
Eu sou o Marcos Vasconcellos. Aqui eu escrevo o que me der na telha, o que me vem na hora de dormir, quando estou num onibus, ou no meio de um papo chato!
quarta-feira, 17 de março de 2010
Transições

No íntimo

pra saber que existi.
Absurdos

O carrossel

É tão espantoso saber que outro ser é tão parte do seu corpo, como as partículas que giram para formar toda matéria que o seu próprio ser tem
A rodar se faz um parque de diversões, onde se pensa participar do impensável, do infinito, enfim vive-se.
Mas, se é você mesmo que faz seus redemoinhos, o que se espera é que não conseguirá controlar os giros, as rotações, e fará os seus monstros de voltas velozes que desfazem o que houver à sua volta, que fazem de tudo ninguém
Amor é a vitória sobre a lei da sobrevivência.

terça-feira, 16 de março de 2010
Inconsistências

e o que é de mim é da natureza
se nada tenho e tudo perco
é porque nada tenho e nada perco
Tudo é passageiro, é natural
e o que é nosso
é nosso em trânsito
que é uma percepção do tempo
e o tempo é só uma dimensão do nada
nada tenho, nada perco
Tudo é ilusão em nós
nós que somos o que pensamos ser
e somos aquilo que não existe
porque o que existe
é o vazio que transita por nós
em sua rotação que faz o que existe
e não aquilo que queremos
a pensar que somos nós
o que fomos tudo que somos
quando ainda não se é
quando o que se é
do que ainda não somos
dói sofrer pelo que não se é!
se fossemos aquilo que um dia percebemos
saberíamos de tudo aquilo que não se é
e que talvez o que nunca fomos
Agora que a manhã nasce
a luz nos dita mais uma vez
sua quântica ilusão
que é o mesmo mecanismo
que em nossa visão se apagara
uma óbvia fantasia se prepara
ou total confusão
Sejamos gratos, portanto
ao que nos vêm seja o que for
embora, choremos cada minuto dessa desilusão
e o que nos vem abraçar
pode ser a sabedoria que o mundo nos tem a dar
tudo que nos restou
assim é o nosso trafegar
assim é a nossa existência
assim é a nossa dor
Talvez alguma alegria
seja ainda remédio
para toda essa incoerência
pro que ainda não dá para acreditar
mas se nada tenho, também nada dou
se tudo é ilusão ou quimera
também não posso estar onde estou!
Mente
O desejo
ou mesmo a água,
solitárias rochas.
De lá, do horizonte
virá a caravana
e beber-me
mas a minha voz ressoa ainda
pelas paredes de pedra
Levem-me ao Egito, grito
alimentar-me das pirâmides
de mel, crocodilos e versos
Regurgitarei rios sobre a areia
Entretanto, ninguém entende a língua dos poços
Quem atenderá um eco?
O que ainda terei de ser?
Posso ser o tapete vermelho
ou a coroa de diamantes
nas eternas cabeças dessa realeza de cores
cabeças de faraó ou de rei
se fazendo de deuses
curvando a história a lhes beijar os pés.
basta que me dê as suas mãos
Onde estão suas mãos?
Bom dia!

Todos sentem desejos, é certo. É bom sentir um sonho de perto.
Desembrulhar a malícia lenta e inevitavelmente. Risos. Carinho e urgência. O silêncio de se estar acompanhado e o universo que subitamente se faz matéria, se condensa até poder tocá-lo. E que então te chama.
O presente está ali, o tempo parou. Surge como uma surpresa à sua frente e te conduz a um oceano que pode te tragar e à sua embarcação, que extenuada e faminta, ruma ao desconhecido além, talvez praias inóspitas, mas que escondem ainda um perdido paraíso, o impossível possível - a falta, o que te determina a ser feito para lhe satisfazer de maneira vital, a lhe dispor ali, de uma hora para outra, tudo que nunca se teve - a razão para vida.
O destino da viagem, de repente, não é mais o futuro, mas o sempre-já que chegou, o que está ali à sua frente e te despe e se expõe, se desnuda, com toda urgência para te engolfar em sua própria carne que vibra. E te invade ciente da necessidade que transcende razões. Tudo é urgência, respiração veloz, bruta.
E, à sua volta, explodem foguetes imaginários que não se sabia que existiam, o tempo novo do que não se mede com tempos que se iniciam, e por isso mistério.
A presença se faz matéria fremente ao toque cada vez mais rápido, batidas e empurrões, pele à pele, na dor do querer, pela inundação à lhe queimar e uma umidade que nos amansa.
O interminável em um pequeno tempo para ver e explorar essa fome que não sacia - um dia de mil e uma noites no escuro, como quem espera uma rua com casas vazias e encontra uma cidade perdida e iluminada, feliz e, em algum lugar, a hospitalidade de um invisível querido.
Histórias se misturam entre suor, corpos e afagos e formam o novo, o que nunca se viu.
Chegaste à minha oculta morada, meu íntimo.
Então bata à minha porta, coma a minha comida, desperte a minha sede, durma o meu sono.
Acompanhe-me até o meu abandono, a caverna oculta onde se faz a minha entrega - não há mais pudor em ser ou não ser.
E me mostre o meu engano - acenda a luz para que veja quem chegou e descubra que há mais alguém, mas que adora o teu avesso, o que se vê e o que se imagina, toda embate, teu arremesso, a sua companhia, os dedos sempre acesos para o meu gelo. E, diante da bem aventurança, se dá o encontro.
À volta, agora, tudo e todos são os outros, o que não se entende, o gelo. Ao aqui, nada se compara em calor crescente e ao oásis revelado. E aí, então, esse deserto te agradecerá e finalmente te dará as boas vindas.
Bom dia!
segunda-feira, 15 de março de 2010
metamorfética
Matei outro dia
uma barata a comer farelo
me culpei como podia
seria Kafka embaixo do chinelo?
A vida tudo me confunde
como me confunde pensar
no que ainda não pensei achar
até uma poça penso que me inunde
morro de sede olhando o mar
não há certezas, na verdade
na lida que travo todo dia
tudo que acho que é certo é a metade
de um engano mais metade que eu não sabia
Então é por isso que não sou culpado
dessa metamorfose entre o certo e o errado
Talvez Kafka vivesse nessa barata
enquanto ela pensasse ter finado
só por não ter umas pratas
no banco até hoje depositado.

como delícia
que o corpo não oprime.
Sentirá ela liberta
maiores gozos, prazeres
os quais não exime?
Mas se alma então acredita
que é a imaginação livre a sentir
que nada a prende por todo universo
Não se sentirá ela mais infinita
a fazer algo a fremir
com um perdido nada
que dentro de si tramita?



E, de súbito, já sinto a sensação do troço - é como levantar voo, planar perigosamente sobre cumes, pontas de rocha, espinhos, tudo que está aí que pode ferir e a gente tenta tomar altitude. Não responde a instrumentação, o manche não funciona. O céu é a salvação, mas o aparelho não se mexe - estou trancado num vazio.
Aí, as perguntas e as filosofices começam à aparecer. Não há solução para todas as bobagens que surgem esta hora.
Porém, de repente, os instrumentos voltam a funcionar.
Atravesso veloz o ar, porque imagino que sou o próprio voo desde a hora da decolagem até o momento em que aterrisso, onde descubro de antemão que a resposta para tudo eu já tinha, já conhecia de antemão!
Tudo tão simples, tão claro e logo ali, na minha frente. Então - luz! Reparo como este céu é enorme, infinito, brilhante e azul. E que para mim, surpreso, por toda minha vida, eu dele sempre tinha feito parte.

como querer equiparar à qualquer coisa
à bolha de cuspe ou de cristal
estrume ou âmbar precioso
tudo que surge em horas do impreciso, ou angústia
deve se igualar
tanto para um Napoleão quanto para seu cabo
Cheire a anjo ou estivador
coma em porcelana ou com as mãos
o espetáculo é para todos
quer você queira ou não
se ninguém merece
as horas de espera pelo que se teme
ou se quer muito,
mesmo quando a terra treme
ou a nau lhe enjoa e o avião mal voa
já deu trabalho, mesmo fim,
pelo que parece nos tratados
à muita gente boa
Cada um sabe da colher
que lhe serve de almoço,
da posição de dormir,
ou quanto se espera um doutor chegar
para colocar o dedo na ferida
Eu prefiro ficar aqui
enchendo essa brancura
que também é momentânea
com esse caminho de letras
que nunca vai chegar à lugar nenhum
Quem sabe até lá
tudo isso passa?
domingo, 14 de março de 2010


como se retorce
e se espalha a natureza
o que desabrocha hoje
amanhã já não se vê o pó
tudo é leveza
o já é passado
o hoje
uma fração perdida
entre as migalhas esparsas
de um lanche esquecido
sobre a mesa
Se contarmos
agora,
os dez dedos da mão
à palma e ao braço
e antebraço
unidos estarão
do nascimento ao último sopro
se cuidarmos com boa sorte
e um pouco de precaução.
Se calamidade nenhuma
os separa da vizinhança viva
e à alma presa
o que a vida não desune
a morte o faz como empresa
Porém, desta dita
não me leva a fortuna
não retenho
não resisto
não oponho
entrego "la plata"
dou benvindo a gatuna
Mas o bem que oculto
é mistério
cuja senha são poesias
sussurradas uma à uma
E se atento escutares
e levares à sério
aí não terás mais
infelicidade alguma
No entanto,
se são o beijos que são o encanto
eles que serão as bênçãos
sussurradas uma à uma.
A selva - primeira versão

Depois de longa jornada, campo lisos e vagos. A noite é calma e pensamos ali é o esteio, o repouso enfim. A viagem é finda, as estradas o passado. O pior já fora. O selvagem chamado da aflição, fim de nosso animal entranhado na herança inocente de nossos pais, está perdida no tempo, no esquecimento, um eco na distância - tudo apagado pra mim. Depois de arrasada a selva, a civilização interpõe-se, clarão e ordem. Pois, eis que então percebemos a cidade onde estamos. Temos a impressão que agora tudo podemos. Há paz, um suporte, a segurança de um método, da organização. Nossas cabeças se recostam em encostos macios, um vento sopra - o vento da ilusão. Pois, a selva não seria a selva, se não fosse indomável, incontrolável violência, eterna e inescrutável. Ela vence escondida e se entremeia, fecunda e se reproduz traiçoeiramente. Nós somos, pois, o seu adubo e as suas sementes, o avanço de sua fronteira verde e medonha, as ambições sangrentas de seus dedos galhos. Suas aflorações são alimentos do poder, abraços do terror e da brutalidade, seus infindáveis caminhos perdidos entre as palavras e de um calor úmido - as cidades perdidas, nossos corpos. É como perceber-se de repente, entre plantas famintas e a ganância de tesouros imaginários, entre monstros, feras, insetos, perdições e seus pusilânimes e rastejantes seres famintos ali, novamente, no seu mundo, nosso lar. Para a natureza pura e imaginária de nossos sonhos, apenas os desejos de sobrevivência e beleza é que renasceriam. Mas o que estará ali oculta realmente, desde então, será a verdadeira selva... a selva, a selva. Nem má, nem boa, mas quem nos leva e guia - a inocência, a ignorância. Apenas quem sobrevive lá vê a origem: - a selva, a selva, a selva - o rude cimento de nossas emoções. Quem nos tenta entre o torpor e o calor macio? As traições tem garras impiedosas - o inesperado, o cruel, o poder, o sem esperança, o desespero, o sem escrúpulos. Onde está o meu Deus? Por favor te imploro e me guia, e me diz, e me explica, e me ilumina porque à frente de mim está a escura, impiedosa, indiferente, a urbana selva continua a brotar sempre atrás de cada pensamento e ambição de nossos tolos corações quase domados. Escuta! Rugidos! Fujamos! Para aonde? Estamos perdidos? O paraíso se esconde entre as sombras e o negror das folhas.

a lua chama
a mariposa voa
a luz da chama
a mariposa à toa
a luz é chama
a mariposa vem, voa
a luz da lua
a luz da rua
a luz da chama
a luz é boa
a mariposa se engana
a luz magoa
queima uma patinha
queima outra patinha
queima uma anteninha
queima um olhinho
queima um cantinho
vai o corpo inteirinho
cinzas, pó, sujeira
acumulados
num escaninho
a lua chama
outra mariposa voa
a luz da chama
a mariposa vem
à toa
o amor é assim
sorri
voa,voa,voa...

Era uma vez
uma gaivota tonta
que de si
não podia tomar conta
E a cada vez
que no alçar voo
fez o que fez
à tudo embaralhou.
Até que entendeu
que a natureza
lhe comprometeu
no jogo da presteza.
Assim, hoje em dia
sabe o jugo terrível
e toma a primazia
do que é possível.
Pois, percebeu além
do que imaginava
que gaivota não nasceu
dentro de si
um vagalume ali jazia preso.
Surtando

Saca
quando canções
não me dizem mais nada
abstratos angustiados
debaixo de uma camiseta de grife
sobre um amor danado
que a Amy não resolve
eu
olho pela janela
vendo o cubismo de Picasso
surgir do cubismo de Braque
e se quebrar pelas esquinas
formigantes
pelas luzes
que ainda cantam para
o mundo menos
para mim
que não escuto, nem sinto
além de um acorde depois do outro
sem que o meu ouvido registre
um ai
Aí
então
sinto que é preciso
inventar um som precioso
apaixonicizante por alucinismos
e grito como Munch desesperos
Bachbatanas Bachbarrizando
e a razão some pro nada
pedindo socorro ou
por sangue
nas veias excitadas
mineiras ou argentinas
ourisanécticas matissinianas
goyastrais adMiróticas
poetronizéptycas
onde faço faloniciróferas
onde encontro o amor
poltronizado
e
logo
Duchamp canta
no espaço colorido
tecniramificando as sensactions
enquanto eu janto Dubuffet
doces formigas de Dali
como um tubarão
que tem uma jaws abocanhante
como a curvatura pi da terra
com suas pirâmides hieroglificas
e figuras hieráticas
que essas
sim
mandam beijinhos
por debaixo das colunas
e do nariz do sacerdote
como uuummmmmmmmmm
smaaaaaccccckkkkkkk
kkkkk!!!!!!!!!!
!!!!!
!!!
!

porque amacia tanto silêncio?
O que teu aconchego me esconde?
Será segredos mansos criados sob as cobertas?
Será o afogar de metáforas
que teu dono arrebanha não sei aonde?
Certo que o tranquilo e o escuro
são seus companheiros nessa insana alcova
aonde se aninham os indomados sentimentos
a inundar seus adormecidos pensamentos
às vezes, insones, nervosos
às vezes, puros ou sofridos, temerosos
mas, também aqueles desejos fremidos
que a fantasia a se excitar desova
Porém, quem será o dono tão presumido
a temer sua inspiração violada
e o seu oculto Parnaso de repente percebido?
Não sabe ele que ser Apolo
é não ser quase nada!
E mais vale iluminar seus olhos com o dia
para que a Razão e a sublime Poesia
lhe amem de madrugada?
Se for,
tola imaginação,
às vezes, o travesseiro se arrebenta
e os sonhos nele contidos
serão plumas devassadas
flutuando quando venta
e os versos esquecidos como folhas
de uma árvore seca e amarelenta,
serão, um dia,
lenha seca queimando inútil
numa casa fria que ninguém frequenta.
sábado, 13 de março de 2010

e não fazem nada que dizer
ainda...ainda..ainda
porque eu deveria compreender
aquilo que ninguém entende
que ninguém nunca entendeu!
Por nada me desespero em insistir
não há amargor
não há tudo que eu possa dizer
à menos que
ainda...ainda...ainda
Tenho que me ater a sobrevivência
como formigas sobre a mesa
haverá migalhas
haverá poeira
haverá mais e mais
haverá
ainda...ainda...ainda
Maciças sombras
são as minhas lembranças
tantos risos, tantos segredos
tanta esquinas à fugir pela noite
meus sonhos foram faróis
e as ressacas a molhar meu pés
recordações, tuas mãos
É noite,
meus sonhos são amantes
lençóis brancos e os olhos como nós
chegam ao nunca
ao que será
o que será amanhã
ainda...ainda...ainda
sexta-feira, 12 de março de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

Lento, lento tudo que passa
e, no entanto, à mim
é como um foguete rugindo
como é relativa a percepção, frágil sentido
a noite tão calada
e o dia
a balbúrdia de uma criança que nasce.
Mas, à noite, a cabeça fica zunindo
mesmo parada
e mesmo sendo
que tudo fosse o que fosse
viro a folha, luto mais
me animo.
Mesmo que o sentir
não estivesse mais se cumprindo
É dia. O porteiro varre,
a multidão acorda, continua,
os políticos falam de suas idéias
em que não se acredita,
o homem é falho, a ética finita
o povo passa, tudo se mexe, pulsa
é frenesi,tudo irrita
Quem não é louco?
Quem não é biruta?
é tudo a mesma coisa de sempre
nada de novo!
O tempo é um nada
que percebemos devagar
não existindo
E lentamente
tudo se vai, escoa, vaza.
Cada qual em seu tempo,
areia caindo
Mas, uma mosca
surge por acaso
bordando o ar, e passa
o telefone toca
é uma nova chance
de se saber de quem se ama,
é uma chance de ter alguém
te ouvindo
O tempo é contado
O tempo se esgota
O tempo é infindo
Se eu tivesse ainda a ti
e esse oceano não nos separasse
e as ondas não me levassem pra longe
do que de ti me restasse
e ali achasse o que me completa
mas, aonde?
Como sair desse impasse?
e se eu tivesse ainda todo o tempo
que eu a brincar não sabia que tinha
se ainda fosse ligeiro
se eu corresse, jogasse queimado
se toda esta vida
fosse um só dia inteiro
um mínimo que passou
uma fração que voasse
mesmo que fosse fingindo?
estaria eu a ver esse rio vazio
estaria eu nesse barco sem destino
Ah, se eu tivesse ainda a mirar a distancia
e se cercasse meu silêncio
com teu rosto sorrindo
não seria uma maneira de reaver os meus anos
não seria pegar um bonde partindo?
iria até a estação onde te veria saltar
para encontrar nossos olhares remotos
e aquela algazarra
que em nós vivíamos ouvindo?
mas, a rua é deserta
e quem não passa
não sabe das horas se indo
Eu me sento num banco num dia quente
e percebo o movimento, as lojas se abrindo
mais uma manhã que chega
mais um dia a sentir fugindo.
Além de Sófocles

Que me importa toda tragédia grega? Não quero extremos, procuro o banal. Há mais méritos em transcender o comum ou fechar as mãos aos céus e suplicar? Ou mesmo andar levando o peso do mundo às costas - insanidade? Ou ainda medir com passos o rio que se forma de nossas angústias e temor? Prefiro os caminhos simples. Em torno dele, desenho com os olhos uma solução minha e faço que por mim, seguindo essas linhas, como um fio de Ariadne, que tudo se desfaça, e o caminho surja livre, claro, salvador. A intensidade do que penso me revela os umbrais do se que faz o possível. Invento, crio. Minha humanidade treme, se espanta, se eleva por degraus aéreos. Aparto o que há por dentro em mim, para que se levante de mim o inverso de mim, a clareza, até chegar a atônita Fonte do Eu Perfeito, onde saciar minha ansiedade. Mas, eis que em sua margem me encontro em espectro. É tarde, admiro-me, narciso-me. Meu corpo agora é pedra. Minha faina factora a flor ad aeternum - mirabilis est.
quarta-feira, 10 de março de 2010

terça-feira, 9 de março de 2010
O presente

um negro atravessa a quinta avenida
e conserta sobre o nariz seu óculos brilhante e verde;
uma mão lanhada retira um peixe arfante,
amarelo e oleoso do rio Javari;
um ator enforca a atriz numa cena percebendo
o quanto ele a amará na cena seguinte;
abre-se um olho irrigado de vermelho e pinga-se
quatro gotas de Lacril até que a irritação desapareça;
um pastor prega que " de embriaguez e de dor te encherás,
do calix de tua irmã Samaria";
um quadrúpede empaca diante de um onibus cheio
de gente e zum-zum dos insetos;
um tapete mágico sobrevoa as torres das refinarias
incendiadas por foguetes terra-terra;
um mulato de morro penetra a sua nega
mordendo seus braços de deusa Shiva;
uma mulata sacode seus peitos, encobreia,
aperta e quase engole todo o seu Ulisses;
alguém coloca gasolina no tanque sem sentir
que os vapores do combustível são um perigo terrível;
duas drosophillas se acasalam numa retorta transparente
acoplada a um contador Geiger à 0 graus centígrados;
a íris azul, azul do Brad Pitt espelha os refletores
iluminando um abismo sobre o Colorado;
o corpo de uma mulher de meia-idade é encontrado
semi-despido, desfigurado, cheio de moscas, enquanto o
investigador desconfia do seu marido de pouca idade;
em algum lugar do mundo existem Das Dores, Franks,
Brendas, Severinos, Freds, Lulas, Marias, Maries, Marys
Marïschens, Maricotas e Dortemünds e Socorros que nascem
crescem, se acasalam, procriam e morrem como gado;
em algum lugar do mundo, tudo que possa acontecer é um movimento descartado, que passa por meus olhos e deixo escapar, porque não faz parte dessa longa cerimônia elétrica que são os meus sentidos, a minha percepção descuidada, porque penso nessa bobagem que é a onda exterminadora, deusa dos surfistas e prefiro me voltar aos pensamentos da minha juventude diante da impossibilidade de resolver o assunto poesia. Deus deixa rastros na areia como as vírgulas nas poesias: reticentes, espaçadas, silenciosas e eu prefiro ouvir uma voz só, mas que me complete em azul, imensa, sagrada e absurda onda - simples poesia.
dedicada à Rosália Milsztajn
Pra quem escreve versos

Eu não sei o que é ser poeta
se tiver que ser assim
de mostrar estrelas quase quasar
de ser telescópios pra dentro
dos neuronios
de redemoinhos no tempo
se tiver que ser uma noite em rotação
mostrar uma corda esticada
que vem ainda de mais além
ou de uma varanda seca de Benghazi
e que vem de ligar de lá
dois lados de uma dor descontínua
acomodada
ou só dormente e descabida
cravada e esquecida
se tiver que vestir um muro com seu sangue
bem azul de poeta
espelho de sua meta
ou desvio apaixonado desta invivência
e aí
tenha que equilibrar tudo
neste duro azul, tão azul
que prosseguirá bem adiante, pra cima
sem ter que colher das almas dízimo
ou um sorriso desengraçado, dormente
veja bem
o que é ser poeta
tome cuidado, se precavenha
porque se existem estradas azuis e longas
e é você que as pinta assim
para que os homens dela esperem
seu broto
sua felicidade
para todos esses homens que não pedem
para nela andarem ou nela olharem
nem por capricho ou curiosidade
se por ela bate um pouco de sol
ou se já é muito tarde
e não há nada a esperar
saberá porque,talvez
eu saiba melhor o que é ser
um guarda-chuva ou um armário
pois,se abrimos um
para nos isolarmos das diluencias
e depois de usado o guardamos no outro
escondendo da vista contudo
é para que não vejam por ele
que prezamos nossa intimidade
que não é só em nós
que os olhos tem se molhado.
segunda-feira, 8 de março de 2010

tento ser melhor.
tento ser o que desejo
ver os outros, sê-los
senti-los
percorro o mundo
eis o circo das tentações
ali, a velha portuguesa caminha, lengalenga
a calçada lhe mostra o esquecer
depois também a esquece
a saia cansada, passos de criança
desaprende a ser, venta no futuro
é sua alma a fugir
deixa o que foi, simples não-ser
não tenta, o mais lhe escapa
e os passos de miúdo,
o tempo a parar, vai ,vai...
o dono da mercearia confere o relógio
ajeita as frutas, confere tomates
quem lhe comprará as mercadorias?
tentará e sorri
o que sai barato?
o adolescente caminha distraído
pensará só nos esconderijos
ou tenta atrair com seu guerreiro
lutas virtuais, vitórias da ilusão
ou percebe o não visto
sob as roupas, insaciável
olha qualquer volume, se excita
o cérebro não para
mas todos param
o sinal fechou
o sinal verde se abre
a batalha continua
o mundo vence
Já eu tento,tento,tento
nenhum tempo é o meu
nenhuma vitrine me distrai, levito
meus dedos estão cravados
com os ponteiros do relógio
dedo mindinho, seu vizinho
cadê o toucinho que estava aqui?
o tempo comeu
tempo guloso!
Arábica

Uma pequena e bela mulher deitada
sobre os azulejos
do chão geométrico
de um pátio oriental
é como uma cantárida zunindo
em seu voo ritual
água doce e louca
derramada em pingos
esguicho da fonte
no meio do vendaval
tanto calor
e a bela se ajeita
lentamente
sensualmente desamassa
as dobras invisíveis
de sua cerúlea calça
seu aspecto sedoso e puro
quase imaginário
tem a leveza mágica que comparo
com uma asa, juro
de um animal perigoso e raro
Na verdade
ela mesma é essa mosca
a fêmea que voa até o pensamento
da merenda distraída
e zunindo
pica de desejo embebida
o licor que sua essência oferece
enquanto finge
ser a presa inocente seduzida
E no fulgor e doçura
do ato amoroso
seu poder cresce, delira
até sugar a seiva morna
cara à sua vida
e tudo aquilo
que lhe interessa
a vítima sem se dar conta
dessa traiçoeira investida
Em sete véus envolventes
lança num messalino gemido
o invisível e prazeiroso tecido
em torno do parceiro ardente
como um princípe escolhido
eterno prisioneiro consumido
em uma noite de ardor caliente
Ela
sabe que no fundo
é a pequena e tosca moça
cheirando a sândalo e mirra
isca de voz rouca e gozoso grito
e que um dia
terminará seus voos curtos
pelo amor de um mosquito
Sua beleza irá adornar
outras fontes
ou a imaginação distante
do além-mar ou no Levante
e incendiar a alba
e fantasias perdidas
ou de quem lá as encontre
e as cante
O tempo é areia caída
a carne é doce
mas a digestão é rápida
a mosca lambe as patas
foi-se
Faz calor
a moça borboleteia as mãos
em um pátio de azulejos
só uma nuvem que não
é azul, flutua, passa
vê-se que voa
e uma mosca também
no calor só os insetos não dormem
essa mulher, não está à toa,
essa mulher ,como eu, caça.
Paris,
Isso é um delírio oriental em homenagem
à musica árabe que eu ouvi à tarde.
Cândido Mostero
27/9/1943
sábado, 6 de março de 2010
confissão

Às vezes
quando escrevo
jogo mesmo o pensamento
para debaixo da mesa
a mão logo desperta
levita, fica acesa
por um espírito volátil
que quase sempre acerta
Transcrevo harmonias que nunca ouvi
descrevo visões, fantasias
mas, exponho cruel minhas tensões
me ponho a nu
metaforizo
e disponho como esteta
Assim
quando tomo consciência
me surpreendo sempre
a olhar tudo retornar ali descrito
os escaninhos que nunca vi
alegria,a estrada que caminho
o grito
e, às vezes
o certo é mesmo o torto
e um ponto o infinito
uma flor se abre de uma ferida
a dúvida que não existo
sem pudor surge o invisível exposto
e perfeitamente descrito
Em cada linha sinuosa ou reta
desenha-se com minúcia
a luz que se faz concreta
tenho diante de mim
o abismo
o puro e o desejo
a minha alma secreta
Poema seco

escondi a emoção no bolso
pus meu pensamento
sobre a lâmina fria da vida
e a deixei em cima da mesa
Aí
tranquei meu coração numa gaveta
e satisfeito
a chamei de fortaleza
Hoje
procuro a chave esquecida
por toda casa umida e lodosa
fria
a vazão secreta de meus olhos
pelos meus anos perdida
pois, meu peito vazio
se inundou de choro e surpresas
fez-se mar
onde vago à nau desabrida
Quando penso em terra seca
sei que o meu coração
lá bate feliz
amplo
cheio de calor e alívio
em sua guarida
morno e repleto na certeza
do que chamo
saudoso e triste da sina
de Beleza

o sopro deste mundo
que ao contente surgir
ao fluir
do rompido ventre
o fundo
inunda a existência
com um berro
ao acordar
E tragar
o vento estranho
desse louco ambiente
que de tudo
faz sufoco
me faz rir
me faz doente
de alegre me faz pouco
de sofrer me faz persistente
que um dia vai acabar
Se me perguntam
e isso pra que é?
pra que serve a ladainha?
eu não respondo
essa pergunta é minha
tiro um anel do bolso
balanço os ombros
e digo
é da alegria
ou é da dor
é de quem a vida se casar!
E se insistem
mas, me diga
Pra que serve? Pra que serve?
esse balão que não flutua
não é anjo
não é bicho
nem é carro de corrida
não é boi
nem cacatua
que só me serve
pra grilar
E de lá
só se ouve um eco
pra que serve? pra que serve?
e eu não sei
e se soubesse
não era gente
nem estrela
nem cometa
nem abelha
era só um grito infinito
de um bebê
sexta-feira, 5 de março de 2010
O monstro

- Eu sou tua ausência, me alimente, disse numa voz terrível e cavernosa. Tremendo, pulei da cama atrás de alguma arma que me defendesse. Ideias pularam de imediato em socorro e me fizeram segurar a minha lapiseira que escorreu em linhas ligeiras e me fez compreender que ela era minha borracha de apagar o vazio. Desenhei, escrevi, obrei avidamente, preenchendo todo o branco, contudo sabia que era verdade - aquele monstro habitava o não-existir, o vácuo branco de qualquer coisa, um perigo ameaçador, era a insanidade. Tanta ameaça combatida pela simplicidade do ato de apenas fazer, de apenas existir para matar o animalejo. A lapiseira corria célere, lutando ferozmente contra dentes afiados pela censura e o serralheiro do Não. E assim foi. Com ela consegui apagar o monstro da minha mente. Desenhei uma chave, passei cadeado completando todo o branco e tranquei a fera em sua própria ausência. O papel cheio de invenções, desenhos, versos, obras, rimas e uma nova e vibrante criação surgira. Estava livre, ele morrera, eu triunfara! A luz da manhã brilhava e o dia começou.
A revelação

Sei o que sei e sei o que vi e que se resume numa palavra: mistério! Não é mais que o óbvio, como se alguém aceitasse o óbvio. E posso deixar de ser, de pensar, de sentir, e pode ser difícil, impossível, miserável, mas contudo dentro daquele momento, soube que ali sempre existirei, presente, e como tudo de repente foi resumido ao que não se diz e não é nada do que já foi falado, mas, paradoxalmente, é o que todo mundo já sabe. Deito-me no chão, desabotoo a camisa e diminuo em mim mesmo meu eu. Pois, sei o que sei e sei o que vi. Metafísica. Dádiva, doação. Todo universo não é nada! Me entrego, abraço, beijo. Sou apenas pó. Teu vento me leva e agradeço à Deus, pois sei que tudo valeu à pena e deveria ser assim para todos.
A página apagada

O que havia escrito aqui já se apagou,
porque seu tempo se foi e já não era a hora,
não merecia o papel que ocupava - não do jeito
que estava- pois frágil fora, frágil desapareceu.
E se reescreveu mais além, agora melhor
executada, aprimorada, bela história,
que aparece nesse instante numa melhor versão.
Triste é o que não se apaga, se precisa de conserto,
pois, se ruim a construção, seu arcabouço desaba,
deteriora
e tudo se estraga sob esta ação,
todo esforço é jogado fora.
Mas, o que houve aqui, teve sorte e renasceu
na página ao lado.
Quem sabe se os olhos que para ela se transportam
tragam o que se pede à ela: a compreensão do que
se diz e que traga ao enigma o que lhe era fatal,
a palavra-chave que escapou e até agora permanecia
oculta, que dá sentido à todas as letras e ideias,
vírgulas e silêncios que devem ser tão simples e
às claras, pois que era como um pássaro que
estava seguro dentro das mãos que de repente
se abriram, ficando o quente e macio ninho com
o sentido que agora está em mim.
O pássaro sabia, traduzia em seu canto,
mas voou para sempre.
seu canto, se fez perfeito ali sozinho.
Agora ecoa na floresta, expondo o céu e nos mostra
que o que se foi renasce
e assim nos abre a porta
do mistério apagado.
Ponto cego


A noite extrema veio, ainda devaneio e planejo. Até que entendo que preciso do pensar claro, descansado, que tudo isso hoje ficará para amanhã. Amanhã! Até lá sonharei em minha própria cama, enquanto permito a escuridão e os pensamentos percorram os desertos intermináveis em caravanas sonâmbulas, até que surja o oásis enfim, e ali, satisfeito, em gozo, se descanse o espírito; e um dia a mais virá, um dia querido, e talvez... quem sabe?
