Eu sou o Marcos Vasconcellos. Aqui eu escrevo o que me der na telha, o que me vem na hora de dormir, quando estou num onibus, ou no meio de um papo chato!
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Enquanto seu lobo não vem
pintura de Courbet
levanto correndo
pego uma obra de arte que não deu certo
amasso
soco
rasgo
chuto
grito
e jogo na lixeira
fico desesperado telefono para uma amiga e peço que ela me dê calma
ela então me acalma
descubro que estou atrasado
agradeço
mando um beijo
desligo
me arrumo
corro para o posto de gasolina
tiro dinheiro na máquina de 24 horas
corro
pego um ônibus
penso em alternativas para o trabalho
tiro a carteira
pago o trocador
me sento
e penso
enquanto seu lobo não vem
foto de Pruszkowski
vejo chegar o ponto do metrô
faço sinal
levanto
ando para a dianteira do veículo
me preparo pra descer
o ônibus para
eu salto depressa
corro para o metrô
voo até a bilheteria
pego a fila
sei que continuo atrasado
tiro a carteira do bôlso
compro as passagens de ida e volta
disparo para o acesso
passo pela roleta
desço zunindo pela escada
o metrô para
abre as portas
eu pulo para dentro
ele parte veloz
eu me seguro
penso
enquanto seu lobo não vem
o metrô para
abre as portas
eu sumo na multidão
subo pelas escadas saltando degraus
chego na calçada
ando depressa e atravesso no sinal para o outro lado
pego a transversal
peço informações à um farmacêutico
vou para o endereço correto
entro na loja
peço o que eu quero
o atendente diz que fui orientado errado
eu discuto com ele
ele argumenta de imediato
mas vai lá dentro e pega o produto que eu queria
agradeço e digo que me atrasara muito
vou até o caixa
tiro a a carteira do bôlso
pago
recebo o trôco
pego o embrulho com tudo que eu comprei
acelero pela rua e vou à mais três lojas
vazo até o metrô
passo a roleta
corro para as portas que se abrem
me espremo na multidão em pé
tem um lugar vazio eu chego e sento
penso
enquanto seu lobo não vem
fico nervoso
conto os segundos
o metrô chega
eu passo pela porta
vou para as escadas
subo as escadas
chego em cima
corro para a rua
pego um ônibus que não anda
me desespero e salto
vou andando no maior pique
entro no super mercado
deixo os pacotes na entrada
pego o carrinho
e rolo pelos corredores pegando tudo que eu possa precisar
vou para o caixa
despejo as coisas na frente dela
ela passa tudo pela máquina
pede o cartão de crédito
eu dou o cartão de crédito
vem o papel do recibo amarelo
eu assino
boto tudo na carteira
e reflito se conseguiria diminuir o atraso
pego as sacolas
passo no guarda bolsas
pego as sacolas
avanço para a porta
atravesso
saio batido para casa
chego
bato a porta
tranco
deixo as sacolas no chão
guardo tudo na geladeira
pego uma garrafa de água
derramo água no copo
torno a pôr a garrafa na geladeira
fecho porta dela
levo à boca o copo
bebo todo direto
vou ao banheiro
tiro a roupa
entro no chuveiro
abro a torneira
passo sabão pelo corpo
entro na ducha
me lavo
saio
me enxugo
coloco roupa limpa
vou para o sofá
sento
penso
enquanto seu lobo não vem
pego uma revista de arte
confiro uns artigos
me recosto no travesseiro
meus olhos vão se fechando
o pensamento divaga
eu me acalmo
tudo escurece
uma manhã nasce na floresta
eu ajeito os meus pelos
minha bôca está faminta
meu rabo balança
as garras afiadas
ali está uma casa pequena na clareira
sai fumaça da chaminé
e uma menina se aproxima pela trilha ensombreada
leva uma cesta na mão
ela está alegre
mas eu sou mais rápido
eu pulo pela janela
alguém lá dentro se assusta
eu uivo
a pessoa parece comigo
me olha curiosa e sorri
e me diz satisfeita
tranquila
porque demoraste tanto?
ilustração para O Chapéuzinho Vermelho de Gustave Doré
quarta-feira, 28 de abril de 2010
A premonição e a verdade
foto -arquivo megacidades
ônibus 415 - Usina-Leblon
Um dia, lá pelas sete da noite, depois de um dia cheio, já cansado,
parei num ponto de ônibus solitário em Ipanema, na altura da
Praça da Paz.
Fiz sinal à um ônibus, que me pareceu que me convinha, o qual
parou de imediato. Ao segurar no corrimão, do lado de fora do
ônibus - o 415, chamado de Usina/Leblon, pretendendo tomá-lo
para ir para casa no começo do Leblon, que é uma distância
relativamente próxima de onde me situava então, senti uma
súbita enxaqueca - uma compressão enjoativa dentro do meu
crânio, que vinha da nuca, contornando a cabeça, até a
minha fronte acima dos olhos.
Acompanhando essa sensação muito desagradável, uma ideia
me surgiu,de repente, em minha mente como uma realidade
concreta - a de que ia ser assaltado. Acreditei sem raciocinar
e hesitei em tomar aquele ônibus, temendo que ali se encontrasse
o possível assaltante. Mas, como sou formado em psiquiatria,
apesar de não exercê-la, me auto critiquei me chamando de
paranóico e delirante e coisas afins.
Entrei no ônibus meio cabreiro, porque aquela ideia não me
abandonava e me sentei num lugar no meio do ônibus.
Para mim aquele acontecimento, seria um momento, conquanto
apavorante e horrendo, como a dor que não me largava, mas
com certeza inesquecível, porque eu jamais havia sido
assaltado antes em minhas dezenas de anos vividos, pelas graças
de Deus e de todos os santos.
Mas, diante da perspectiva tenebrosa que me aguardava,
conforme os presságios que me atingiram, constatei, para meu
alívio, que o ônibus se encontrava praticamente vazio, só sendo
usado por uma velhinha que se sentava lá na frente.
Ri de mim mesmo e de como eu, tão bem assessorado por
meus anos de estudo superior e trabalho em uma área
especializada em coisas desse tipo, podia cair em tal cilada.
Tive vergonha de que eu, um dia, me dispusesse a contar
para alguém tal maluquice.
Entretanto, duas coisas não me abandonavam : - a ideia
obsessiva de que ia ser assaltado e a tal da torturante
cefaléia.
O ônibus avançava pela rua desocupada de maneira vertiginosa,
não parando em nenhum ponto de ônibus, mesmo porque não
havia nenhum passageiro querendo pegar um ônibus que já se
dirigia para seu ponto final de parada e que ficava bem próximo
dali, portanto de uso inútil para a esmagadora maioria do povo.
E assim foi, ele disparou através do trânsito pegando todos os
sinais abertos, até que virou na rua em que havia seu ponto final,
meu objetivo também, visto que morava algumas dezenas de metros
adiante. Então parou - pegara um sinal fechado.
Meu prédio - eu morava na época com os meus pais na época,
depois de uma fase difícil onde o apartamento que eu alugara
desabara com tudo o que tinha dentro - era um apartamento grande
e claro, bem situado, de classe média alta, num terreno apossado
pelos militares da ditadura, o governo da época, e com uma vista
cinematográfica para toda Lagoa, para o Cristo, além de ver o mar
e toda Ipanema - um lugar privilegiado por seu visual, chamado
de Selva de Pedra, por causa de uma novela de sucesso daqueles
tempos. Tinha sido adquirido graças, eu diria, ao esforço
sobrehumano de meu pai e a força de um tio meu que era
militar na época.
E o ponto de ônibus era logo ali pertinho.
Vista da janela da sala do apartamento dos meus pais
Porém, o ônibus havia parado no sinal exatamente antes do
quarteirão final e, para meu espanto, abriu as portas e
deixou subir pela frente, para não pagar passagem,
uma galera que identifiquei de imediato como sendo uma
"tchurma" da Cruzada de São Sebastião, isto é, dos prédios
construídos num terreno público, que na época havia sido uma
favela às bordas da lagoa, chamada Praia do Pinto, que
perpetuava desde suas reminiscências a existência de um
refúgio dos escravos fugitivos no século dezenove, chamado
de Quilombo do Leblon, que se transformara numa favela,
perto da Chácara do Céu, que depois havia sido removida
para ali, para se vender os terrenos.
Com a vinda dos nordestinos, crescera se estendendo pelas
beiras da Lagoa Rodrigo de Freitas, transformando tudo
num esgoto fétido e contaminado.
foto Arquivo Nacional - reprodução
Favela da Praia do Pinto
Essa favela se incendiara em 1969, levantando um clamor nacional,
pois se suspeitara que o próprio governador e sua assessora
haviam tramado para erradicar aquele núcleo de favelado de
uma área perto de uma área de classe média alta e rica, porque
não foi a única favela a se incendiar naquela época, de maneira
muito parecida.
Registro do incêndio da Favela da Praia do Pinto
O terreno que vagara, daquela comunidade carbonizada e expulsa,
fora tomado pelo exército que ali resolveu construir prédios civis
de moradia para os próprios militares - isso no inicio, mas, depois,
é lógico que não fora bem assim - com o passar das décadas tudo
muda de mãos .
foto Arquivo Nacional reprodução
Cruzada de São Sebastião
Porém, a Cruzada havia sido erguida antes desse incêndio e
dessa época, sobrevivendo à este, por ser uma série de prédios
modestos e sem acabamento de seis andares de cimento e
tijolos e não barracos miseráveis de pau à pique como todo
o resto, sendo executados com dinheiro da paróquia por um
bispo muito poderoso e de tendências claramente socialistas
e democráticas, Dom Hélder Câmara, ao qual sempre admirei
por sua coragem e desprendimento.
Por um acaso, ficava logo ali, pertinho do ponto final e, é claro,
também próximo da minha casa.
Eu procuro não ser preconceituoso, mas diante das
circunstâncias, eu pensei de imediato que, se houvesse
alguém para me assaltar, teria que ser logicamente alguém
daquele bando - não me via sendo assaltado por uma
velhinha de setenta anos, obviamente.
Me levantei carregando um saco plástico amarelo de
supermercado em que eu levava duas fitas cassetes,
uma gravada com um concerto de Bach para Piano e
orquestra, e outro com uma coletânea de canções de
João Gilberto, também uma nova edição de um livro
que acabara de comprar e que há muito procurava
- A Fugitiva de Marcel Proust, além de um uniforme
de ginástica, com camiseta e short novos em folha, também
récem adquiridos com etiquetas e tudo.
Passei por eles, que não me olharam diretamente, porque
conversavam com o trocador, que devia conhece-los, e
esperei o ônibus chegar no ponto final.
A fugitiva de Marcel Proust
na edição que eu procurava
Concertos para piano e
orquestra de nºs de 1-5&7
com Leonard Bernstein- solo
o ônibus rapidamente parou em frente do ponto, que se encontrava
lotado de gente que voltava do trabalho, principalmente senhoras
carregando bolsas e embrulhos e meninas que deviam ser
domésticas diaristas cansadas e loucas para chegar em casa,
depois de limpar, cozinhar e aturar as frescuras das madames
e dos seus filhos mimados e insuportáveis.

Desci as escadas pensando que, se alguém ali poderia ser assaltado,
era, infelizmente, alguma daquelas mulheres do ponto final,
dando sopa com as suas bolsas e trouxas de roupas, e sem nenhum
macho valentão presente para protegê-las desse safado mundo
cão. É necessário acrescentar que, aquela área, era em frente
à décima quarta delegacia de polícia, que poderia ser vigiada
de lá apenas com um lançar de olhos por qualquer policial,
de tão próxima que era.
Embora a dor de cabeça não me largasse nem um segundo,
depois daqueles, praticamente, quase cinco minutos que o
ônibus demorou para me trazer de onde me encontrava até
ali, parei na porta do ônibus, em frente à fila que aguardava
no ponto para entrar no ônibus, olhando todo mundo nos
olhos e atravessei para o outro lado da rua, observando às
minhas costas, cautelosamente, se alguém não me seguia,
num comportamento totalmente persecutório, isto é, de
quem se sente perseguido - mas, a rua estava vazia.
Do outro lado, um pouco mais adiante, tornei a olhar para
trás, tentando ver se alguém me seguira, o que verifiquei
que realmente não acontecera, pois para trás a calçada
estava deserta, iluminada apenas pelos esparsos postes de luz.
E foi só neste instante, que me acalmei e relaxei, passando a
ansiar apenas chegar em casa para tomar um analgésico e
me distrair de tudo vendo televisão, como eu merecia,
depois daquilo tudo.
Pensei nos telefonemas que havia de dar, quantas calorias
poderia digerir para não engordar e todas as coisas que
comumente penso antes de chegar em casa, já satisfeito de
que aquela ideia maluca não tinha se realizado, e pensei que
a minha carteira possuía ainda algum dinheiro, mais quarenta
dólares, que não precisei trocar para reais, e que fora o que
sobrara das compras que fizera.
Foi quando senti, algo subitamente, como uma mão dando
um tapa em minhas nádegas, me alisando a minha perna
direita, desde dos bolsos até as meias.
À princípio, achei que pudesse ser uma brincadeira sem
graça de algum amigo, ou mesmo o gesto desavergonhado
de algum tarado da noite. Parei e olhei assustado para
baixo e me surpreendi em flagrar uma mão audaciosa dentro
das minhas meias, as vistoriando, como se quisesse achar
algo que eu ali tivesse ocultado.
Então, senti uma pontada gélida e real no meu pescoço.
Foi quando ouvi uma voz baixa, sussurrando em meus ouvidos,
que se eu me mexesse eu morria, que ele ia me apagar, e que o
que eu tinha comigo não era mais meu, e sim dele, agora, e que
eu devia entregar tudo pra ele, se quisesse sair dali numa boa,
sem me arrepender de ter feito alguma bobagem e me dar mal.
Levantei meus olhos em direção a voz que em sussurrava
em meu ouvido e vi, paralisado, que era um daqueles
rapazes do ônibus que me seguira de algum modo a que
eu não percebesse, talvez pelo outro lado da rua, e ali
estava, me espetando a jugular do meu pescoço com um
finíssimo estoque, como uma agulha de tricô enorme de
aço, feita de um vergalhão de ferro, afiada como uma faca
e que brilhava sinistramente no escuro.
Seu rosto de pele escura, os olhos esgazeados e negros, o tufo
despenteado de cabelos ásperos e selvagens meio coberto pelo
capuz cinza de sua jaqueta de malha, eram iluminados pela luzes
de néon dos postes da rua, parecendo aumentar a expressão de
filme de terror. Formava em sua expressão, como uma máscara
do que se estereotipa o que seja um demônio, coroado por sua
bôca com dentes proeminentes e afastados no meio, um espaço
negro e vago entre os dois incisivos, como se ali, naquela cara,
como a de semblante de um vampiro horripilante que estivesse
pronto a morder e sugar a sua vítima, houvesse sido
materializada a anormalidade e o vazio furioso e disforme
de seu caráter.
Não ousei mexer um músculo sequer e entreguei tudo como
ele queria, pois sabia que a melhor forma de manter algum
controle sobre a situação era não reagindo, como toda
pessoa sensata faz, e evitando que ele exercesse sua
violência prestes a surgir, mantendo-se bloqueada por
estar sem razões para isso.
O seu capanga, um garotão branco vestido de calça lee e
camisa social listrada e desabotoada, mostrando o seu peito
adornado com um colar dourado com uma figa, pegou de
minha mão a sacola, que ainda pensei que pudesse recuperar
depois, pois o que quereria um ser como aqueles de uma fita
de Bach ou João Gilberto? Poderia ele ter alguma fruição do
livro de Proust? O uniforme de ginástica serviria para ele, que
claramente não vestia o mesmo manequim que eu, sendo
magérrimo e bem alto? Bom, talvez ele tentasse os vender mais
tarde para algum erudito mambembe, se é que isso existe.
Eu tremia todo, como se alguma descarga anômala e
arritmica se deslocasse por mim, como uma onda gélida
e horripilante provocada por imagens fantasmagóricas que
me assombrassem e não figuras reais em carne e osso,
materializadas naqueles dois marginais e infelizes criaturas
que exerciam ali seus crimes, diretamente em cima de mim.
Não podia também acreditar que eu tivera, intuíra, uma
premonição, um pensamento que denunciava um acontecimento
futuro e que este se materializara dramaticamente, magicamente,
para mim e que ainda não sabia qual seria e como seria o fim de
tal desventura medonha, pois o pensamento só me avisava do
acontecimento e não do desfecho.
Mas não durou muito tempo. Logo, ele pediu para que
eu vazasse dali devagar, sem olhar para trás nem naquele
instante, nem depois, e nem uma vez só, porque aí as coisas
iam ficar pretas para mim, ameaçou - o que, é claro, eu fiz
sem vacilar. Pensei que talvez pudessem me acertar pelas
costas, para garantia deles, mas não tinha nada a perder,
não poderia lutar contra dois caras armados e mal intencionados.
Caminhei calmo e lentamente para o meu prédio e não
acreditei quando atravessei a portaria, como se nada tivesse
acontecido e peguei o elevador para o oitavo andar, minha casa.
O lugar exato do assalto na Av.Afrânio de Mello Franco
Quando cheguei lá, mal eu bati a porta, já me telefonavam da
Cruzada, conforme a voz se identificou, que achara meu
telefone em minha carteira e se prontificava a me entrega-la,
sem o dinheiro, claro, mas com todos os documentos, isto é,
se eu fosse lá, naquela hora da noite, buscar. O convenci, então,
de a entregar na portaria do meu prédio, pois o forçara a
acreditar que fôra agredido e que estava um pouco
machucado e que não conseguiria chega até lá - é lógico
que eu não me predispunha a ser assaltado novamente num
lugar tão suspeito e temível quanto dentro da Cruzada
aquela hora da noite. Ele afirmou que me entregaria, porque
havia ainda pessoas legais na Cruzada, e que ele era uma
delas, e assim foi. Depois de algum tempo o porteiro me
interfonou dizendo que alguém me procurava na portaria.
Eu desci com o meu pai, deixando prevenida a minha mãe e a
empregada e com o telefone da policia, pedindo à elas que
vigiassem da janela, para que se algo suspeito ou inesperado
acontecesse, ligassem para a policia imediatamente.
Na portaria, do lado de fora, me aguardava um jovem mulato
de aspecto humilde, circundado pelos porteiros e garagistas,
que já sabiam da história. Ele me cumprimentou e começou
um discurso que eu entendia que era, lógico, um pedido de
dinheiro em troca da carteira.
Mas, afinal, ele acabou me entregando a carteira sem problemas,
se justificando, dizendo que encontrara a carteira na rua, que
poderia ter pedido algum dinheiro para devolvê-la, como eu
pensei que ele já fizera. Eu retruquei que todo dinheiro se
havia ido com o assalto e por isso não poderia gratificá-lo,
pois sabia se tratar de um segundo golpe para me tirar mais
dinheiro, que eu já previra.
Contudo, não sei porque razão, não sei se a presença dos
porteiros com telefone na mão, e a presença do meu pai,
o impediu de algum ato violento, ou se, como ele falava,
era mesmo uma pessoa legal da Cruzada. Ele me
entregou a carteira, repetindo o mesmo discurso de estar
entre as pessoas legais do seu lugar e foi se embora.
O episódio terminava sua fase real, para entrar na fase de suas
consequências psiquícas e existenciais, porque então as perguntas,
questões de ordem transcendentais e afins, começaram a pipocar
em minha mente sem que eu pudesse controlar, pois realmente não
aceitava o acaso - que por acaso tive dor de cabeça, que por
acaso na hora exata da dor de cabeça viera aquele pensamento
obsessivo e que por acaso o pensamento se realizara quase
cinco minutos depois em outro bairro. O irreal se transformara
em real, entenda-se numa verdade e isso transtornava toda a
noção do que eu tinha do que é uma verdade. A ciência é o
estudo do real, mas como entender que esse real pudesse
ser previsível por intuição?
A intuição existe, a ciência, a psiquiatria, a psicanálise aceitam ,
mas não explicam muito exatamente como se dá. Como isso
realmente acontece? Existem teorias, mas nenhuma
comprovada ainda.
Intuição é uma palavra derivada do latim - o verbo intuire que
significa "olhar atentamente". Alguns psiquiatras, vindos de uma
origem yunguiana, acham que pode ser uma análise da
intermediação do inconsciente do lado esquerdo do
cérebro, racional e objetivo, com o do lado direito, sensitivo
e subjetivo. Daí a apropriação do verbo em latim que faz uma
espécie de tradução da sensação.
Mas, quanto à mim, não acho que eu olhei, ou melhor
"olhei atentamente" com o meu inconsciente algo que poderia
analisar de qualquer forma possível. Eu não tinha um
pensamento como " eu acho que" , mas uma idéia como
uma certeza absoluta!
Tudo muito estranho! Haveria algum modo de evitar o intuído,
ou eu estava marcado para que ele acontecesse comigo?
Adiantaria passar o tempo em alguma loja, folheando um
livro, ou visitar algum amigo, como cheguei a pensar no
ônibus, o qual por certo riria dos meus temores, ainda por
cima vindo de alguém de minha formação, para despistar
ou mesmo desfazer o que aconteceria?
Adiaria o desfecho fatal ? E se eu evitasse realmente, como
poderia saber que havia fundamento naqueles sintomas
absurdos?
Haveria alguma função para o metafísico que nos transcende
me avisar? Existiria o metafísico? Onde perceber o limite do
que é crível por ser uma verdade que existe de uma
subjetiva e de origem indiscernível?
De que adiantaria saber alguma coisa?
Pois, de nada adiantou a ciência do fato, pois não o
consegui evitar, porque talvez fosse mesmo inevitável
- eu seria assaltado mesmo que elocubrasse mil estratégias
para driblá-lo. Essas questões surgiam sem parar, também
de maneira compulsiva. E continuam até hoje! Já cheguei
até a cronometrar o tempo que o ônibus levou até chegar ao
ponto final, para compreender qual tempo exato que tive
antes que aquela intuíção, da única vez em que eu fui
assaltado, se realizasse.
Continuava não aceitando, descrente.
Seria um acaso mesmo?
Como entender o que se passa no cérebro, diante do
que se passou para mim?
Será que previ o futuro distante em quatro minutos antes
que acontecesse?
Seria um produto da velocidade do pensamento, ou das
ondas de energia que eram provocadas por descargas
elétricas como em todo eletroencefalograma constatamos,
que no caso seria mais rápida que a velocidade da luz,
a ponto de fazer ter um pensamento que só dali a cinco minutos
eu poderia ter tido, pensava eu, delirante? Ou só, apenas, um
simples fruto de um fortuito acaso. Para mim, é como o
surgimento de um desses acasos absurdos, que colaboram
para que pensemos que a vida jamais será entendida em
sua plenitude e que para sempre estaremos diante do mistério
insolúvel da estrutura miraculosa do sem fim.
Acho que nunca saberei a solução e sua última consequência
seja, finalmente, a de servir só para escrever este texto,
me exorcizando de vez de ser mais um daqueles em que
a metafísica trouxera a ponta de um fio a ser desenrolado,
para que saísse ileso de um labirinto em que vivia à espreita
o monstro da insanidade, o Minotauro do não saber, o caos
da razão, ou apenas um contato com outra dimensão.
PS:
Na época, não dei queixa à polícia, pois acreditei ser inútil.
Porém, anos depois, identifiquei o assaltante que me ameaçou
com o estoque e com os inesquecíveis dentes separados na
frente, quando me deparei com ele novamente, e também
senti algo parecido com o que havia sentido da outra vez.
Mas, frente à frente à ele, em outra situação pior do que
essa - no famoso sequestro do ônibus 174, que ocorreu
em frente quase da minha casa, aqui no Jardim Botânico.
Ele era o sequestrador conhecido como Sandro.
Soube que dormia, naquela época, na porta de um hospital
perto dali,o Miguel Couto, que nunca matara ninguém, sendo
uma vítima de uma vida terrível e altamente trágica, e que
assaltava pessoas no Leblon para poder sobreviver.
Mas isso já é uma outra história.
foto - O Globo
O tal Sandro no sequestro do ônibus 174

Um dia, lá pelas sete da noite, depois de um dia cheio, já cansado,
parei num ponto de ônibus solitário em Ipanema, na altura da
Praça da Paz.
Fiz sinal à um ônibus, que me pareceu que me convinha, o qual
parou de imediato. Ao segurar no corrimão, do lado de fora do
ônibus - o 415, chamado de Usina/Leblon, pretendendo tomá-lo
para ir para casa no começo do Leblon, que é uma distância
relativamente próxima de onde me situava então, senti uma
súbita enxaqueca - uma compressão enjoativa dentro do meu
crânio, que vinha da nuca, contornando a cabeça, até a
minha fronte acima dos olhos.
Acompanhando essa sensação muito desagradável, uma ideia
me surgiu,de repente, em minha mente como uma realidade
concreta - a de que ia ser assaltado. Acreditei sem raciocinar
e hesitei em tomar aquele ônibus, temendo que ali se encontrasse
o possível assaltante. Mas, como sou formado em psiquiatria,
apesar de não exercê-la, me auto critiquei me chamando de
paranóico e delirante e coisas afins.
Entrei no ônibus meio cabreiro, porque aquela ideia não me
abandonava e me sentei num lugar no meio do ônibus.
Para mim aquele acontecimento, seria um momento, conquanto
apavorante e horrendo, como a dor que não me largava, mas
com certeza inesquecível, porque eu jamais havia sido
assaltado antes em minhas dezenas de anos vividos, pelas graças
de Deus e de todos os santos.
Mas, diante da perspectiva tenebrosa que me aguardava,
conforme os presságios que me atingiram, constatei, para meu
alívio, que o ônibus se encontrava praticamente vazio, só sendo
usado por uma velhinha que se sentava lá na frente.
Ri de mim mesmo e de como eu, tão bem assessorado por
meus anos de estudo superior e trabalho em uma área
especializada em coisas desse tipo, podia cair em tal cilada.
Tive vergonha de que eu, um dia, me dispusesse a contar
para alguém tal maluquice.
Entretanto, duas coisas não me abandonavam : - a ideia
obsessiva de que ia ser assaltado e a tal da torturante
cefaléia.
O ônibus avançava pela rua desocupada de maneira vertiginosa,
não parando em nenhum ponto de ônibus, mesmo porque não
havia nenhum passageiro querendo pegar um ônibus que já se
dirigia para seu ponto final de parada e que ficava bem próximo
dali, portanto de uso inútil para a esmagadora maioria do povo.
E assim foi, ele disparou através do trânsito pegando todos os
sinais abertos, até que virou na rua em que havia seu ponto final,
meu objetivo também, visto que morava algumas dezenas de metros
adiante. Então parou - pegara um sinal fechado.
Meu prédio - eu morava na época com os meus pais na época,
depois de uma fase difícil onde o apartamento que eu alugara
desabara com tudo o que tinha dentro - era um apartamento grande
e claro, bem situado, de classe média alta, num terreno apossado
pelos militares da ditadura, o governo da época, e com uma vista
cinematográfica para toda Lagoa, para o Cristo, além de ver o mar
e toda Ipanema - um lugar privilegiado por seu visual, chamado
de Selva de Pedra, por causa de uma novela de sucesso daqueles
tempos. Tinha sido adquirido graças, eu diria, ao esforço
sobrehumano de meu pai e a força de um tio meu que era
militar na época.
E o ponto de ônibus era logo ali pertinho.
Vista da janela da sala do apartamento dos meus pais
Porém, o ônibus havia parado no sinal exatamente antes do
quarteirão final e, para meu espanto, abriu as portas e
deixou subir pela frente, para não pagar passagem,
uma galera que identifiquei de imediato como sendo uma
"tchurma" da Cruzada de São Sebastião, isto é, dos prédios
construídos num terreno público, que na época havia sido uma
favela às bordas da lagoa, chamada Praia do Pinto, que
perpetuava desde suas reminiscências a existência de um
refúgio dos escravos fugitivos no século dezenove, chamado
de Quilombo do Leblon, que se transformara numa favela,
perto da Chácara do Céu, que depois havia sido removida
para ali, para se vender os terrenos.
Com a vinda dos nordestinos, crescera se estendendo pelas
beiras da Lagoa Rodrigo de Freitas, transformando tudo
num esgoto fétido e contaminado.
foto Arquivo Nacional - reprodução
Favela da Praia do Pinto
Essa favela se incendiara em 1969, levantando um clamor nacional,
pois se suspeitara que o próprio governador e sua assessora
haviam tramado para erradicar aquele núcleo de favelado de
uma área perto de uma área de classe média alta e rica, porque
não foi a única favela a se incendiar naquela época, de maneira
muito parecida.
Registro do incêndio da Favela da Praia do Pinto
O terreno que vagara, daquela comunidade carbonizada e expulsa,
fora tomado pelo exército que ali resolveu construir prédios civis
de moradia para os próprios militares - isso no inicio, mas, depois,
é lógico que não fora bem assim - com o passar das décadas tudo
muda de mãos .
foto Arquivo Nacional reprodução
Cruzada de São Sebastião
Porém, a Cruzada havia sido erguida antes desse incêndio e
dessa época, sobrevivendo à este, por ser uma série de prédios
modestos e sem acabamento de seis andares de cimento e
tijolos e não barracos miseráveis de pau à pique como todo
o resto, sendo executados com dinheiro da paróquia por um
bispo muito poderoso e de tendências claramente socialistas
e democráticas, Dom Hélder Câmara, ao qual sempre admirei
por sua coragem e desprendimento.
Por um acaso, ficava logo ali, pertinho do ponto final e, é claro,
também próximo da minha casa.
Eu procuro não ser preconceituoso, mas diante das
circunstâncias, eu pensei de imediato que, se houvesse
alguém para me assaltar, teria que ser logicamente alguém
daquele bando - não me via sendo assaltado por uma
velhinha de setenta anos, obviamente.
Me levantei carregando um saco plástico amarelo de
supermercado em que eu levava duas fitas cassetes,
uma gravada com um concerto de Bach para Piano e
orquestra, e outro com uma coletânea de canções de
João Gilberto, também uma nova edição de um livro
que acabara de comprar e que há muito procurava
- A Fugitiva de Marcel Proust, além de um uniforme
de ginástica, com camiseta e short novos em folha, também
récem adquiridos com etiquetas e tudo.
Passei por eles, que não me olharam diretamente, porque
conversavam com o trocador, que devia conhece-los, e
esperei o ônibus chegar no ponto final.
A fugitiva de Marcel Proust
na edição que eu procurava
Concertos para piano e
orquestra de nºs de 1-5&7
com Leonard Bernstein- solo
O cd fatídico de João Gilberto
o ônibus rapidamente parou em frente do ponto, que se encontrava
lotado de gente que voltava do trabalho, principalmente senhoras
carregando bolsas e embrulhos e meninas que deviam ser
domésticas diaristas cansadas e loucas para chegar em casa,
depois de limpar, cozinhar e aturar as frescuras das madames
e dos seus filhos mimados e insuportáveis.

Interior do ônibus
Desci as escadas pensando que, se alguém ali poderia ser assaltado,
era, infelizmente, alguma daquelas mulheres do ponto final,
dando sopa com as suas bolsas e trouxas de roupas, e sem nenhum
macho valentão presente para protegê-las desse safado mundo
cão. É necessário acrescentar que, aquela área, era em frente
à décima quarta delegacia de polícia, que poderia ser vigiada
de lá apenas com um lançar de olhos por qualquer policial,
de tão próxima que era.
Embora a dor de cabeça não me largasse nem um segundo,
depois daqueles, praticamente, quase cinco minutos que o
ônibus demorou para me trazer de onde me encontrava até
ali, parei na porta do ônibus, em frente à fila que aguardava
no ponto para entrar no ônibus, olhando todo mundo nos
olhos e atravessei para o outro lado da rua, observando às
minhas costas, cautelosamente, se alguém não me seguia,
num comportamento totalmente persecutório, isto é, de
quem se sente perseguido - mas, a rua estava vazia.
Do outro lado, um pouco mais adiante, tornei a olhar para
trás, tentando ver se alguém me seguira, o que verifiquei
que realmente não acontecera, pois para trás a calçada
estava deserta, iluminada apenas pelos esparsos postes de luz.
E foi só neste instante, que me acalmei e relaxei, passando a
ansiar apenas chegar em casa para tomar um analgésico e
me distrair de tudo vendo televisão, como eu merecia,
depois daquilo tudo.
Pensei nos telefonemas que havia de dar, quantas calorias
poderia digerir para não engordar e todas as coisas que
comumente penso antes de chegar em casa, já satisfeito de
que aquela ideia maluca não tinha se realizado, e pensei que
a minha carteira possuía ainda algum dinheiro, mais quarenta
dólares, que não precisei trocar para reais, e que fora o que
sobrara das compras que fizera.
Foi quando senti, algo subitamente, como uma mão dando
um tapa em minhas nádegas, me alisando a minha perna
direita, desde dos bolsos até as meias.
À princípio, achei que pudesse ser uma brincadeira sem
graça de algum amigo, ou mesmo o gesto desavergonhado
de algum tarado da noite. Parei e olhei assustado para
baixo e me surpreendi em flagrar uma mão audaciosa dentro
das minhas meias, as vistoriando, como se quisesse achar
algo que eu ali tivesse ocultado.
Então, senti uma pontada gélida e real no meu pescoço.
Foi quando ouvi uma voz baixa, sussurrando em meus ouvidos,
que se eu me mexesse eu morria, que ele ia me apagar, e que o
que eu tinha comigo não era mais meu, e sim dele, agora, e que
eu devia entregar tudo pra ele, se quisesse sair dali numa boa,
sem me arrepender de ter feito alguma bobagem e me dar mal.
Levantei meus olhos em direção a voz que em sussurrava
em meu ouvido e vi, paralisado, que era um daqueles
rapazes do ônibus que me seguira de algum modo a que
eu não percebesse, talvez pelo outro lado da rua, e ali
estava, me espetando a jugular do meu pescoço com um
finíssimo estoque, como uma agulha de tricô enorme de
aço, feita de um vergalhão de ferro, afiada como uma faca
e que brilhava sinistramente no escuro.
Seu rosto de pele escura, os olhos esgazeados e negros, o tufo
despenteado de cabelos ásperos e selvagens meio coberto pelo
capuz cinza de sua jaqueta de malha, eram iluminados pela luzes
de néon dos postes da rua, parecendo aumentar a expressão de
filme de terror. Formava em sua expressão, como uma máscara
do que se estereotipa o que seja um demônio, coroado por sua
bôca com dentes proeminentes e afastados no meio, um espaço
negro e vago entre os dois incisivos, como se ali, naquela cara,
como a de semblante de um vampiro horripilante que estivesse
pronto a morder e sugar a sua vítima, houvesse sido
materializada a anormalidade e o vazio furioso e disforme
de seu caráter.
Não ousei mexer um músculo sequer e entreguei tudo como
ele queria, pois sabia que a melhor forma de manter algum
controle sobre a situação era não reagindo, como toda
pessoa sensata faz, e evitando que ele exercesse sua
violência prestes a surgir, mantendo-se bloqueada por
estar sem razões para isso.
O seu capanga, um garotão branco vestido de calça lee e
camisa social listrada e desabotoada, mostrando o seu peito
adornado com um colar dourado com uma figa, pegou de
minha mão a sacola, que ainda pensei que pudesse recuperar
depois, pois o que quereria um ser como aqueles de uma fita
de Bach ou João Gilberto? Poderia ele ter alguma fruição do
livro de Proust? O uniforme de ginástica serviria para ele, que
claramente não vestia o mesmo manequim que eu, sendo
magérrimo e bem alto? Bom, talvez ele tentasse os vender mais
tarde para algum erudito mambembe, se é que isso existe.
Eu tremia todo, como se alguma descarga anômala e
arritmica se deslocasse por mim, como uma onda gélida
e horripilante provocada por imagens fantasmagóricas que
me assombrassem e não figuras reais em carne e osso,
materializadas naqueles dois marginais e infelizes criaturas
que exerciam ali seus crimes, diretamente em cima de mim.
Não podia também acreditar que eu tivera, intuíra, uma
premonição, um pensamento que denunciava um acontecimento
futuro e que este se materializara dramaticamente, magicamente,
para mim e que ainda não sabia qual seria e como seria o fim de
tal desventura medonha, pois o pensamento só me avisava do
acontecimento e não do desfecho.
Mas não durou muito tempo. Logo, ele pediu para que
eu vazasse dali devagar, sem olhar para trás nem naquele
instante, nem depois, e nem uma vez só, porque aí as coisas
iam ficar pretas para mim, ameaçou - o que, é claro, eu fiz
sem vacilar. Pensei que talvez pudessem me acertar pelas
costas, para garantia deles, mas não tinha nada a perder,
não poderia lutar contra dois caras armados e mal intencionados.
Caminhei calmo e lentamente para o meu prédio e não
acreditei quando atravessei a portaria, como se nada tivesse
acontecido e peguei o elevador para o oitavo andar, minha casa.
O lugar exato do assalto na Av.Afrânio de Mello Franco
Quando cheguei lá, mal eu bati a porta, já me telefonavam da
Cruzada, conforme a voz se identificou, que achara meu
telefone em minha carteira e se prontificava a me entrega-la,
sem o dinheiro, claro, mas com todos os documentos, isto é,
se eu fosse lá, naquela hora da noite, buscar. O convenci, então,
de a entregar na portaria do meu prédio, pois o forçara a
acreditar que fôra agredido e que estava um pouco
machucado e que não conseguiria chega até lá - é lógico
que eu não me predispunha a ser assaltado novamente num
lugar tão suspeito e temível quanto dentro da Cruzada
aquela hora da noite. Ele afirmou que me entregaria, porque
havia ainda pessoas legais na Cruzada, e que ele era uma
delas, e assim foi. Depois de algum tempo o porteiro me
interfonou dizendo que alguém me procurava na portaria.
Eu desci com o meu pai, deixando prevenida a minha mãe e a
empregada e com o telefone da policia, pedindo à elas que
vigiassem da janela, para que se algo suspeito ou inesperado
acontecesse, ligassem para a policia imediatamente.
Na portaria, do lado de fora, me aguardava um jovem mulato
de aspecto humilde, circundado pelos porteiros e garagistas,
que já sabiam da história. Ele me cumprimentou e começou
um discurso que eu entendia que era, lógico, um pedido de
dinheiro em troca da carteira.
Mas, afinal, ele acabou me entregando a carteira sem problemas,
se justificando, dizendo que encontrara a carteira na rua, que
poderia ter pedido algum dinheiro para devolvê-la, como eu
pensei que ele já fizera. Eu retruquei que todo dinheiro se
havia ido com o assalto e por isso não poderia gratificá-lo,
pois sabia se tratar de um segundo golpe para me tirar mais
dinheiro, que eu já previra.
Contudo, não sei porque razão, não sei se a presença dos
porteiros com telefone na mão, e a presença do meu pai,
o impediu de algum ato violento, ou se, como ele falava,
era mesmo uma pessoa legal da Cruzada. Ele me
entregou a carteira, repetindo o mesmo discurso de estar
entre as pessoas legais do seu lugar e foi se embora.
O episódio terminava sua fase real, para entrar na fase de suas
consequências psiquícas e existenciais, porque então as perguntas,
questões de ordem transcendentais e afins, começaram a pipocar
em minha mente sem que eu pudesse controlar, pois realmente não
aceitava o acaso - que por acaso tive dor de cabeça, que por
acaso na hora exata da dor de cabeça viera aquele pensamento
obsessivo e que por acaso o pensamento se realizara quase
cinco minutos depois em outro bairro. O irreal se transformara
em real, entenda-se numa verdade e isso transtornava toda a
noção do que eu tinha do que é uma verdade. A ciência é o
estudo do real, mas como entender que esse real pudesse
ser previsível por intuição?
A intuição existe, a ciência, a psiquiatria, a psicanálise aceitam ,
mas não explicam muito exatamente como se dá. Como isso
realmente acontece? Existem teorias, mas nenhuma
comprovada ainda.
Intuição é uma palavra derivada do latim - o verbo intuire que
significa "olhar atentamente". Alguns psiquiatras, vindos de uma
origem yunguiana, acham que pode ser uma análise da
intermediação do inconsciente do lado esquerdo do
cérebro, racional e objetivo, com o do lado direito, sensitivo
e subjetivo. Daí a apropriação do verbo em latim que faz uma
espécie de tradução da sensação.
Mas, quanto à mim, não acho que eu olhei, ou melhor
"olhei atentamente" com o meu inconsciente algo que poderia
analisar de qualquer forma possível. Eu não tinha um
pensamento como " eu acho que" , mas uma idéia como
uma certeza absoluta!
Tudo muito estranho! Haveria algum modo de evitar o intuído,
ou eu estava marcado para que ele acontecesse comigo?
Adiantaria passar o tempo em alguma loja, folheando um
livro, ou visitar algum amigo, como cheguei a pensar no
ônibus, o qual por certo riria dos meus temores, ainda por
cima vindo de alguém de minha formação, para despistar
ou mesmo desfazer o que aconteceria?
Adiaria o desfecho fatal ? E se eu evitasse realmente, como
poderia saber que havia fundamento naqueles sintomas
absurdos?
Haveria alguma função para o metafísico que nos transcende
me avisar? Existiria o metafísico? Onde perceber o limite do
que é crível por ser uma verdade que existe de uma
subjetiva e de origem indiscernível?
De que adiantaria saber alguma coisa?
Pois, de nada adiantou a ciência do fato, pois não o
consegui evitar, porque talvez fosse mesmo inevitável
- eu seria assaltado mesmo que elocubrasse mil estratégias
para driblá-lo. Essas questões surgiam sem parar, também
de maneira compulsiva. E continuam até hoje! Já cheguei
até a cronometrar o tempo que o ônibus levou até chegar ao
ponto final, para compreender qual tempo exato que tive
antes que aquela intuíção, da única vez em que eu fui
assaltado, se realizasse.
Continuava não aceitando, descrente.
Seria um acaso mesmo?
Como entender o que se passa no cérebro, diante do
que se passou para mim?
Será que previ o futuro distante em quatro minutos antes
que acontecesse?
Seria um produto da velocidade do pensamento, ou das
ondas de energia que eram provocadas por descargas
elétricas como em todo eletroencefalograma constatamos,
que no caso seria mais rápida que a velocidade da luz,
a ponto de fazer ter um pensamento que só dali a cinco minutos
eu poderia ter tido, pensava eu, delirante? Ou só, apenas, um
simples fruto de um fortuito acaso. Para mim, é como o
surgimento de um desses acasos absurdos, que colaboram
para que pensemos que a vida jamais será entendida em
sua plenitude e que para sempre estaremos diante do mistério
insolúvel da estrutura miraculosa do sem fim.
Acho que nunca saberei a solução e sua última consequência
seja, finalmente, a de servir só para escrever este texto,
me exorcizando de vez de ser mais um daqueles em que
a metafísica trouxera a ponta de um fio a ser desenrolado,
para que saísse ileso de um labirinto em que vivia à espreita
o monstro da insanidade, o Minotauro do não saber, o caos
da razão, ou apenas um contato com outra dimensão.
PS:
Na época, não dei queixa à polícia, pois acreditei ser inútil.
Porém, anos depois, identifiquei o assaltante que me ameaçou
com o estoque e com os inesquecíveis dentes separados na
frente, quando me deparei com ele novamente, e também
senti algo parecido com o que havia sentido da outra vez.
Mas, frente à frente à ele, em outra situação pior do que
essa - no famoso sequestro do ônibus 174, que ocorreu
em frente quase da minha casa, aqui no Jardim Botânico.
Ele era o sequestrador conhecido como Sandro.
Soube que dormia, naquela época, na porta de um hospital
perto dali,o Miguel Couto, que nunca matara ninguém, sendo
uma vítima de uma vida terrível e altamente trágica, e que
assaltava pessoas no Leblon para poder sobreviver.
Mas isso já é uma outra história.
foto - O Globo
O tal Sandro no sequestro do ônibus 174
A poesia
ela pegou o seu livro de poesias, fez uma dedicatória
e deu pra mim
e eu disse que ia lhe responder por escrito
pra quê que eu fui falar isso se nem sou poeta?
pra mim poesia tá por aí
o quanto de poesia passa à vista!
para mim pode ser como passats
fiats
kombis
que rolam pelas avenidas, são os ônibus que trafegam até
os subúrbios, enquanto os pobres mastigam violência,
cospem fogo
ela me encontrou e disse: - você hein! nem um telefonema!
e eu disse: - te escrevo é melhor!
porque? pensava comigo mesmo, como pudesse dar conta
de alguma coisa
penso
penso
abro porta
fecho porta
tranco
abro um jornal
leio
me arrumo
me visto
e saio
abro porta
fecho porta
tranco
e a poesia?
deixo lá sobre o sofá, o seu livro de capa azul, azul
porque não escrevo?
porque a vergonha?
eu sou pretensioso talvez, ou talvez seja nada
tinha quase quarenta naquela época
já fiz de tudo e permaneço como um grão de areia
a lembrar da pedreira daonde eu vim
meu pai é cruz
minha mãe é dia
me criei na praia, não sou nada, sou ar
mas a praia agora é diferente daquela praia que tinha pescador e dois
garotos que iam nas ilhas Cagarras, logo ali em frente, mas muito
quilômetros mar adentro, remando numa frágil canoa de madeira
e voltavam com cocos, com conchas, estômago e músculos
estourando, vibrantes, felizes a se esculpirem em bronze e
mostrando tudo que haviam trazido de lá de longe, das ilhas
ondulantes que víamos como parte de um cenário de nossos
mergulhos diários, até o dia que a noite chegou e nada de conchas
ou cocos
foto de Marc Ferrez
foi uma noite triste
foi mesmo, mesmo para quem não entendeu as
luzes na areia que sinalizavam pelo negrume da praia à procura
de alguma resposta ao longe
e de nada adianta lembrar-se , foi-se
silêncio no horizonte
neste momento, a areia está quente, o sol no meu rosto,
todo o céu azul, azul
um pivete luta na praia com um rapaz, logo vem a sua turma
e a do outro também
as cadeiras voam
também as barracas
os sanduiches e as cervejas
a gritaria
tudo vai pelos ares
eu estou bem longe a imaginar quando virá a onda
o macaréu
o maremoto que vai afogar a cor
vai quebrar as vidraças
arrancar as pedras portuguesas das calçadas
e deixa-las pra lá do pantanal e da minha passividade
será a onda espumante, negra, conquistadora que irá transformar
a mata atlântica e arrancar os espinhos da minha carne
absolvição
poesia
e me deixo levar nessa correnteza sem ver que, em algum lugar
do mundo
um negro atravessa a Quinta Avenida e conserta, sobre o seu
nariz, o óculos brilhante e verde
uma mão lanhada retira um peixe arfante, amarelo e oleoso do
rio Javari
um ator enforca a atriz numa cena percebendo o quanto
ele a amará na cena seguinte
abre-se um olho irrigado de vermelho e pinga-se quatro gotas
de Lacril até que a irritação desapareça
um pastor prega que de embriaguez e de dor te encherás
do calix de tua irmã Samaria
um quadrúpede empaca diante do ônibus cheio de gente
e zunzum dos insetos
um tapete mágico sobrevoa as torres das refinarias
incendiadas por foguetes terra terra
uma mulher, como uma santa, se veste de palhaço e atua nos
hospitais, para fazer graça para crianças enfermas e salva-las
da tristeza, ajudando a cura-las, por amor e por alegria e depois
escala o Kilimanjaro para poder entender o que é o desafio
de sentir o céu fora de si
um artista cria um mundo no papel, sabendo que nada é
impossível, mas que tem a sua hora de existir e para
refletindo e enxergando um mundo que chegará algum dia
um mulato de morro penetra a sua nega mordendo seus braços
de deusa Shiva
uma mulata sacode os peitos, encobreia, aperta e quase engole
todo o seu Ulisses
alguém coloca gasolina no seu tanque, sem sentir que os vapores
do combustível são um perigo terrível e ameaça a explodir tudo
pois alguém fuma ali por perto
duas drosophilas se acasalam numa retorta transparente acoplada
a um contador Geiger à 0 graus centígrados
a íris azul, azul de Brad Pitt espelha os refletores, iluminando
um abismo sobre o Colorado
o corpo de uma mulher de meia idade é encontrado semidespido
desfigurado, cheio de moscas, enquanto o investigador desconfia
do seu marido de pouca idade
em algum lugar do mundo existem Das Dores, Franks, Brendas
Severinos, Freds, Lulas, Marias,Maries, Marys, Marischens
Maricotas, Dortemunds, Elinaldos e Socorros que nascem
crescem, se acasalam, procriam e morrem como gado
em algum lugar do mundo
tudo que possa acontecer é apenas
um movimento descartado, que passa por meus olhos e deixo
escapar, porque não faz parte dessa longa cerimonia elétrica
que são os meus sentidos, a minha percepção descuidada
porque penso nessa bobagem que é a onda exterminadora
deusa dos surfistas, e prefiro me voltar aos pensamentos
da minha juventude, diante da impossibilidade de resolver o
assunto poesia
Deus deixa rastros na areia como as vírgulas nas poesias
reticentes
espaçadas
silenciosas
e eu preciso ouvir uma voz só
mas que me complete em pura criação
em azul, azul
absurda
poesia
domingo, 25 de abril de 2010
Ponto de interrogação
para esse triste
mundo vão
à
mim
só existes
e
basta!
és
como
ponto de
interrogação
se
me
apela a
tristeza
como choro
de criança
soa
se
me
traz a
alegria
és como
fonte de
água
boa
sendo
assim
sou
o que me
trazes
e
de mim
levas
mais que
desvarios fugazes
saio
do espaço
em trevas
na luz
que tudo
me ensina
me ensina
e
é
tão
claro
e simples
pois
apenas sigo
passo à passo
só imaginando
e imaginando
e imaginando
como
mesmo tu
sempre
fazes
Azul,azul,azul
Pobre escada azul
me ergueste até o céu
e me guardaste
em tua névoa de astros
e numa escura noite
a tua ausência
me deixaste
como presença errônea
Triste porta azul
já que
nunca
esperava
que ali
contida a se debater
tanta delicadeza
frágil ira
e uma infância em abandono
densa penumbra
trancava a certa ida
foto de Parke Harrison
Enganosa sombra azul
pensei que iluminavas
o desregro do meu andar
negro minuto
infinito
meu corpo
palavras
imagem a desenhar
Impossível amor azul
dormiste inconstante e dali
talvez não acordes mais
para mim o céu
em que eu um dia vi
belo e eterno
cérebro e celeste
em seu piscar
um anjo
ou mosca azul
sobre um cais
a minha existência é finda
é mudo desastre
não mais acordar
ah dor
como sofro!
inútil
o
te amo demais
porque além do azul
encontrastes novos tons
novo matiz
nova cor
e deixastes de flutuar
não transcendes
e não tinges mais o céu
ou o mar
sábado, 24 de abril de 2010
Arapuca
grafite de rua
não há mais telas mais
não há mais grupos mais
não há mais rimas mais
não há mais temas mais
não há mais eterno mais
não há mais experiências mais
não há mais utopias mais
mais, mais e mais
a menina anda de patinete
o açougue fecha as portas
os moleques na internet
nos cinemas os mesmos refrigerantes
as mesmas pipocas
as mesmas tortas
eu não te olho mas te quero
eu não te vejo mas existes
eu não te enxergo mas pondero
eu não contemplo resumistes
apenas sou em mim
apenas sou eu só em mim
apenas eu sou só por mim
apenas eu me deixo em mim
eu e o só pra mim
o rápido é assim
o outro é chato
o outro é cilada
o outro é falso
o outro não me entende
o outro não compreendo
o outro, pra quê?
o outro não está afim
o outro tá lá na China
e a China não é só Pequim
mas se o outro também é gozo
esse gozo está também em mim
onde está a chave dessa arapuca
como resolvo essa porcaria
e pra onde vou no fim?
grafite de rua
não há mais telas mais
não há mais grupos mais
não há mais rimas mais
não há mais temas mais
não há mais eterno mais
não há mais experiências mais
não há mais utopias mais
mais, mais e mais
a menina anda de patinete
o açougue fecha as portas
os moleques na internet
nos cinemas os mesmos refrigerantes
as mesmas pipocas
as mesmas tortas
eu não te olho mas te quero
eu não te vejo mas existes
eu não te enxergo mas pondero
eu não contemplo resumistes
apenas sou em mim
apenas sou eu só em mim
apenas eu sou só por mim
apenas eu me deixo em mim
eu e o só pra mim
o rápido é assim
o outro é chato
o outro é cilada
o outro é falso
o outro não me entende
o outro não compreendo
o outro, pra quê?
o outro não está afim
o outro tá lá na China
e a China não é só Pequim
mas se o outro também é gozo
esse gozo está também em mim
onde está a chave dessa arapuca
como resolvo essa porcaria
e pra onde vou no fim?
grafite de rua
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Os leões se movem
pata atrás de pata
o silencioso movimento dos leões
omoplatas
sobem
e descem
sobre um capinzal
a crescer
apontam o branco céu
o claro teto
do meu quarto
que vejo por cima
de meu lençol
copulam feras no quintal
mas nem um quinto
do que os meus olhos vêem
captam todo o real
existe uma selva atrás das paredes
sob os tijolos
dessa casa comum
A caneta arranha o papel
unhas doces
fluxo trepidante e cru
mas azul
a poesia é o meu jardim
zoológico
onde eu prendo
enjaulo
os meus sentimentos perigosos
porque não sei como os domesticar
Escuto urros no arrebol
ou um balido de um elefante
a selva apavora minhas letras
doma o corpo a plenitude
do esbarrar nas folhas
amar
é encontrar os limites
de uma jaula invisível
e abrir sua porta
transpô-las, encontrar a natureza, ar puro
um sopro que vai e vem
como um bicho preso
que arranca da carne suspiros
só o impossível
o imaginário
mas sacia-se
lanha
se alimenta
pronto
portas abertas
e as goelas se abrem
bicho solto
devorar sem fim
luta e fome
mas eis que tenho
uma cadeira
um chicote
e a coragem
e a chibata estala no ar
a platéia urra
aplaude
e abro as portas da jaula
o instinto salta
poesia é o meu bestiário
de portões abertos
dali
fogem todos os animais
que só voltam
quando os esqueço meus
dos outros
lembro o cheiro
almíscar
suor
e rugidos
som dos cascos
os silvos
e o que lambe o sangue das avenidas
o rebanho de faróis acesos
o Serengeti moderno
e um símio tímido
só
um homem de jaulas vazias
eu
enquanto ando
farejo
imito a procura dos leões
quero encontrar a presa
animalidade
ser selvagem
feroz
o alimento
a besta enjaulada
o sentimento
em minha alma transparente
só assim saberei
o que me resta de homem
ou de animal
ou de espírito
só assim conhecerei
o que fica dentro de mim
o leão que delimita o anjo
o santo
eu
só amor
eu
a besta
por isso caminho
e não quero falar
a caçada continua
vivo
amo
rujo
terça-feira, 6 de abril de 2010
Meu encontro com o Godzilla
E se eu fosse assim como uma sobremesa de um monstro venusiano?
Eu, esse ser à toa, chinfrim, espantalho lunático, ainda me complico
mais - como posso pensar em tais seres absurdos em minha cabeça
a me devorar ?
Eu me defendo escrevendo compulsivamente qualquer loucura
e penso: - o insano me comove ou será que me faz que me ache, que
eu me descubra?
De que me serve escrever essas coisas?
E a lapiseira corre e continuo a divagar, a lapiseira a correr, girando
os dedos no ar e a apontar para o papel, apontando algo que não vejo
e com o qual me desaponto.
Atravesso as ruas e continuo em minhas divagações mesmo com os
sinais abertos e carros buzinando.
Continuo a pensar em animais gigantes e ameaçadores, bilhetes
lacrados, na última sessão de cinema, nas minhas memórias
malucas, nos megabytes, no correio, nas limonadas, nos flertes na
madrugada, em dinheiro e amores fugidios, no que não existe, no que
não vem e aí,pronto, danou-se, a cabeça passa a doer, explode.
É claro que quando se mexe com verdades, e se estas são
contundentes, é como se abrisse a sessão de uma tortura sem
nenhum ganho prazeroso, pois são reais, machucam de verdade,
e nada posso fazer para apaga-las.
Então, funcionam como um filme de quinta .
Mas é o real, não uma ficção com monstros lunares, marcianos,
ou sejam puros delírios masoquistas.
Mas as verdades não seriam também monstros cósmicos?
Se o planeta Vênus é o planeta do amor e a dor de amor é uma
verdade real, então esta não pode ser um ser venusiano ou um
monstro vindo de Vênus a me devorar e a todo o meu coração,
meus pensamentos, minha sanidade, como um legítimo banquete
venusiano? Ou seria, vindo do planeta em questão, mais válido
um ataque de uma nuvem de cupidos assassinos, disparando
flechas apaixonantes por todos os lados, disseminando uma
praga de paixões virulentas entre todas as pessoas, não
respeitando laços familiares ou questões éticas básicas
como entre pessoas no trabalho, médicos e enfermos nos
hospitais, comandantes e soldados nos quartéis, presidentes
e faxineiras, professoras e vendedores de pipocas e de
goiabada dos recreios, pastores evangélicos e mafiosos,padres
e pecadores infantis, idosos dos asilos e garbosos salvavidas
atléticos ou bombeiros despojados. Já se imaginou a onda de
crimes por ciúme ou inveja, o descalabro que se desencadearia
se tal coisa acontecesse por aqui? Seria o fim do mundo! O fim
por intermédio do amor e de Vênus, transformando toda terra
num bacanal psicótico, numa orgia destrutiva e insalubre. Teria
que provavelmente intervir com meus superpoderes através da
internet, das tvs e rádios, fazer discursos em praças públicas aos
despudorados e salvar um sem número de apaixonados, voando
entre as turbas enlouquecidas e despidas, loucas por só mais
um beijinho!
Acho que estou perdendo em não ser um herói intergaláctico e ter
a minha própria pistola de raios de abater paixões temíveis, aquelas
que surgem babando e pedindo meu coração para estraçalha-lo
por fome de amor .
Acho que tenho que ver mais filmes de guerra nas estrelas e saber
de toda as técnicas, os abrigos de sobrevivência intergaláctica, o
manuseamento de lança raios antimonstros e anticupidos e mais
toda parafernália, em caso de ataque de bicharocos meio grudentos
ou se o Jurassic Park se expandir de Hollywood até aqui.
Que perigo!
E isso pode acontecer! É só comprar o bilhete para uma sessão
de um filme que não agrade ao seu amor e o que estava
adormecido lá dentro se rompe. A imagem familiar bonitinha
que você estava acostumado desaparece e se transforma num
relâmpago, surgindo então:
- tchantchantchantchan... um tiranossaurus rex se movendo para
cinemas lotados e destruindo tudo ao redor, varrendo com a sua
cauda casais de namorados das poltronas, voando pelo ambiente
apagado e dilacerando com as lâminas afiadas dos seus dentes os
decotes, que gotejam saliva e sangue, os espectadores em pânico
que tropeçam atabalhoadamente, uns por cima dos outros, no
desespero de fugir do encontro maligno, tudo isso entre chuvas
de pipocas e copos de cocacola, assobios, gritos histéricos e
mulheres berrando : - eu não disse que filme esse não prestava!
Vai se dormir com isto na cabeça! Não dá para dormir com
um tiranossaurus fazendo café na cozinha e dizendo: - vai dormir,
meu bem! Eu te janto depois!
Todo possível amor é um possível Godzilla ou um bichinho pelúcia!
Cai nessa!
Eu sou mesmo um ser chinfrim, à toa, um palhaço lunático.
Que nada! tudo besteira!
Eu sou assim!
sábado, 3 de abril de 2010
Hoje foi a gota d'água
foto de Boyd Webb
Basta hoje foi a gota d'água.
A coisa pinga, pinga, pinga até que faz uma poça d'água que se torna maior, e maior, e vai, vai, continuando a pingar, e a pingar, aí não era mais uma poça e sim uma inundação com ondas que se arrebentam entre os guardaroupas, as poltronas, carregam as mesinhas e a cama que fica toda encharcada, até que sejam necessários um bote salvavidas para dar conta de tal despautério, por causa daquele pequenino pingo d'agua, que acaba com a paciência de qualquer um e mais parece com uma tortura para lhe arrancar uma verdade no fim - a que não sei dar conta do que me cabe nesta vida!
E, desde que o final não é feliz, não porque eu quizesse assim, a me desabar todas essas mágoas, concluo que foi a bendita sorte. E é a sábia intuição que me fala que foi a maquiavélica senhora que me trouxe esses pingos derradeiros e que me abriu esta chaga sem dó nem piedade. Aliás, o que lhe é peculiar em seu rastro, pois não devemos entender que tudo que essa pessoa faça na vida dos outros fosse apenas trazer uma taça de bom vinho para se brindar numa festa de aniversário onde todos fazem a comemoração de seus anos ao mesmo tempo, no mesmo dia e na mesma hora. Porém, é lógico que há de se louvar o sem número de habitantes deste planeta que vivem sem nenhum temor de ficar sem casa para morar, ou uma cama para dormir que não chova em cima, ou mesmo um pedaço de pão ridículo e mofado que lhe forre o estômago em abandono, em contrações, e sem sorrisos como uma casa de penhores de uma firma sem escrúpulos pronta a lhe tomar esse mesmo pão verde como pagamento de uma dívida que não vai se sanar, nem que ele ganhe na loteria dos afortunados das mãos cheias e dos sorrisos fáceis.
Mas, também há de se contar o parceiro misterioso dessa senhora chamada sorte - o destino, que forma com ela um casal pleno de intenções dúvidosas e segredos que nunca conseguimos desvendar, nem que fossemos sherloques natos, e que, às vezes, servem como anjos lindos e dadivosos, ou, de vez em quando, acho que agindo meio por um tipo de patologia bipolar, como demônio e executor da mesma pessoa em questão, exatamente quando ela pensa que não tem que se preocupar com mais nada em sua vida e que dali em diante os dias serão claros e brilhantes e que em cada esquina encontrará um trevo de quatro folhas vicejando em seu caminho, lhe pedindo para os levar consigo, porque ela era agora a eleita dos deuses e que estes lhe encheriam os cofres de ouro, encontraria a fama e logo o amor de sua vida, e nunca esbanjaria tanta saúde para aproveitar todas as bençãos que, sem dúvida alguma, lhe recairiam sobre a sua afortunada cabeça direto dos céus para transformar a sua vida num paraíso lendário sobre a terra. Mas a sorte e o destino não descansam nunca em sua criatividade de gênios dos resultados infactíveis. Traçam mil passagens e caminhos tortuosos e intrincados, que os indianos chamam sabiamente de karma, impossíveis de se prever ou mesmo de até de entender como alguém pode assim os tramar, tal a inventividade exigida como einsteins das tramas absurdas que nunca poderiam dar certo, mas que se fazem acontecer e funcionam, embora possamos achar no momento que deu errado, para depois nos abismar com os resultados próximos ao milagre divino. Mas que, no entanto, agora, deram para agir contra tudo que eu faça. E tudo que se faz, eles vem e desfazem com um sorriso no rosto, achando que eu sou tolo e nada vou aprender para que eu possa deles me aproveitar, ou mesmo deles me defender. Mas há de se louvar a criatividade, a sutileza que se percebe em cada nuance de suas maquinações sutis e tramóias virtuosas em que constróem a cada passo de suas artimanhas, planejadas milimetricamente em tempo, espaço e teor, como nem um diretor de hollywood poderia orquestrar na mais genial de suas criações, os caminhos mais intrincados, os becos sem saída que temos de driblar para que o filme de nossas vidas continue a passar.
foto de Martin
No entanto, não importa mais para mim as voltas que traçam e seria louco se isso importasse para mim, pois o que me fala agora, de como ficar bem, é o esquecimento de tudo, com olhos bem fechados e para fora do que foi toda essas invenções sem controle ou não, onde só me lembre da fuligem que embaça a minha janela e de uma onda quebrando rasa. Porém, não é um dormir propriamente, pois que não é a fuga ideal para evitar qualquer desgraça, mas sim um voltar à origem com tudo o que me possa me trazer de bom, que me conforta e drena tudo que me alaga, e que leva folhas amarelas até aquele caminho de quem passa sem ainda notar tantas folhas caídas pelo chão, não percebendo que são as próprias folhas que se deixaram cair ali de propósito, transformando toda chaga e desconforto, de quem ali passa, na perfeição do que vem, no exato momento em que as nota, desviando a atenção de si próprios e de sua miséria para beleza quieta do tapete dourado construido por seres que se vão e que deixam ali a sua mensagem humilde e generosa de que, nem por isso tudo que passaram até o fim, deixam de ser belos e gratos à tudo que lhes ocorreu, graças ao destino e sua sorte. E, enquanto quem passa olha agora, distraído e maravilhado, para elas, também não percebe que são, na verdade, a justa causa de se chegar em segurança dessa longa viagem e sem nenhuma ferida mais ou cicatrizes, recuperado em sua vida como se nada tivesse acontecido. E entende-se um sentido fortuito à tudo que aconteceu e que sem todos os acidentes não haveria beleza a deixar por ali, em nosso rastro.
E absorto e meditativo, então, elas me levaram para os sonhos do sem fim, minha origem, completamente alheio ao que se passava comigo, agora percebendo que a inudação passara, e que tudo estava como antes seco e em seu lugar. Foi quando entendi tudo e agradeci ao destino e à sorte por tudo que haviam me causado, por todo meu karma, que ter desventuras é a matéria da criação, mas que talvez estas não o sejam afinal, depois que o percurso acaba, e sim bençãos, ao notarmos tudo no fim da jornada, que o que ganhamos não tem preço, mesmo tendo que pular cada pedra da estrada.
Apocalipse
A Jangada da Medusa- Géricault
Estou aqui nessa jangada cheia de naufrágos, porque tudo que
conheço afundou, aliás, porque sou sobrevivente do apocalipse.
E todo mundo me pergunta :
- Que apocalipse?
Eu digo:
- Do apocalipse que passamos ainda ontem, não se lembra?
Nós estávamos na casa de um amigo, que eu não via há
muito tempo, e tudo começou a desmoronar, a ruir.
As águas do mar, até então pacíficas e sujas, se revoltaram não sei
com quê, e se tornaram limpas e transparentes, mas rebeldes e tão
violentas que passaram por cima de Ipanema e do Leblon,
limparam toda a Lagoa e foram bater aos pés do Cristo que nada
fez, continuando a olhar para o espaço, como se nada existisse,
e o mundo não soçobrasse em pandarecos, talvez para dizer mais
tarde :
- Eu não disse!
E foi o tempo de reunir minhas coisas e meus amigos e minha mãe
e colocar todo mundo nesta jangada feita de uma cama de casal
abandonada e pneus de caminhão, amarrar tudo com cordas
feitas de cortinas rasgadas e rezar a Deus perguntando o porque,
porque, porque tudo em pandarecos, se agora parecia que o
mundo ia acalmar, se agora que tudo parecia ter se recobrado
do seus momentos mais violentos; e que o mundo não pensava
tanto em guerras assim e esse amigo voltou com a sua ex, e eu
não voltei com ninguém, porque assim o destino queria; e a crise
econômica se debelava, o mundo se mobilizava contra a poluição
e os abusos contra os direitos humanos e a Internet.....sim, pode
ser, a Internet, talvez a Internet seja a agora causa desse transtorno
todo, com aqueles sites abusivos, aqueles mentiras que se despejam
se fazendo de verdades, ou aquela falta de tempo para o mundo real
e tudo tendo menos importância que poderia ter; se nunca houvesse
essa ansiedade de teclar para alguém que você nunca viu na vida e
lhe confessar coisas que nunca diria para o seu amigo mais íntimo,
porque saberia que aquela seria a última vez na vida que aquela
pessoa ia lhe ver ou falar, porque vocês não representavam nada
um para o outro, como ninguém representava assim tanto para
qualquer um, porque se perdia como um eco reverberando entre
a montanha e o mais além do infinito e assim por diante!
Essas montanhas que agora desmoronam, como os sonhos
mais altos que qualquer pode ter e não criam uma base com
fundamentos para que esses sonhos cresçam e fiquem azuis e
brilhem para sempre e se multiplique com os votos mais
fervorosos de sucesso de todo mundo.
E agora estamos nós todos aqui, nesta jangada, à espera que alguém
nos reconheça ao longe e venha nos salvar dessas ondas, dessas
ondas vingativas contra os pensamentos do homem, sempre contra
os pensamentos terríveis de alguém, e nos cerca com esse mar fundo
e negro, cheios de peixes famintos, assim como vivíamos cercados
de ganâncias, mesquinharias, bens cada vez mais sofisticados, mais
acessíveis, mas que se quebravam como um cristal delicado e frágil
à menor respiração, ou folêgo descentrado, ou jeito estabanado.
E não adianta virem de novo em perguntar que apocalipse, porque
vou ter que responder de novo, e de novo, que sim somos naufrágos
de um apocalipse, e eu mais ainda, porque não verei você
ao acordar, e não ver você de novo é como se o mundo
tivesse tido um apocalipse e eu desse sonho medonho nunca
mais pudesse acordar. E só você pode me salvar dessa loucura,
porque não sei mais como tirar essa sensação de que o mundo
se foi, de que o mundo não é mais seguro, que todos se afogam
nesse fim de mundo e de que o mundo não é mais sua voz, nem
quando dizia bobagens, porque você não diz sandices, não diz
nada que não seja pertinente, nada que se jogue fora, porque
você dá sentido à tudo e ao mundo. Já eu, não saberei
mais como é chegar em terra firme e dizer - voltei por você!
2012 O fim do mundo - o filme
Estou aqui nessa jangada cheia de naufrágos, porque tudo que
conheço afundou, aliás, porque sou sobrevivente do apocalipse.
E todo mundo me pergunta :
- Que apocalipse?
Eu digo:
- Do apocalipse que passamos ainda ontem, não se lembra?
Nós estávamos na casa de um amigo, que eu não via há
muito tempo, e tudo começou a desmoronar, a ruir.
As águas do mar, até então pacíficas e sujas, se revoltaram não sei
com quê, e se tornaram limpas e transparentes, mas rebeldes e tão
violentas que passaram por cima de Ipanema e do Leblon,
limparam toda a Lagoa e foram bater aos pés do Cristo que nada
fez, continuando a olhar para o espaço, como se nada existisse,
e o mundo não soçobrasse em pandarecos, talvez para dizer mais
tarde :
- Eu não disse!
E foi o tempo de reunir minhas coisas e meus amigos e minha mãe
e colocar todo mundo nesta jangada feita de uma cama de casal
abandonada e pneus de caminhão, amarrar tudo com cordas
feitas de cortinas rasgadas e rezar a Deus perguntando o porque,
porque, porque tudo em pandarecos, se agora parecia que o
mundo ia acalmar, se agora que tudo parecia ter se recobrado
do seus momentos mais violentos; e que o mundo não pensava
tanto em guerras assim e esse amigo voltou com a sua ex, e eu
não voltei com ninguém, porque assim o destino queria; e a crise
econômica se debelava, o mundo se mobilizava contra a poluição
e os abusos contra os direitos humanos e a Internet.....sim, pode
ser, a Internet, talvez a Internet seja a agora causa desse transtorno
todo, com aqueles sites abusivos, aqueles mentiras que se despejam
se fazendo de verdades, ou aquela falta de tempo para o mundo real
e tudo tendo menos importância que poderia ter; se nunca houvesse
essa ansiedade de teclar para alguém que você nunca viu na vida e
lhe confessar coisas que nunca diria para o seu amigo mais íntimo,
porque saberia que aquela seria a última vez na vida que aquela
pessoa ia lhe ver ou falar, porque vocês não representavam nada
um para o outro, como ninguém representava assim tanto para
qualquer um, porque se perdia como um eco reverberando entre
a montanha e o mais além do infinito e assim por diante!
Essas montanhas que agora desmoronam, como os sonhos
mais altos que qualquer pode ter e não criam uma base com
fundamentos para que esses sonhos cresçam e fiquem azuis e
brilhem para sempre e se multiplique com os votos mais
fervorosos de sucesso de todo mundo.
E agora estamos nós todos aqui, nesta jangada, à espera que alguém
nos reconheça ao longe e venha nos salvar dessas ondas, dessas
ondas vingativas contra os pensamentos do homem, sempre contra
os pensamentos terríveis de alguém, e nos cerca com esse mar fundo
e negro, cheios de peixes famintos, assim como vivíamos cercados
de ganâncias, mesquinharias, bens cada vez mais sofisticados, mais
acessíveis, mas que se quebravam como um cristal delicado e frágil
à menor respiração, ou folêgo descentrado, ou jeito estabanado.
E não adianta virem de novo em perguntar que apocalipse, porque
vou ter que responder de novo, e de novo, que sim somos naufrágos
de um apocalipse, e eu mais ainda, porque não verei você
ao acordar, e não ver você de novo é como se o mundo
tivesse tido um apocalipse e eu desse sonho medonho nunca
mais pudesse acordar. E só você pode me salvar dessa loucura,
porque não sei mais como tirar essa sensação de que o mundo
se foi, de que o mundo não é mais seguro, que todos se afogam
nesse fim de mundo e de que o mundo não é mais sua voz, nem
quando dizia bobagens, porque você não diz sandices, não diz
nada que não seja pertinente, nada que se jogue fora, porque
você dá sentido à tudo e ao mundo. Já eu, não saberei
mais como é chegar em terra firme e dizer - voltei por você!
2012 O fim do mundo - o filme
sexta-feira, 2 de abril de 2010
quinta-feira, 1 de abril de 2010
sopro de sabedoria
Às
vezes
a sorte ou o santo
ajudam o que não é praxe
porque há coisas que não se explicam
e a vida não é um sonho perfeito
até que um sentido
seja aceito
ou
eu
um ache
quarta-feira, 31 de março de 2010
No meio da noite
Eu hoje acordei no meio da noite. Mas já era quase dia. E então, dei de cara com meus livros, meus cadernos de projetos, a saudade de minha mãe, a lembrança do já feito, dos braços que já me envolveram, das palavras que me fugiam entre os átomos, interlocuções, monólogos, uma pequena aranha distraída num canto, e com os livros que me cercam empilhados por todos os lados da cama, me enjaulando. Via tudo com os olhos ardendo, estômago grunhindo e aquele animal de olhos redondos e esbugalhados, mas terrivelmente profundos, sentado na beira da cama, ajeitando os seus pelos com os dedos torpes coroados com aquelas unhas curvas e sujas, balbuciando sobre os meus lençóis, a me encarar. Petrifiquei-me.
Logo o identifiquei como a medrosa criatura de corpo escuro e rosto triste, que me conhece desde criança, e que chamo de Minha Incerteza. Ela me questiona em tudo que eu faço, desfaz rabiscos, risca desenhos como se não os aprovasse, apaga desejos, afasta amizades ou mesmo a cordialidade. Contudo, geralmente mansa e contida. E me falou com seus murmúrios fluentes e sua meiga face, a visão tranquila do horror.
- Você hoje sabe! Você sabe! ressurgia a criatura, como que soprando as palavras dentro de minha cabeça com sua voz tremula e sibilante, temerosa.
foto de Bailly Maitregrand Patric
E compreendi de imediato sua cruel indução. Ela saía de sua prisão invisível em minha cabeça, para me dizer que eu "já sabia". Sentei de imediato e ela correu e fugiu para o seu nada incerto e infinito, enquanto me dava conta que esse era o seu jogo com minha consciência - de me fazer saber o que vira na rua, ou à comer, ou em cada segundo da minha vida e que me rememorasse de tudo até então. A sensação inominável de estar ali completo, porém completo de ausências, de faltas, de lacunas, vazios e que talvez jamais me desse conta desse impulso, de preencher esses lapsos, que eu temo, como uma guerra.
- Você está sabendo! Você já sabe! voltava a repetir a criatura insana, ressurgida do entre espaços, abanando a cabeça de cima para baixo numa afirmativa silenciosa e negra.
Ela me queria me ver íntegro com a existência, para que eu entrasse em conflitos internos entre realidades opostas, a do real e a do imaginário, o que eu aprovava e o mundo que execro por sua infinidade de situações de indiferença ao que ocorre em sua volta.
Sabe, sim! Eu sei que sabe! insistia o vulto do espectro asqueroso
- Monstro covarde! gritei no tremulante vazio!
Ele não respondeu não turvando o silêncio. Foi quando me dei conta que eu era o seu alimento. Se fartava de minha ilusão, do meu corpo e imaginação. E o dia prestes a anunciar o seu claro, noite azul. O barulho da cidade, o vizinho e sua música, o arrastar de chinelos, gritos no posto de gasolina, brecadas e o relógio tiquetaqueando em cima da pia discordavam da minha vontade de escapar ao que acontecia. Porém, a mente temia e tremia ante ao embate com aquilo que não podia dar conta. Parecia que tudo me impelia para algo. E, ao observar o quarto, o que acontecera me fez entender e ver a mesa vazia e um papel em branco, me chamando, modesto e faminto, super herói.
- Eu sou tua ausência. Me alimente - disse a folha.
Ideias pularam de imediato, segurei minha lapiseira que escorreu em linhas ligeiras e me fez compreender que ela era a minha borracha de apagar vazios. Desenhei, escrevi, obrei preenchendo todo o branco. Tanta descoberta pela simplicidade do fazer, do existir. Foi com ele que apaguei o monstro de minha mente. Desenhei a chave, passei cadeado completando todo o branco e tranquei a fera em sua própria ausência. O papel cheio de invenções, desenhos, versos, obras, rimas. E uma nova cidade surgiu. Estava livre! A luz da manhã já quase rompia seus segredos. O bicho tinha desaparecido, mas a pergunta danada não saia de minha cabeça - o que poderia saber ? O que eu poderia saber desde sempre? O que eu podia saber? O que sempre esteve comigo? A existência tem um duro preço pelo seu conhecimento, eu sei, e estremeci pela verdade exposta. Contudo os olhos ardiam e fui até a cama. Eu me deitei e me virei para o lado, me ajeitando ao travesseiro macio, pensei no que poderia fazer para que pudesse contribuir para que algo fosse feito por aquilo que não aceitava no mundo. Me torturei em imagens domésticas e indecorosas até que, enfim, implorei auxílio do que eu não sei e do que não imagino sequer e...luzes! Eu soube então: - estava ali à minha frente, e que sempre, realmente, me acompanhara desde que podia me lembrar, como eternamente a gritar que não ignorasse a sua presença - a bendita a Arte que eu expresso, é minha voz, minha resposta. É isso, claro! Eu tinha a resposta! Ela surgira para que eu finalmente me aceitasse e ao meu destino, minha missão. Ali, justo entre dormir e o acordar, viera a solução em que me encontrei pela primeira vez lúcido à meu respeito. Tal força repercutia tão intensamente, que meu eu se tornou em si o natural caminho para a entrega ao que podia chamar de vocação de uma vida e da sua libertação. E então os anjos me vieram ligeiros. Ouviram meu apelo talvez, ou talvez por acaso, ou até mesmo tivessem induzido de propósito a criatura a me infernizar, para que eu me revelasse à mim mesmo, nunca saberei. Entretanto logo me trouxeram a sonolência, me fecharam os olhos, sentaram-se ali onde estava a transparente e transida criatura, agora abençoada pelo que me provocou, e que súbito desaparecera no silêncio à volta, deixando um rastro gelado de suas dúvidas a representar a sua nebulosa ausência. Os anjos pousaram à minha cabeceira, ajeitaram as suas enormes asas sobre a cama, e mesmo que eu ainda não me sentisse merecedor, tocaram com suas harpas e instrumentos de corda, a mais bela harmonia que eu já ouvira, que pronunciava em seu canto que o que na existência está certo é o que te trará a paz . E como uma pedra, então, dormi. O sol nasceu e o dia começou.
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