta. E aí, me deu vontade de ter podido dizer a ela, de gritar através da tv : -mas, tu és Deus. Não é preciso sonhar o que se é. A bela Obra é sua também, foste tu que também a fizeste. Todos a fizeram. E eu também! Eu como pequeníssimo pedaço Dele, o Autor. Eu , átomo obscuro de Deus, não deixo de ser Deus também. Porém, não tenho a humildade do poeta em sonhar ser Deus. Talvez por não ser poeta, mas posso representar a pequena porção do tudo. Eu infinitamente, miseravelmente, tão imperfeitamente pequeno, sou obra criada, um embaixador momentâneo da poesia do universo, sou Deus. Posso ler também maravilhas em mim e tentar colar, consertar folhas, emendar as letras dissolvidas, reescrever a Gênesis escrita em ouro com as manchas do meu sangue, com o negro argentino da minha vida, tentar reconstruir a pérola que eu mesmo desnacarei. Tão ignorantes que nós somos, que eu sou, que perdemos nosso valor, esquecemos do que fomos. Temos de restaurar a criação que fomos e somos, e aí talvez nos lembremos de que não é preciso sonhar. Retiremos essa crosta terrível de nossas imperfeições de cima do que é puro e a cada milímetro resgatado da dor e da tolice, e pode ser que, um dia, consigamos ler nitidamente ali, por sobre a pele , algumas letras, uma frase. E, um dia, talvez daqui há muito, mas muito tempo, nos lembremos até do momento exato em que escrevemos todos juntos: "Primeiro era o verbo..."

terça-feira, 9 de março de 2010

O presente


Ela me deu seu livro de poesias e eu disse que eu tinha de lhe responder por escrito, mas com poesias. E ela disse que sim, que estava esperando. Pra quê que eu falei isso, se não era poeta? O quanto de poesia à vista para mim são como os fiats que rolam pelas avenidas, são onibus que trafegam, enquanto os pobres mastigam violência e cospem fogo? Ela me encontrou de novo e disse: - nem um telefonema! E eu disse: - tá bem, eu te escrevo é melhor. Porquê? Abro um jornal, leio, depois o dobro, tiro a roupa, tomo banho, me visto, me arrumo e saio. Abro a porta. Fecho a porta e passo a tranca. Deixo lá o seu livro azul, azul. Porque não escrever? Porque ter vergonha? Eu sou pretencioso e, ao mesmo tempo, também sou nada. Tenho quase quarenta. Já fiz de tudo e permaneço como um grão de areia a lembrar da pedreira de onde vim - meu pai é cruz, minha mãe é dia, me criei na praia, sou como este ar, mas, talvez, com areia, água, sal. Porém, a praia é agora diferente daquela praia que tinha pescador pescando arraias-manteiga e peixes voadores com asas cor de arco-íris, que devolviam ao mar por não serem comestíveis, e dois caras que iam às ilhas Cagarras e voltavam cheio de cocos, de conchas lindas e os músculos estourando - eles iam remando numa canoa colorida de azul e vermelho que ficava largada ali na areia. Até o dia que a noite chegou e nada de garotos, nada de peixes ou conchas e cocos. Foi um dia triste, foi mesmo, mesmo para quem não entendeu as luzes na areia que sinalizavam à noite para o horizonte e esperavam uma resposta ao longe. Eram a suas famílias, pais e mães, irmãos, avós e avôs, amigos e todos que os conheciam e admiravam a esperar em vigília ali na praia de Ipanema. Acenderam fogueiras, usavam lanternas e lamparinas com as quais acenavam, esperançosos, para ninguém. Isso aconteceu se bem me lembro, em frente àquela rua, onde havia uma mansão dos donos de uma rede de lojas chique e do outro lado moravam duas senhoras - mãe idosa e a filha excepcional que sempre observavam vestidas com vestidos de franjas e, às vezes, com uma pena negra e curva na cabeça como duas melindrosas, sobre o muro amarelo do seu jardim cimentado, a olhar as pessoas indo para a praia, ali na Farme de Amoedo. O dia anterior amanhecera com a bandeira vermelha de perigo hasteada no posto oito, houvera uma ressaca daquelas que chegara de surpresa, as ondas cobriam as calçadas e a pista de asfalto e banhavam os pedestres que por ali passavam. Ela começara com uma ventania de madrugada, justo a hora que os rapazes costumavam sair para remar até as ilhas e mergulhar. Não voltaram. O alarme foi dada aos salva-vidas que acionaram uma busca lanchas assim que melhorasse o tempo. A noite baixou e nada. Não parecia a praia alegre e sensual aonde surgiria pouco tempo depois a inspiração para a bossa nova. Várias fogueiras acesas pelos familiares tentavam indicar terra firme aos naufragos. Até a manhã do dia seguinte ninguém foi encontrado. Mais tarde,um corpo foi achado boiando em alto mar e o outro numa praia do Recreio quinze dias depois. Mas, aquele foi um amanhecer triste, nunca me esqueci.E de nada adianta me lembrar, foi-se. Neste momento, a areia está quente, sol em meu rosto e todo o céu está azul, azul. Um pivete luta na praia com um rapaz, logo vem a sua turma e a do outro também. Cadeiras voam, como as barracas, os sanduiches, a gritaria. Socos, rasteiras, palavrões. Tudo voa pelos ares com uma chuva de areia. Os guardas-vidas chegam com outros policiais. Os banhistas correm com as crianças pelos braços. A pancadaria continua com os apitos e tumulto. Eu estou bem longe a imaginar quando virá a onda, o macaréu, o maremoto que vai me afogar em cor. Vai quebrar as vidraças, arrancar as pedras portuguesas e deixa-las pra lá do pantanal e da minha passividade. Será a onda espumante, negra, conquistadora que irá transformar a mata Atlântica e arrancar os espinhos da minha carne. Absolvição. Poesia. E me deixo levar nessa correnteza sem ver que em algum lugar do mundo:

um negro atravessa a quinta avenida

e conserta sobre o nariz seu óculos brilhante e verde;

uma mão lanhada retira um peixe arfante,

amarelo e oleoso do rio Javari;

um ator enforca a atriz numa cena percebendo

o quanto ele a amará na cena seguinte;

abre-se um olho irrigado de vermelho e pinga-se

quatro gotas de Lacril até que a irritação desapareça;

um pastor prega que " de embriaguez e de dor te encherás,

do calix de tua irmã Samaria";

um quadrúpede empaca diante de um onibus cheio

de gente e zum-zum dos insetos;

um tapete mágico sobrevoa as torres das refinarias

incendiadas por foguetes terra-terra;

um mulato de morro penetra a sua nega

mordendo seus braços de deusa Shiva;

uma mulata sacode seus peitos, encobreia,

aperta e quase engole todo o seu Ulisses;

alguém coloca gasolina no tanque sem sentir

que os vapores do combustível são um perigo terrível;

duas drosophillas se acasalam numa retorta transparente

acoplada a um contador Geiger à 0 graus centígrados;

a íris azul, azul do Brad Pitt espelha os refletores

iluminando um abismo sobre o Colorado;

o corpo de uma mulher de meia-idade é encontrado

semi-despido, desfigurado, cheio de moscas, enquanto o

investigador desconfia do seu marido de pouca idade;

em algum lugar do mundo existem Das Dores, Franks,

Brendas, Severinos, Freds, Lulas, Marias, Maries, Marys

Marïschens, Maricotas e Dortemünds e Socorros que nascem

crescem, se acasalam, procriam e morrem como gado;

em algum lugar do mundo, tudo que possa acontecer é um movimento descartado, que passa por meus olhos e deixo escapar, porque não faz parte dessa longa cerimônia elétrica que são os meus sentidos, a minha percepção descuidada, porque penso nessa bobagem que é a onda exterminadora, deusa dos surfistas e prefiro me voltar aos pensamentos da minha juventude diante da impossibilidade de resolver o assunto poesia. Deus deixa rastros na areia como as vírgulas nas poesias: reticentes, espaçadas, silenciosas e eu prefiro ouvir uma voz só, mas que me complete em azul, imensa, sagrada e absurda onda - simples poesia.

dedicada à Rosália Milsztajn

Pra quem escreve versos


Poeta?
Eu não sei o que é ser poeta
se tiver que ser assim
de mostrar estrelas quase quasar
de ser telescópios pra dentro
dos neuronios
de redemoinhos no tempo


se tiver que ser uma noite em rotação
mostrar uma corda esticada
que vem ainda de mais além
ou de uma varanda seca de Benghazi
e que vem de ligar de lá
dois lados de uma dor descontínua
acomodada
ou só dormente e descabida
cravada e esquecida

se tiver que vestir um muro com seu sangue
bem azul de poeta
espelho de sua meta
ou desvio apaixonado desta invivência
e aí
tenha que equilibrar tudo
neste duro azul, tão azul
que prosseguirá bem adiante, pra cima
sem ter que colher das almas dízimo
ou um sorriso desengraçado, dormente

veja bem
o que é ser poeta
tome cuidado, se precavenha
porque se existem estradas azuis e longas
e é você que as pinta assim
para que os homens dela esperem
seu broto
sua felicidade
para todos esses homens que não pedem
para nela andarem ou nela olharem
nem por capricho ou curiosidade
se por ela bate um pouco de sol
ou se já é muito tarde
e não há nada a esperar
saberá porque,talvez

eu saiba melhor o que é ser
um guarda-chuva ou um armário
pois,se abrimos um
para nos isolarmos das diluencias
e depois de usado o guardamos no outro
escondendo da vista contudo
que aquele fora usado
é para que não vejam por ele
que prezamos nossa intimidade
que não é só em nós
que os olhos tem se molhado.

segunda-feira, 8 de março de 2010


Tento não ter medo
tento ser melhor.
tento ser o que desejo
ver os outros, sê-los
senti-los
percorro o mundo
eis o circo das tentações

ali, a velha portuguesa caminha, lengalenga
a calçada lhe mostra o esquecer
depois também a esquece
a saia cansada, passos de criança
desaprende a ser, venta no futuro
é sua alma a fugir
deixa o que foi, simples não-ser
não tenta, o mais lhe escapa
e os passos de miúdo,
o tempo a parar, vai ,vai...


o dono da mercearia confere o relógio
ajeita as frutas, confere tomates
quem lhe comprará as mercadorias?
tentará e sorri
o que sai barato?

o adolescente caminha distraído
pensará só nos esconderijos
ou tenta atrair com seu guerreiro
lutas virtuais, vitórias da ilusão
ou percebe o não visto
sob as roupas, insaciável
olha qualquer volume, se excita

o cérebro não para
mas todos param
o sinal fechou
o sinal verde se abre
a batalha continua
o mundo vence

Já eu tento,tento,tento
nenhum tempo é o meu
nenhuma vitrine me distrai, levito
meus dedos estão cravados
com os ponteiros do relógio
dedo mindinho, seu vizinho
cadê o toucinho que estava aqui?
o tempo comeu
tempo guloso!

Arábica
















Uma pequena e bela mulher deitada
sobre os azulejos
do chão geométrico
de um pátio oriental
é como uma cantárida zunindo
em seu voo ritual

água doce e louca
derramada em pingos
esguicho da fonte
no meio do vendaval

tanto calor
e a bela se ajeita
lentamente
sensualmente desamassa
as dobras invisíveis
de sua cerúlea calça

seu aspecto sedoso e puro
quase imaginário
tem a leveza mágica que comparo
com uma asa, juro
de um animal perigoso e raro

Na verdade
ela mesma é essa mosca
a fêmea que voa até o pensamento
da merenda distraída
e zunindo
pica de desejo embebida
o licor que sua essência oferece
enquanto finge
ser a presa inocente seduzida

E no fulgor e doçura
do ato amoroso
seu poder cresce, delira
até sugar a seiva morna
cara à sua vida
e tudo aquilo
que lhe interessa
a vítima sem se dar conta
dessa traiçoeira investida

Em sete véus envolventes
lança num messalino gemido
o invisível e prazeiroso tecido
em torno do parceiro ardente
como um princípe escolhido
eterno prisioneiro consumido
em uma noite de ardor caliente

Ela
sabe que no fundo
é a pequena e tosca moça
cheirando a sândalo e mirra
isca de voz rouca e gozoso grito
e que um dia
terminará seus voos curtos
pelo amor de um mosquito

Sua beleza irá adornar
outras fontes
ou a imaginação distante
do além-mar ou no Levante
e incendiar a alba
e fantasias perdidas
ou de quem lá as encontre
e as cante

O tempo é areia caída
a carne é doce
mas a digestão é rápida
a mosca lambe as patas
foi-se

Faz calor
a moça borboleteia as mãos
em um pátio de azulejos
só uma nuvem que não
é azul, flutua, passa
vê-se que voa
e uma mosca também
no calor só os insetos não dormem
essa mulher, não está à toa,
essa mulher ,como eu, caça.

Paris,
Isso é um delírio oriental em homenagem
à musica árabe que eu ouvi à tarde.
Cândido Mostero
27/9/1943

sábado, 6 de março de 2010

confissão
















Às vezes
quando escrevo
jogo mesmo o pensamento
para debaixo da mesa
a mão logo desperta
levita, fica acesa
por um espírito volátil
que quase sempre acerta

Transcrevo harmonias que nunca ouvi
descrevo visões, fantasias
mas, exponho cruel minhas tensões
me ponho a nu
metaforizo
e disponho como esteta

Assim
quando tomo consciência
me surpreendo sempre
a olhar tudo retornar ali descrito
os escaninhos que nunca vi
alegria,a estrada que caminho
o grito

e, às vezes
o certo é mesmo o torto
e um ponto o infinito
uma flor se abre de uma ferida
a dúvida que não existo
sem pudor surge o invisível exposto
e perfeitamente descrito

Em cada linha sinuosa ou reta
desenha-se com minúcia
a luz que se faz concreta
tenho diante de mim
o abismo
o puro e o desejo
a minha alma secreta

Poema seco


Uma vez
escondi a emoção no bolso
pus meu pensamento
sobre a lâmina fria da vida
e a deixei em cima da mesa

tranquei meu coração numa gaveta
e satisfeito
a chamei de fortaleza

Hoje
procuro a chave esquecida
por toda casa umida e lodosa
fria
a vazão secreta de meus olhos
pelos meus anos perdida
pois, meu peito vazio
se inundou de choro e surpresas
fez-se mar
onde vago à nau desabrida

Quando penso em terra seca
sei que o meu coração
lá bate feliz
amplo
cheio de calor e alívio
em sua guarida
morno e repleto na certeza
do que chamo
saudoso e triste da sina
de Beleza

Respirar
o sopro deste mundo
que ao contente surgir
ao fluir
do rompido ventre
o fundo
inunda a existência
com um berro
ao acordar

E tragar
o vento estranho
desse louco ambiente
que de tudo
faz sufoco
me faz rir
me faz doente
de alegre me faz pouco
de sofrer me faz persistente
que um dia vai acabar

Se me perguntam
e isso pra que é?
pra que serve a ladainha?
eu não respondo
essa pergunta é minha
tiro um anel do bolso
balanço os ombros
e digo
é da alegria
ou é da dor
é de quem a vida se casar!

E se insistem
mas, me diga
Pra que serve? Pra que serve?
esse balão que não flutua
não é anjo
não é bicho
nem é carro de corrida
não é boi
nem cacatua
que só me serve
pra grilar

E de lá
só se ouve um eco
pra que serve? pra que serve?
e eu não sei
e se soubesse
não era gente
nem estrela
nem cometa
nem abelha
era só um grito infinito
de um bebê

ao acordar