Eu sou o Marcos Vasconcellos. Aqui eu escrevo o que me der na telha, o que me vem na hora de dormir, quando estou num onibus, ou no meio de um papo chato!
terça-feira, 25 de maio de 2010
O paraíso dos passarinhos
Um pássaro caiu morto
e não se levanta
diante de minha casa iluminada
mas sua alma ainda canta
e me acorda de madrugada
O paraíso dos passarinhos
é feliz como um recreio de crianças
que brincam sem saber da vida nada
às vezes, entramos neles sozinhos
dormindo
ou pensando como se alcança
um pedaço de torta
numa janela abandonada
Assim
permanecemos enlevados
até que num instante
desaparece
Na vida
como a gente sabe
tudo acontece
e queremos ter tudo
sempre que for desejado
porém, se algo falha
e a torta cai no chão
os passáros ficam alegres
com as migalhas
a gente não
a gente se perde em nuvens
e depois esquece
inventamos um sentido
que nos conforta
quando a vida nos diz não
ou inventamos outra janela
com outra torta mais à mão
domingo, 23 de maio de 2010
A selva, a selva, a selva II
foto de Lucie &Camp Simon
depois de longa jornada, campos lisos e vagos
a noite é calma e pensamos que ali é o esteio
o repouso enfim, que a viagem é finda
as estradas - o passado, o pior já fora
o selvagem chamado da aflição, fim do nosso
animal entranhado na herança inocente de
nossos pais, finalmente está perdida no tempo
no esquecimento
um eco na distância
tudo apagado pra mim
foto de Arsenault
depois de arrasada a selva - civilização
interpõe-se clarão e ordem
pois, eis que então percebemos a cidade onde estamos
temos a impressão que agora podemos, ou melhor
que tudo podemos
há paz, um suporte - segurança do método, da organização
nossas cabeças se recostam em encostos macios
um vento sopra - o vento da ilusão
pois, a selva não seria a selva se não fosse indomável
incontrolável violência
eterna
inescrutável
e traiçoeira
foto de Dolors
e neste mundo, nós somos, pois, o seu adubo
seu alimento
de sua fronteira verde e medonha, das ambições sangrentas
de seus dedos-galhos
suas florações são alimentos de poder
abraços do terror e da violência, seus caminhos perdidos
entre palavras e calor úmido, as cidades perdidas, nossos
corpos entre plantas famintas e ganância, tesouros imaginários
entre monstros, feras, insetos, perdições e seus pusilâmines e
rastejantes seres famintos - ali novamente seu mundo perdido e crú
foto de Daniel Gustav Crame
para a natureza pura e imaginária
apenas desejos de sobrevivência e beleza
renascerão entre nossos sonhos
que é o que estará ali desde então
e oculta ainda
a selva
a selva
a selva
foto de Daniel Gustav Crame
nem má , nem boa
mas é o que nos leva à inocência, à ignorância
apenas quem sobrevive lá, vê a origem
a selva
a selva
a selva
foto de Wynn Bullock
o rude cimento de nossas emoções
quem nos tenta entre torpor e macio calor?
as traições tem garras impiedosas - o inesperado
o cruel
o poder
o sem esperança
o desespero
o sem escrúpulo
o onde está meu Deus?
o por favor te imploro
e me guia
e me diz
e me explica
e me ilumina
foto de Heyits Garret
porque à frente a escura
insana
ameaçadora
a impiedosa
indiferente
a urbana selva
continua a brotar sempre, atrás de cada pensamento e ambição de
nossos tolos corações
quase domados
foto de Craig.K.Marble
escuta!
rugidos!
fujamos!
para onde?
foto de Arsenault
o paraíso está aqui
toda maravilha se esconde entre o sombrio, o negror e as folhas
está entre nós
e a selva
a selva
a selva
foto de Daniel Gustav Crame
depois de longa jornada, campos lisos e vagos
a noite é calma e pensamos que ali é o esteio
o repouso enfim, que a viagem é finda
as estradas - o passado, o pior já fora
o selvagem chamado da aflição, fim do nosso
animal entranhado na herança inocente de
nossos pais, finalmente está perdida no tempo
no esquecimento
um eco na distância
tudo apagado pra mim
foto de Arsenault
depois de arrasada a selva - civilização
interpõe-se clarão e ordem
pois, eis que então percebemos a cidade onde estamos
temos a impressão que agora podemos, ou melhor
que tudo podemos
há paz, um suporte - segurança do método, da organização
nossas cabeças se recostam em encostos macios
um vento sopra - o vento da ilusão
pois, a selva não seria a selva se não fosse indomável
incontrolável violência
eterna
inescrutável
e traiçoeira
foto de Dolors
e neste mundo, nós somos, pois, o seu adubo
seu alimento
de sua fronteira verde e medonha, das ambições sangrentas
de seus dedos-galhos
suas florações são alimentos de poder
abraços do terror e da violência, seus caminhos perdidos
entre palavras e calor úmido, as cidades perdidas, nossos
corpos entre plantas famintas e ganância, tesouros imaginários
entre monstros, feras, insetos, perdições e seus pusilâmines e
rastejantes seres famintos - ali novamente seu mundo perdido e crú
foto de Daniel Gustav Crame
para a natureza pura e imaginária
apenas desejos de sobrevivência e beleza
renascerão entre nossos sonhos
que é o que estará ali desde então
e oculta ainda
a selva
a selva
a selva
foto de Daniel Gustav Crame
nem má , nem boa
mas é o que nos leva à inocência, à ignorância
apenas quem sobrevive lá, vê a origem
a selva
a selva
a selva
foto de Wynn Bullock
o rude cimento de nossas emoções
quem nos tenta entre torpor e macio calor?
as traições tem garras impiedosas - o inesperado
o cruel
o poder
o sem esperança
o desespero
o sem escrúpulo
o onde está meu Deus?
o por favor te imploro
e me guia
e me diz
e me explica
e me ilumina
foto de Heyits Garret
porque à frente a escura
insana
ameaçadora
a impiedosa
indiferente
a urbana selva
continua a brotar sempre, atrás de cada pensamento e ambição de
nossos tolos corações
quase domados
foto de Craig.K.Marble
escuta!
rugidos!
fujamos!
para onde?
foto de Arsenault
o paraíso está aqui
toda maravilha se esconde entre o sombrio, o negror e as folhas
está entre nós
e a selva
a selva
a selva
foto de Daniel Gustav Crame
sábado, 22 de maio de 2010
O viajante
pintura de Salvador Dali
como se a nau deixasse o porto
antes que pudesse chegar lá
a embarcação de mim é o destino torto
o fim do caminho
o meio
e o ainda sem caminhar
foto de Jose d'Espinal

tanto é que
de seus loucos passos
fez a linha de sua vida inteira
e da interpretação dos sonhos
pés descalços e o acaso extraviado
a sua meta certeira
foto de Ella Maillart -Kirghiz soviétique-1932
eu
navio
viajante
o além e o porto
somos partes unidas como um só dono de um sentido quão vasto
como incerto o trono
a lógica é selvagem e a ilógica o seu horto
a canhota sua direita
e quando diminuo somo
sem limite o ser, o sim é quase tudo, somos
e o não
se encolhe, cala, cai vencido, quase morto
e o que resta da tempestade é nuvem, brisa, cheiro
ou só um simples enlêvo
absorto
foto de Jean Marie Auradon
como se a nau deixasse o porto
antes que pudesse chegar lá
a embarcação de mim é o destino torto
o fim do caminho
o meio
e o ainda sem caminhar
foto de Jose d'Espinal

tanto é que
de seus loucos passos
fez a linha de sua vida inteira
e da interpretação dos sonhos
pés descalços e o acaso extraviado
a sua meta certeira
foto de Ella Maillart -Kirghiz soviétique-1932
eu
navio
viajante
o além e o porto
somos partes unidas como um só dono de um sentido quão vasto
como incerto o trono
a lógica é selvagem e a ilógica o seu horto
a canhota sua direita
e quando diminuo somo
sem limite o ser, o sim é quase tudo, somos
e o não
se encolhe, cala, cai vencido, quase morto
e o que resta da tempestade é nuvem, brisa, cheiro
ou só um simples enlêvo
absorto
foto de Jean Marie Auradon
quinta-feira, 20 de maio de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
o que tanto admira?
foto do Himalaya- Cachemira
o que tanto admira
que de teu poço escuro
ascende
e de si retira
o que há de vão e impuro
e faz ser o que inexiste ou imaturo
a certeza de acerto
um paraíso acima de cachemira?
pode o mar bramir
que não te importa
porque estás além da fúria
e do que possa existir
seja espanto ou injúria?
será verdade que possa ir
até esse estar perfeito
sem temor ou sem negruras?
foto de Dod Ojin Ming
se o insano
de nós o real aparta
ou a felicidade pra mim insegura
também deste mundo nos descarta
será melhor viver nas alturas
enquanto aqui a aflição se farta?
ou será melhor colocar asas na bravura
e seguir reto até o que nos afronta
e ver quem de si pode tomar conta?
foto de Parke Harrison
ah! isso também é o que admiras?
tantas reviravoltas à imaginar
imaginar
imaginar
e o que está logo à frente
o que nunca vira
é a prova de que ser
o que possa realizar
é o que procura
se deixa de ser mentira
se ali se materializar
foto de Doisneau
então, tudo surge
e aí está a maravilha
até onde se possa pensar
tirar de si
para haver nessa beleza
o que nunca existira
as montanhas mais altas
e o que nem se pudera pensar
ou nunca vira
foto do Himalaya
pois, de si, criara o seu mundo
sem pensar no que lhe espanta
aceitando o que lhe vem como fonte clara
que só existe porque o vê por dentro, em seu mais profundo
que ali está e sempre existiu como o inexplicável
que sem palavras se entende
como o além que trazemos por dentro
que nos surge quando sabemos
que nós o trazemos sempre
para que surja quando percebemos
que desde sempre estivemos juntos
porque o que se inventa somos nós mesmos
ali luzindo como um milagre que se cumprira
porque é dali que construimos
o que fomos
o que somos
o que seremos
e todo nosso mundo
Picasso e Braque- pintura de Mark Tansey
Perceber é sentir?
foto de Dobrowner
não há rigor
que agora mude
a concretude do sentir
que há tempos me ilude
pode o porvir da gente ser percebido
por quem o mundo imagina à sua frente?
digo que não imagino
mas que percebo
e se, então, percebo o sentir
o que me destina? o existir?
foto de André Kértezs
a vida é o firmamento
em que o que vem mora
se há o azul e calor, há sol
se nuvens espumam essa aurora
pode chover onde estou
mas o destino é a nossa história
esse céu que muda, já me enganou
mas não é isento, por ora
pois, o que sentimos o transforma
como o que se imagina do lado de fora
por isso, se sentir
que percebo formar-se, à distância, claridade
entendo que se faça a luz mais cedo
talvez isto já seja uma oportunidade
de saber que o dia não se demora
e saber que, graças
viver já é uma vitória
foto de Parke Harrison
não há rigor
que agora mude
a concretude do sentir
que há tempos me ilude
pode o porvir da gente ser percebido
por quem o mundo imagina à sua frente?
digo que não imagino
mas que percebo
e se, então, percebo o sentir
o que me destina? o existir?
foto de André Kértezs
a vida é o firmamento
em que o que vem mora
se há o azul e calor, há sol
se nuvens espumam essa aurora
pode chover onde estou
mas o destino é a nossa história
esse céu que muda, já me enganou
mas não é isento, por ora
pois, o que sentimos o transforma
como o que se imagina do lado de fora
por isso, se sentir
que percebo formar-se, à distância, claridade
entendo que se faça a luz mais cedo
talvez isto já seja uma oportunidade
de saber que o dia não se demora
e saber que, graças
viver já é uma vitória
foto de Parke Harrison
segunda-feira, 17 de maio de 2010
O amanhã
meu corpo é o estranho
é lava derretida
é fundida entranha
fluxo em brasa que escorre e me leva ao que não é mais
pois, o que há, se distancia para sempre da emoção
desta parte, em que o inexplicável ganha
foto de Pruszkwoski
o não entender não é possível aqui
o perceber-se se ignora, não interessa a trama
não há mais tempo, o futuro talvez seja hoje só fria fumaça
nada mais é e será para sentir
é a razão de gelo que o momento apanha e abraça
cena de Seven Golden Man Out to Conquer the Space
tudo é capital, impaciência, intolerância de planos
informática, webs, perdas e danos
é o fim da guerra, o já, a glória e a derrota do ser humano
alejado sem mãos, nada faz, só teknica
o que se sente não traz lucros, é por onde a razão se dana, se engana
cena de Metropolis de Fritz Lang
amanhã, o que é sensível será a presa da aranha
como um inútil inseto preso à vertigem da velocidade
à envolvente teia do agora, do imediato, da superfície
desigual e nunca eterna que lhe atrai, por renda imensa
publicidade bem feita e genialmente arquitetada
o chamariz necessário que lhe seduz
a apanha
a chama
à armadilha da besta maquiavélica, que espreita
pronta ao salto fatal, em torpe emboscada
foto da aranha mecânica japonesa
a armadilha está pronta, a arapuca está montada
pode ser delicioso prato de hoje pra uma gula inusitada
o aracnídeo ri e comemora, tem fome e a presa distraída, enroscada
cena de The Mini Man
mas o tempo, sua tola, é rio fervente
que não traz dó, nem piedade
a natureza é uma máquina inclemente que não chora
são as suas chamas, as labaredas
que com prazer e inebriada gula aos dois distraídos e indefesos seres
tanto presa, como predador à que os seus tentáculos arreganha
que ela, por fim, engloba e gulosamente devora
e por fim nada resta
e também o fogo se apaga
e esse é o fim de nossa história
domingo, 16 de maio de 2010
Poesia de um olho só
foto de Bill Brandt
ah, se soubesse ver como sei escutar
porque, quando escuto, sei o que ecoa
e que é ali, dentro de mim
que o som se refrata, se multiplica, vem se buscar
que ali vibra
reflete
reluta
mas consola
organiza
harmoniza
perdoa
foto - autoretrato de Brassai
quando olho sei que não só vejo
porque é o que extravaza do que penso
que vem a vestir a nudez do meu olhar
foto de Barbara Morgan
assim, o que vejo nunca está só e o que escuto é a verdade
que passeia
me enroscando
me seduzindo
me falando
me induzindo
invadindo o que sinto com que entranha estranha no ar
me encanta
me envolve com sua pulsante e perigosa teia
foto de Joseph Sterling
amar é mais como um som que não sei daonde vem e como
se eu visse porém como ele é de verdade, não era amor só
mas o desejo que engana o dono
portanto, há mais valia nessa meta, em ouvir como
se bate o coração nesse momento, do que vê-lo ser
transpassado por uma seta de quem não tem nenhum cabimento
um moleque alado que passa daqui pra ali
rindo e zombando de tudo que tem flexado
mas o que me importa, no entanto, agora
é que preciso de uma imagem aonde guardar todo tolo sentimento
e não ter que ouvir aquele som de sarjeta de quem o amor devora
o som miserável e profano de um dia ser jogado fora
foto de Ralph Gibson
ah, se soubesse ver como sei escutar
porque, quando escuto, sei o que ecoa
e que é ali, dentro de mim
que o som se refrata, se multiplica, vem se buscar
que ali vibra
reflete
reluta
mas consola
organiza
harmoniza
perdoa
foto - autoretrato de Brassai
quando olho sei que não só vejo
porque é o que extravaza do que penso
que vem a vestir a nudez do meu olhar
foto de Barbara Morgan
assim, o que vejo nunca está só e o que escuto é a verdade
que passeia
me enroscando
me seduzindo
me falando
me induzindo
invadindo o que sinto com que entranha estranha no ar
me encanta
me envolve com sua pulsante e perigosa teia
foto de Joseph Sterling
amar é mais como um som que não sei daonde vem e como
se eu visse porém como ele é de verdade, não era amor só
mas o desejo que engana o dono
portanto, há mais valia nessa meta, em ouvir como
se bate o coração nesse momento, do que vê-lo ser
transpassado por uma seta de quem não tem nenhum cabimento
um moleque alado que passa daqui pra ali
rindo e zombando de tudo que tem flexado
mas o que me importa, no entanto, agora
é que preciso de uma imagem aonde guardar todo tolo sentimento
e não ter que ouvir aquele som de sarjeta de quem o amor devora
o som miserável e profano de um dia ser jogado fora
foto de Ralph Gibson
domingo, 9 de maio de 2010
Às vezes
às vezes, penso em desistir de tudo
quando eu sinto que os pés não me obedecem
e se recusam a dar um passo adiante, por menor
que seja a distância a percorrer
lá fora tudo continua em seu ritmo atordoante
de planeta girando,de roda gigante, enquanto eu me travo
desordenado
como se tivesse construído uma gaiola imaginária
em torno de mim
daonde observo o que acontece
encolhido em um cantinho
absorto em delírios de impossibilidades e fatos extraordinários
e excêntricos que me surgem e se materializam
com os sons que escuto por trás das paredes da discrição
e percebo
que um mascote que late
que o vizinho que vê tv com o som nas alturas intergalácticas
enquanto, seu rosto em transe, faz parecer que dorme
um casal faz sexo como locomotivas num terremoto
voam risadas sobre o patético show
e eu
estou só
penso em desistir de tudo
e a noite não me ilumina
se acomoda em seus barulhos apagados
ou algazarras de farras invejadas
ou em sua colcha de céu apagado e indiferença
a embrulhar os casais sem surpresas
as famílias
e os solitários
os namorados
os desesperados
os alegres
as camas vazias
e os bêbados de cada esquina
penso em desistir de tudo
mas como desistir de mim
desistir de ser
a não me entender como eu
pessoa à pensar
pessoa à agir
pessoa à rir
pessoa à correr
pelos dias procurando o próprio ser
que em sua pessoa existe
como existe a percepção
de que um carro sobe a ladeira
violinos musicam outros andares
o silêncio dos grilos na floresta
o roçar das patinhas de um inseto perdido num mato qualquer
a fazer cricri
musicando o escuro
e depois o nada
penso em desistir de tudo
porém, não de mim
mas, do que pensei
porque não lhe vejo os frutos
não lhe colho as sementes
não rego os brotos
então, resistirei e tentarei com as minhas mãos
desenhar o meu caminho ainda em folha rascunhada
sair do esboço
fazê-lo surgir até onde quero
revelar o mistério que perdi em alguma noite e que se esconde
inconformado
em algum bar, num último copo de insatisfação
cansado de esperar meu olhar
tenho fome de ser eu mesmo
tenho a ânsia de insistir, de tentar o destino a seguir
a permitir ao que se tem pela frente
delimitar o imensurável do acima
a sonhar sobre a minha angústia
até que ela se liberte do meu nada
e venha a ser mais um dia pleno
dentro de mim
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Enquanto seu lobo não vem
pintura de Courbet
levanto correndo
pego uma obra de arte que não deu certo
amasso
soco
rasgo
chuto
grito
e jogo na lixeira
fico desesperado telefono para uma amiga e peço que ela me dê calma
ela então me acalma
descubro que estou atrasado
agradeço
mando um beijo
desligo
me arrumo
corro para o posto de gasolina
tiro dinheiro na máquina de 24 horas
corro
pego um ônibus
penso em alternativas para o trabalho
tiro a carteira
pago o trocador
me sento
e penso
enquanto seu lobo não vem
foto de Pruszkowski
vejo chegar o ponto do metrô
faço sinal
levanto
ando para a dianteira do veículo
me preparo pra descer
o ônibus para
eu salto depressa
corro para o metrô
voo até a bilheteria
pego a fila
sei que continuo atrasado
tiro a carteira do bôlso
compro as passagens de ida e volta
disparo para o acesso
passo pela roleta
desço zunindo pela escada
o metrô para
abre as portas
eu pulo para dentro
ele parte veloz
eu me seguro
penso
enquanto seu lobo não vem
o metrô para
abre as portas
eu sumo na multidão
subo pelas escadas saltando degraus
chego na calçada
ando depressa e atravesso no sinal para o outro lado
pego a transversal
peço informações à um farmacêutico
vou para o endereço correto
entro na loja
peço o que eu quero
o atendente diz que fui orientado errado
eu discuto com ele
ele argumenta de imediato
mas vai lá dentro e pega o produto que eu queria
agradeço e digo que me atrasara muito
vou até o caixa
tiro a a carteira do bôlso
pago
recebo o trôco
pego o embrulho com tudo que eu comprei
acelero pela rua e vou à mais três lojas
vazo até o metrô
passo a roleta
corro para as portas que se abrem
me espremo na multidão em pé
tem um lugar vazio eu chego e sento
penso
enquanto seu lobo não vem
fico nervoso
conto os segundos
o metrô chega
eu passo pela porta
vou para as escadas
subo as escadas
chego em cima
corro para a rua
pego um ônibus que não anda
me desespero e salto
vou andando no maior pique
entro no super mercado
deixo os pacotes na entrada
pego o carrinho
e rolo pelos corredores pegando tudo que eu possa precisar
vou para o caixa
despejo as coisas na frente dela
ela passa tudo pela máquina
pede o cartão de crédito
eu dou o cartão de crédito
vem o papel do recibo amarelo
eu assino
boto tudo na carteira
e reflito se conseguiria diminuir o atraso
pego as sacolas
passo no guarda bolsas
pego as sacolas
avanço para a porta
atravesso
saio batido para casa
chego
bato a porta
tranco
deixo as sacolas no chão
guardo tudo na geladeira
pego uma garrafa de água
derramo água no copo
torno a pôr a garrafa na geladeira
fecho porta dela
levo à boca o copo
bebo todo direto
vou ao banheiro
tiro a roupa
entro no chuveiro
abro a torneira
passo sabão pelo corpo
entro na ducha
me lavo
saio
me enxugo
coloco roupa limpa
vou para o sofá
sento
penso
enquanto seu lobo não vem
pego uma revista de arte
confiro uns artigos
me recosto no travesseiro
meus olhos vão se fechando
o pensamento divaga
eu me acalmo
tudo escurece
uma manhã nasce na floresta
eu ajeito os meus pelos
minha bôca está faminta
meu rabo balança
as garras afiadas
ali está uma casa pequena na clareira
sai fumaça da chaminé
e uma menina se aproxima pela trilha ensombreada
leva uma cesta na mão
ela está alegre
mas eu sou mais rápido
eu pulo pela janela
alguém lá dentro se assusta
eu uivo
a pessoa parece comigo
me olha curiosa e sorri
e me diz satisfeita
tranquila
porque demoraste tanto?
ilustração para O Chapéuzinho Vermelho de Gustave Doré
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