Eu sou o Marcos Vasconcellos. Aqui eu escrevo o que me der na telha, o que me vem na hora de dormir, quando estou num onibus, ou no meio de um papo chato!
quarta-feira, 28 de julho de 2010
O segredo ( para quem eu adoro )
uma figura precisa de um fundo
um jornal precisa de notícias
um carro precisa de passageiros
um livro precisa de histórias
um dia precisa de sol
um caderno precisa de letras
uma carta precisa de confissões
um pássaro precisa de amplidão
uma questão precisa de respostas
nada pode ser o que falta
tudo é o que completa se nada existe
nada se encaixa quando se está triste
tudo voa se o vento se faz uma borrasca
e se vai embora, agora não mais existe
o mar precisa de horizonte
um assobio precisa de sopro
a praia precisa de ondas
um castelo precisa de torres
a serra precisa dos montes
um doce precisa de lábios
um beijo precisa de desejo
um balão precisa flutuar
a rainha precisa de cortejo
a condessa precisa do conde
pra respirar preciso de ar
mas e quando se sente
que não se sabe o que lhe completa?
e se o que vier não der conta do recado?
mas se depois do que já está, ainda faltar uma lacuna?
e se o destino não for reinterado
mesmo contado as horas uma à uma?
e se nunca for uma linha reta?
e será que o futuro prescinde do passado?
mas se tudo isso não for uma verdade concreta
ou coisa nenhuma?
uma gaveta precisa de cartas
um pensamento precisa de liberdade
um movimento precisa de ideias
uma ressaca precisa de ondas
o homem precisa da verdade
um ninho precisa de ovos
um avião precisa das asas
os velhos precisam dos novos
dois corpos precisam de fogo
um vulcão precisa de erupção
e uma cidade das suas casas
e será que esse vazio se vai?
e se a estrada não for a lugar algum?
e se a dança se fizer sem música?
e se eu pular ao som do ritmo desse baticum?
e será que são necessário tantos acordes para ser uma manhã?
e virá o término do meu ser sozinho
e fará em mim o fim dessa vida vã?
e o ciclo se repetirá no seu caminho?
como saber o que em mim falta?
onde acharei enfim o meu xamã?
onde é a caverna que se esconde um carinho?
um perfume precisa de colo
os travesseiros precisam de cabeças
um carinho precisa de sentimento
a ladeira precisa de freio nas rodas
uma gaivota precisa de mergulho
um hino precisa de orgulho
uma festa precisa de alegria, whisky e soda
uma rota precisa de uma caravana
a fogueira precisa de lenha acesa
e Cuba precisa de Havana
portanto, o mundo sempre está a se completar
embora o tempo que isso se faça, seja
por exemplo, todo o tempo a se formar
porém, quem espera sempre alcançará ou não?
contudo, sempre fará algum sentido o que virá
de onde esteja?
todavia , não seja o arranjo perfeito exemplo
entretanto, sempre tantas esperanças há,
tantas esperanças , tão benfazejas
mas quem não tenta se exclui e não saberá a solução
nem o que ficará, estará a contento perdido
outrossim, terá algo a compreender ainda na mão
um baralho precisa das cartas
uma roupa precisa de botão
um corredor precisa de fôlego
uma bicicleta precisa de pedais
um arrependimento precisa do perdão
um animal precisa de comida
um automóvel precisa de gasolina
o céu precisa do azul
e um chinês da China
o teatro precisa de emoção
um cego precisa do que não vê
o ator precisa do momento
e eu
apenas preciso de você
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Díonisio devorado
ver-te
desfigurado pela memória
com toda a nossa vida
nosso mundo
nossa invenção
nossa história
no limite linear
do passado
em frente ao abismo
nebuloso
de você
dionísio devorado
me desintegra
me constrange
me rouba o chão
mesmo que eu soubesse
que já não existindo
existes em mim
e ainda o amoroso
em mim, por ti despertado
semente pequena e irrisória
de uma antes árvore imensa
que se fez lenha
agora será semeada
fértil pouso e amanhã
e que nascerá do nada
que nascerá de novo
que nascerá pra sempre
verde até a madura vitória
e a colheita farta
que compensará
o que se foi
o que ficou de fora
o que feriu ou magoou
sinto
que nada é inútil
nem mesmo o triste
ou o passado inglorioso
ou os limites em dor
ou o que se sabe
e não queria
no entanto
quando eu me pergunto
se me lembro do que não devia
agora que me rio de tudo
quando me surge ainda a mesma questão
pra quê?
porque?
silencio
descubro toda verdade
Eu desamo você!
terça-feira, 6 de julho de 2010
O jantar está servido
Sem ti
toda alma prova o gozo
do sentimento desprovido
de toda grandeza
a solidão de prosseguir o almoço
sem ter ninguém a brindar o vinho
ou ninguém sentado
em torno à mesa
Mas, que fazer
se nada ou se ninguém interessa
quando nada lhe preenche
nem cresce, ou o prende
e toda surpresa súbito cessa
e até lhe traz angústia
por temer o que vem pela frente
Porém, como de novo
esquecer o temor
de como enfrentar as horas
se o que vem à noite
ainda é o vão de sua forma
o estrondo vazio
do que não lhe questiona mais
do que não lhe responde mais
do que não desarruma a casa mais
e depois não lhe abraça
e até lhe evita
se o acaso maldoso
faz com que se encontrem
para que aconteça
como uma traição
ao que à si próprio jurou
de jamais ter atitudes rudes
ou indignas
nem em legítima defesa
Voltando
então, à casa
tudo acentua a
abstrata lacuna
que tudo contorna
de um nada presente
que dentro em si constata
a ausência que não lhe deixa
E continua
por lhe evidenciar seu engano
e por sobrar tantos ecos
ressoando por todos os cantos
da lacuna, de seu apartamento
no vácuo de sua inexistência
como única prenda
como único bom dia
como único cumprimento
que não mais existia
Entretanto
o amor é assim
como o nascer do dia
que chega de mansinho
se escondendo
por trás da montanha
ao alvorecer
e pensamos, esperamos
a luz e o clarão
que viria a acabar
toda obscuridade estranha
Sabe-se porém
que, um momento, ele terá fim
como tudo que de vida se entranha
e o frio e o escuro deste ínterim
se ameniza nas imagens e lembranças
que a memória feliz
por graças ganha
Até que se olhe atento
ao sempre ali
velho e conhecido horizonte
e vemos de novo
de repente, o dia surgir
com seu céu à tudo iluminando
por trás da montanha
Mas, não se vê nada ainda
nem entendemos o que se passa
pois se nem janela temos
que agora por milagre
na mente achamos
e olhamos ávidos
o que há através da vidraça
e aí imaginando tudo
o cenário e os personagens
a ser como sempre amamos
e realmente tudo volta à luz
não mais nos assusta
nem mais nos amedrontamos
Então sem perder tempo
corremos e pomos a mesa
pois um convidado não esperado
à nós, a luz trouxe
e já ali bate à porta,
sem mais nem menos
pois revelou o que não víamos
ser tão claro
quando a mente está acesa
e então trazemos
tudo de melhor
que há para jantar
que à ele, com prazer
será servido
para que esse alguém
nos diga contente e comovido
bom apetite!
e nós escutemos por dentro
O jantar está servido!
E adeus, lá se foi a tristeza!
4/11/2007
pintura- La salle à manger sur le jardin - Bonnard
segunda-feira, 5 de julho de 2010
quarta-feira, 30 de junho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Se houvesse flores
foto de Anders Petersen
se houvesse flores
talvez existisse alguém que inventasse a palavra jardim
e que
descobrisse as minhas tristezas, meus cantos escuros
meus becos sozinhos, os canteiros secos de toda terra
quase um nada
com as suas árvores nuas, impacientes, ignorando todo existir
que não lhe balança os ramos, pois ainda não venta
se não há o que vir
e com
a sua paciência, arrancasse dali todos esses frutos tristes
duros, do fundo dos vazios ocultos, impuros com tudo que
não fosse colorido do adentro apagado e fosco, tenso ou estéril
e em
íris revertesse ao que traz a cor do em si, subterrâneo e oprimido
mas que, às vezes, se supõe que exista por um segundo, quando
extravaza subitamente,como um jorro indomável do que se produz
com o que há em mim, pelo espaço desse mundo do improvável
em que tudo respira e se observa em matéria vibrante, viva
e depois
ali plantasse a calma, sem a velocidade da bem aventurança
que explode em velocidade, em fazer voando e por correrias
como movimentos de raios elétricos estabanados
o que tiver de fazer
porque a ligeireza é o tom de quem não mede tempo pra se divertir
e que
não quer o espaço de pensar no fim
mas, ao contrário, que fizesse com a tranquilidade ritual
semeando risadas e inocência, pouco à pouco, com as minhas
coisas boas da infância - as brincadeiras, os jogos de pique, tudo
que eu não esqueço encantado
e que
na minha lembrança de todas as felicidades, ainda tenho soltas
e graças aos céus
não assim tão poucas, pois escorrem estravazando pelas bordas
plenas, nesse ínterim
e depois
fertilizasse todas as frestas e ranhuras plenas de insegurança
medo e solidão, todos os problemas
simplesmente encerrados
apenas com uma palavra
- sim -
foto de Robert Mapplethorpe
e pudesse
lhe envolver no seu cheiro, perfume, e uma cor que
você não encontra, que de repente transparece
fazendo tudo mudar
o ardor viceja, desponta - e pronto - a sorte voltou a atuar
tudo reluz e se abre, cresce
olha-se pro o céu límpido, os pássaros, a delicadeza das nuvens
e o vento
tão doce que passeia por seu corpo que agora
se sente querido, em paz
voa
mas, como
conhecer a palavra flores, se não conheço todos os
segredos que existem em mim?
então, imagino
se houvesse flores é porque já as vi bem perto de
onde moro, ou por onde sigo meus olhos, por meu caminhos
esquecidos, pela água de um rio passado, quando passo com
atraso, ou mesmo, talvez, ali bem perto de mim
é que
talvez eu não as olhe e não me dê conta de quantas sementes
quantos botões se abrem, germinam em cores, em amarelos, azuis
ou violetas, brancas ou carmim, por não serem parte de minhas
obrigações, das minhas urgências, é o invisível comum
daí
me deitei , me despi do mundo, e pensei como podia isso
ter acontecido comigo, logo eu tão preciso em detalhes, tão
objetivo em minúcias, tão claro em observar que nem tudo
que vem na vida, vem porque estamos acordados
o quanto na vida nos distraímos do que achamos que não
é preciso, quando às vezes apenas um soslaio de alguém
perdido, ou detalhe de um gesto esquecido, nos faz ver
o que realmente nos prende ao que somos ou porque somos assim
e nem eu
em meu sono profundo, se quero ver que haja flores
me permito que eu seja apenas a alma presa dentro de mim
e dormi
e as flores vieram, todas.
e quando menos esperava
a fortuna, vinda na forma de meu
espírito liberto, me abriu as mãos e ali pôs sementes bem
pequenas, arrumadas em silêncio e cerimônia, como as letras
de uma palavra que eu não li, porque eu não precisava, pois
me lembrei que era algo que sempre conhecera
que eu já sabia que era a palavra
JARDIM.
foto de Issei Suda
se houvesse flores
talvez existisse alguém que inventasse a palavra jardim
e que
descobrisse as minhas tristezas, meus cantos escuros
meus becos sozinhos, os canteiros secos de toda terra
quase um nada
com as suas árvores nuas, impacientes, ignorando todo existir
que não lhe balança os ramos, pois ainda não venta
se não há o que vir
e com
a sua paciência, arrancasse dali todos esses frutos tristes
duros, do fundo dos vazios ocultos, impuros com tudo que
não fosse colorido do adentro apagado e fosco, tenso ou estéril
e em
íris revertesse ao que traz a cor do em si, subterrâneo e oprimido
mas que, às vezes, se supõe que exista por um segundo, quando
extravaza subitamente,como um jorro indomável do que se produz
com o que há em mim, pelo espaço desse mundo do improvável
em que tudo respira e se observa em matéria vibrante, viva
e depois
ali plantasse a calma, sem a velocidade da bem aventurança
que explode em velocidade, em fazer voando e por correrias
como movimentos de raios elétricos estabanados
o que tiver de fazer
porque a ligeireza é o tom de quem não mede tempo pra se divertir
e que
não quer o espaço de pensar no fim
mas, ao contrário, que fizesse com a tranquilidade ritual
semeando risadas e inocência, pouco à pouco, com as minhas
coisas boas da infância - as brincadeiras, os jogos de pique, tudo
que eu não esqueço encantado
e que
na minha lembrança de todas as felicidades, ainda tenho soltas
e graças aos céus
não assim tão poucas, pois escorrem estravazando pelas bordas
plenas, nesse ínterim
e depois
fertilizasse todas as frestas e ranhuras plenas de insegurança
medo e solidão, todos os problemas
simplesmente encerrados
apenas com uma palavra
- sim -
foto de Robert Mapplethorpe
e dali
o inesperado em flor surgisse em forma de fato e surpresa
essa que, às vezes, explode surda, muda, de todo acesa nas ruas
que o acaso desce, e você, coincidentemente, também, surgindo
como uma pessoa que de repente vemos, e a gente mal reconhece,
que você tivesse cansado de esperar toda a vida e só uma prece
ou o horizonte lhe apontasse o seu lugar, e de repente lhe surgisse
assim do nada, na sua frente, suave, leve, materializada.
o inesperado em flor surgisse em forma de fato e surpresa
essa que, às vezes, explode surda, muda, de todo acesa nas ruas
que o acaso desce, e você, coincidentemente, também, surgindo
como uma pessoa que de repente vemos, e a gente mal reconhece,
que você tivesse cansado de esperar toda a vida e só uma prece
ou o horizonte lhe apontasse o seu lugar, e de repente lhe surgisse
assim do nada, na sua frente, suave, leve, materializada.
e pudesse
lhe envolver no seu cheiro, perfume, e uma cor que
você não encontra, que de repente transparece
fazendo tudo mudar
o ardor viceja, desponta - e pronto - a sorte voltou a atuar
tudo reluz e se abre, cresce
olha-se pro o céu límpido, os pássaros, a delicadeza das nuvens
e o vento
tão doce que passeia por seu corpo que agora
se sente querido, em paz
voa
foto de Robert Mapplethorpe
mas, como
conhecer a palavra flores, se não conheço todos os
segredos que existem em mim?
então, imagino
se houvesse flores é porque já as vi bem perto de
onde moro, ou por onde sigo meus olhos, por meu caminhos
esquecidos, pela água de um rio passado, quando passo com
atraso, ou mesmo, talvez, ali bem perto de mim
é que
talvez eu não as olhe e não me dê conta de quantas sementes
quantos botões se abrem, germinam em cores, em amarelos, azuis
ou violetas, brancas ou carmim, por não serem parte de minhas
obrigações, das minhas urgências, é o invisível comum
daí
me deitei , me despi do mundo, e pensei como podia isso
ter acontecido comigo, logo eu tão preciso em detalhes, tão
objetivo em minúcias, tão claro em observar que nem tudo
que vem na vida, vem porque estamos acordados
o quanto na vida nos distraímos do que achamos que não
é preciso, quando às vezes apenas um soslaio de alguém
perdido, ou detalhe de um gesto esquecido, nos faz ver
o que realmente nos prende ao que somos ou porque somos assim
e nem eu
em meu sono profundo, se quero ver que haja flores
me permito que eu seja apenas a alma presa dentro de mim
e dormi
e as flores vieram, todas.
e quando menos esperava
a fortuna, vinda na forma de meu
espírito liberto, me abriu as mãos e ali pôs sementes bem
pequenas, arrumadas em silêncio e cerimônia, como as letras
de uma palavra que eu não li, porque eu não precisava, pois
me lembrei que era algo que sempre conhecera
que eu já sabia que era a palavra
JARDIM.
foto de Issei Suda
quinta-feira, 3 de junho de 2010
A verdade e o invisível
falemos a verdade
e a verdade é que tudo é invisível
ou melhor
veio do invisível e se tornou visível
e nós percebemos esse invisível
quando pela primeira vez o descobrimos
quando nos deparamos com ele
ao abrir os olhos para esse mundo inteiro
nos engolfando em um nada cheio de formas, sons e cheiros
e nos sentimos completamente sós e desamparados
nessa imensidão onde não vemos limites ou um fim
e então não entendemos porque vivemos cercados pelo invisível
quase nos afogando nele
quando aí o inalamos sôfregamente
até que algo por dentro se infla, não sabemos bem como
e vem um impulso como ao sair de uma prisão quente e abafada
que depois identificamos como um berro
ou choro
ou a vida
porém, o invisível não é apenas o que não se vê, o que não se toca
e sim o que se percebe pelo que não está ali
mas o que está em qualquer lugar onde não se existe
mas que mesmo assim
quer ser percebido, sentido
até que lhe doa a vista
ou que lhe fira os ouvidos
ou lhe contraia os intestinos e arda em sua pele
ou que mesmo enlouqueça a sua mente
como uma criança que não para de pregar peças e fazer arruaças
a lhe fazer doer a cabeça como se ela estivesse rachando
para que, enfim, quando você estiver à ponto de endoidar
num rompante de desespero, quando já olhar
para os móveis e eles lhe sorrirem, parecendo se mover
num frenesi como numa dança tribal e antropofágica de
seu próprio sacrifício doméstico em honra aos que não enxergam
foto de Sven Turck
e as estrelas fosforescentes, que brilham no imaginário
de qualquer estrela fútil e megalomaníaca de Hollywood
girarem, como num chapéu mexicano de um parque de
diversões lisérgico, enlouquecido por doses extravagantes
e abusivas de ayahuasca e marijuana
e quando para você não houver mais os pés sobre o chão
e nem cabeça lhe habite o seu lugar tradicional
em cima do pescoço e sob o céu cheio de nuvens
a lhe chover gatos pingados, molhados e arrepiados
e você num ato de derradeiro de subsistência, grite com toda
força de seus pulmões, arrasados por toda a sua vida de
excessos e irresponsabilidades marotas de sua adolescência
maluca e maturidade descompensada :
- Chega , me diz por favor o que você quer, que lhe obedeço
mas pare com isso agora pelo amor de Deus, por favor
tenha piedade! Eu lhe entrego o que você quiser, tudo
mas pare, eu lhe imploro! O que eu te fiz? Pare,agora!
e aí ele se volta, senta-se em sua poltrona favorita
sopra, por sua boca invisível, círculos de fumaça
de algum cigarro imaginário de uma grife divina
e , te encarando, resolve lhe dar uma oportunidade
dizendo meiga e suavemente
como se nada tivesse acontecido
que tudo que houve
foi para que saísse de si mesmo e se desse conta
do que havia ao redor, do que lhe cercava
e principalmente dele - o invisível
foto de Liu Bolin
e que sempre aconteceria isso, porque
ele existia ali, na sua frente, e que você não se dava conta
e que então faria isso até que percebesse toda
a carência que ele tinha de não ser, para que assim
se delineasse o seu vazio ou sua falta de alguém que lhe
abraçasse e que lhe pudesse dizer
olha, eu estou aqui
eu existo
e preciso de você
disse então queria ouvir isso apenas para que fosse aceito
e não lhe trouxesse mais qualquer medo
e que pudesse existir assim mesmo, invisível
e ser querido exatamente por ser assim
para que lhe possa penetrar por seu corpo e mostrar um lado
mais doce e belo, pronto a lhe servir
como a todo gênio humano sempre servi
para que me ordenasse
me organizasse
me harmonizasse
nas mais sublimes melodias, inesquecíveis harmonias
ou em ritmos atordoantes a lhes despertar o humano
e para que eu possa despertar a todos em poesia
para que ali enxergassem à ele - o invisível
foto de Michael Manheim
e para que eu despertasse também a minha invisibilidade
e me tornasse de alguma maneira invisível
porque os seres humanos são assim
tudo organizam
tudo arrumam
tudo enfeitam
e o mundo lhe faz então um sentido confortável
de ter sido pacificado e que há um controle
e querem assim mesmo, daquela maneira
o que não vêem
o que não compreendem
apenas sentem
intuem
mas não conhecem verdadeiramente o invisível
porque querem tudo visível
foto de Fred Lébain
porque os faz perceber que esse universo, como todos os outros
que podem existir por aí, não são nada, e que, mesmos eles
não são nada
o que os apavora de sobremodo
e que o invisível é sim
o imensurável
o desconhecido
o absurdo
o inesperado
o que não se pode entender sem ter medo
ou despertar o êxtase
o espanto ou até mesmo a felicidade
ou o amor
foto de Don Gregorio Anton
que é o próprio existir - a essência da vida
o movimento que, ao se cansar da imobilidade de ser um
de ser sozinho
e resolveu usar sua energia para gerar um deslocamento
para um talvez desconhecido
originando tudo em círculos
voltando sempre para si retomando energias
e partindo para novas aventuras
inventando tudo o que hoje há
como o espaço, o tempo
e tantas outras dimensões ainda invisíveis
e por isso imperceptíveis aos nossos toscos e insensíveis olhos
e que ali, agora, apenas se permite humildemente, que o ordene
para que o aceitemos, o adotemos como cria afável
que permite que se eduque para te ninar
ou mesmo te abraçar com seu corpo invisível e lhe passar calor
agradável, para que durmas sossegado, ou a lhe esfriar a pele
para que suporte o calor que lhe queima a pele, ou acenda
humores que turvem a mente e incendeiem o olhar
embora se entenda por aí , porque surgiu a arte
assim
do olhar
do que existe e por consequência está vivo, pulsa
foto de Madge Donohoe
mas, surpreendentemente, o invisível também pulsa , freme
e também habita toda e qualquer boa arte porque a transcende
com o mistério
com o que não se explica
com a aura
com o segredo de ser - não sendo, até que se o perceba
sinta-o
veja-o
ali muito mais vivo de tudo que é apenas visível
com todos os nossos olhos de ver além
e que não são esses dois espaçados na cara
separados pelo nariz
por exemplo
o amor é o invisível visto com os olhos do coração
e a alegria é o invisível visto com olhos do sorriso
o carinho é o invisível visto com os olhos da tocar
a delícia é o invisível visto pelo olhos do paladar
o perfume é o invisível visto com os olhos do desejo
a fúria é o invisível visto pelos olhos da tempestade
a melancolia é o invisível visto com os olhos da dor
e a pressa é ..deixa pra lá, não importa, não dá tempo!
eu, então
pessoalmente
aprendi que sinto o invisível
sempre presente como um companheiro imprescindível
a penetrar a minha mente e a tocar meu corpo e meus órgãos
ininterrupta e prazeirosamente
até que ele me diga porque ele se faz
urgente naquele instante, pedindo para ver sua a
sua configuração, a sua transparência que não habita
lugar nenhum, porque todos os lugares são sua casa
e onde estende o seu corpo que parece não-ser e se faz prazer
ou dor imensurável ou mesmo se aquieta
em sua quase inexistência
foto de Emmet Gowin
é como meu par querido, que eu sei que está ali
mas que nunca saberei com certeza qual será
sua manifestação
a receber tudo que se desfaz
ou a fazer tudo que é
e que veio dele
para que nós
com tudo o mais
partíssemos para conhecer o que pudesse acontecer
perdoando aos nossos caminhos
porque entende que apenas foi mais um caminho vindo dele
voltando até ele, como um círculo vicioso
o invisível que se faz visível, cria
e lhe tem afeto e precisa dele
e que à isso nós damos o nome de amor
e por isso voltamos ao invisível
por seu amor
mas que sempre estará por perto por que somos um só
vivemos não cercados do invisível , mas dentro dele
ou melhor somos o movimento que a partir dele
vindo dele,
e parte dele
nos fez visíveis, concretos, para senti-lo, para ama-lo
em seu infinito saber
o que adquiriu também por estar em nós
sobre nós
por nós
para nós
para sempre
como
o Eterno
sábado, 29 de maio de 2010
Caixa de Pandora
foto de Parke Harrison
a razão agora tudo devora
somos nossos ditos carcereiros
a razão agora tudo devora
somos nossos ditos carcereiros
tanto como tristes e frios prisioneiros
pois a mente levanta mil paredes
a nossa própria caixa da Pandora
se a razão é humana
a emoção e o afeto
são nossos frutos, fetos
onde nossa esperança
pois a mente levanta mil paredes
a nossa própria caixa da Pandora
se a razão é humana
a emoção e o afeto
são nossos frutos, fetos
onde nossa esperança
ansiosa
mora!
Tears - foto de Man Ray
A paixão é do desejo
a sua cria insana,
o filho que vive inquieto,
grita , esperneia
e chora,
chora,
chora,
E de tudo
Tears - foto de Man Ray
A paixão é do desejo
a sua cria insana,
o filho que vive inquieto,
grita , esperneia
e chora,
chora,
chora,
E de tudo
faz um drama
aonde ele nos leva
construir um mundo
de máquinas,
e admirar apenas a teoria
as regras?
Sentir é andar
e admirar apenas a teoria
as regras?
Sentir é andar
por um beco?
É tropeçar às cegas?
foto - Yasuhiro Ishimoto
foto - Yasuhiro Ishimoto
que criamos
o que imaginas,
o que imaginas,
o que pensas!
estão fora de moda
e todo amor
e todo amor
continuamos
como almas cegas
com a solidão
e a dor
como comédias
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Alô!
foto de Lisette Model
sorrir
é tão fácil falar - sorrir
mas tudo tem a sua hora
falar também
porém, é isso o que eu não encontro agora
penso em silêncio
nada parece soar adequado, nem o meu sentir seria - poderia se dizer
nada que eu aqui pudesse julgar como sendo totalmente perfeito ou
exatamente aconselhável, justo, pois, falar, sorrir, ou calar-me
totalmente, nesse momento, em que me permito a reflexão, eu
entenderia como um comportamento exagerado
quisera ter a medida certa em que tudo se equilibra com
esmêro, lado à lado, e nem uma gota se derrama, nem no meu
oceano imaginário contido, por milagre, dentro de um cálice
sagrado, equilibrado na ponta de um bastão vacilante em
minha mente
foto de Inta Ruka
é tão fácil transbordar, perder o controle, desorganizar-se
como ter o juízo que se demanda?
ser apropriado, justo, o não complicado
mas, ainda, quão difícil se torna julgar isso
se nada que julgo transmitirá também toda a verdade
quem me poderá dizer isto?
ou o que é isto?
quem me traçará o desenho da minha própria realidade?
foto de Hugo Rostev
por dentro sou carne que amasso
renego
retalho
desejos que refuto
mãos que tremem
embaralho
cérebro que pensa
pés trocados, equívocos, enganos,desmedidas
como julgar o que está lá fora?
foto de Lothar Mendes e Clara Bow
há complexidade em qualquer caminho ou gesto combinado
a perturbação terrível do trânsito que é por dentro do meu
corpo, um túnel repleto, congestionado, com buzinas histéricas
a reverberar sem juízo pelas paredes de concreto, com os
guardas de trânsito apitando em minha cabeça embaralhada
neurônios entupidos
foto de Meatyard
se não quero nada para mim agora, tudo à frente ali, já é mentira
arrependimento, paixão, desespero - qual comportamento ou
julgamento pode ser o meu? ou mesmo, como pode ser negado
de que também esse não o seja?
e pra que meu?
o quê, se nunca foi ou poderá ser , se nem eu próprio tomei
conta de mim?
terra abandonada, perdida, despovoada
não me possuo, só risco pontos, paisagem sem traços
sou um continente desconhecido
território sem dono
selva terrível
lago parado
ou tormentoso
riacho doce
e medo, medo à cada passo
foto de Chen
enlouqueço a cada descanso porque perco a vista
amanso a fúria de saber que sou aquele que está cego
por não saber onde estou
o que não arrisca sair dali
não tenta ir sem arriscar e ir tateando no escuro o significado
do - quem eu sou?
digo apenas palavras tolas, ou escondo meu precipício
distraindo os olhos desavisados
quando sorrio simpático
feliz
e digo, cumprimentando, o que talvez seja tão fácil para
os outros
um simples
Alô!
e aí, percebo que entendi a solução
que é simplesmente me abrir e não dificultar
dar um primeiro passo, percebendo que eu quero que
seja assim
apenas feliz
e sorrir!
foto de Robert Doisneau- Paris 1936
Eu não sei o que é ser poeta
foto de Parke Harrison
pó é, tá
é pó, tá!
tá é pó
pó é pó, tá!
só pó, pó, pó...poeta!
pois, eu não sei o que é ser poeta
se tiver que assim
de mostrar estrelas quase quasar
de ser telescópios pra dentro
dos neurônios
de redemoinhos no tempo
do ser
se tiver que ser uma noite em rotação
uma corda esticada
que vem ainda de mais além
de um carinho rejeitado
ou quase
da consciência de um pecado
ou quase
da iminência da morte
ou quase
das feras que rondam à noite
ou quase
ou quase aquele dia
que me jogaste uma flor
de uma varanda quente de Benghazi
pode ser que seja aquele que por dentro se avessa
e traz à gente
os dois lados de uma dor descontínua
acomodada
ou só dormente
e descabida
cravada
e esquecida
tida
ou só protegida
se tiver que vestir um muro
com seu sangue
bem azul de poeta
espelho de sua meta
ou desvio apaixonado
desta invivência
desta jungle absurda
inquieta e doente
e aí tenha que equilibrar tudo
neste duro azul, tão azul
que prosseguirá adiante
prá cima
sem ter colher
das almas dízimo
ou um sorriso desengraçado
dormente
um mínimo
uma semente
veja bem o que é ser poeta
sei lá, sei não
somos como tudo e todos - pó
viemos do pó e voltamos ao pó
portanto
tome cuidado se precavenha
do destino, da definição
porque se existem estradas azuis e longas
e é você quem as pinta, intui
escreve
para que homens delas esperem
seu broto
sua felicidade
the heaven
aqui ou não
ou que para todos esses homens
que não pedem
para nelas andarem
para elas olharem
nem por capricho, desleixo
ou curiosidade
se por elas batem um pouco de sol
ou mesmo se já é muito tarde
e foi-se ali a felicidade
saibam o porque
e talvez
ser o que é poeta
ou talvez até eu aí perceba melhor isso
ou mesmo o que é ser
um guardachuva
ou um armário
pois, se abrimos um
para nos isolarmos
das diluências
e depois de usado
o guardamos no outro
é apenas para que não vejam
por ele
que não é só em nós
que os olhos tem-se molhado.
pó é, tá
é pó, tá!
tá é pó
pó é pó, tá!
só pó, pó, pó...poeta!
pois, eu não sei o que é ser poeta
se tiver que assim
de mostrar estrelas quase quasar
de ser telescópios pra dentro
dos neurônios
de redemoinhos no tempo
do ser
se tiver que ser uma noite em rotação
uma corda esticada
que vem ainda de mais além
de um carinho rejeitado
ou quase
da consciência de um pecado
ou quase
da iminência da morte
ou quase
das feras que rondam à noite
ou quase
ou quase aquele dia
que me jogaste uma flor
de uma varanda quente de Benghazi
pode ser que seja aquele que por dentro se avessa
e traz à gente
os dois lados de uma dor descontínua
acomodada
ou só dormente
e descabida
cravada
e esquecida
tida
ou só protegida
se tiver que vestir um muro
com seu sangue
bem azul de poeta
espelho de sua meta
ou desvio apaixonado
desta invivência
desta jungle absurda
inquieta e doente
e aí tenha que equilibrar tudo
neste duro azul, tão azul
que prosseguirá adiante
prá cima
sem ter colher
das almas dízimo
ou um sorriso desengraçado
dormente
um mínimo
uma semente
veja bem o que é ser poeta
sei lá, sei não
somos como tudo e todos - pó
viemos do pó e voltamos ao pó
portanto
tome cuidado se precavenha
do destino, da definição
porque se existem estradas azuis e longas
e é você quem as pinta, intui
escreve
para que homens delas esperem
seu broto
sua felicidade
the heaven
aqui ou não
ou que para todos esses homens
que não pedem
para nelas andarem
para elas olharem
nem por capricho, desleixo
ou curiosidade
se por elas batem um pouco de sol
ou mesmo se já é muito tarde
e foi-se ali a felicidade
saibam o porque
e talvez
ser o que é poeta
ou talvez até eu aí perceba melhor isso
ou mesmo o que é ser
um guardachuva
ou um armário
pois, se abrimos um
para nos isolarmos
das diluências
e depois de usado
o guardamos no outro
é apenas para que não vejam
por ele
que não é só em nós
que os olhos tem-se molhado.
terça-feira, 25 de maio de 2010
O paraíso dos passarinhos
Um pássaro caiu morto
e não se levanta
diante de minha casa iluminada
mas sua alma ainda canta
e me acorda de madrugada
O paraíso dos passarinhos
é feliz como um recreio de crianças
que brincam sem saber da vida nada
às vezes, entramos neles sozinhos
dormindo
ou pensando como se alcança
um pedaço de torta
numa janela abandonada
Assim
permanecemos enlevados
até que num instante
desaparece
Na vida
como a gente sabe
tudo acontece
e queremos ter tudo
sempre que for desejado
porém, se algo falha
e a torta cai no chão
os passáros ficam alegres
com as migalhas
a gente não
a gente se perde em nuvens
e depois esquece
inventamos um sentido
que nos conforta
quando a vida nos diz não
ou inventamos outra janela
com outra torta mais à mão
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