terça-feira, 9 de março de 2010

O presente


Ela me deu seu livro de poesias e eu disse que eu tinha de lhe responder por escrito, mas com poesias. E ela disse que sim, que estava esperando. Pra quê que eu falei isso, se não era poeta? O quanto de poesia à vista para mim são como os fiats que rolam pelas avenidas, são onibus que trafegam, enquanto os pobres mastigam violência e cospem fogo? Ela me encontrou de novo e disse: - nem um telefonema! E eu disse: - tá bem, eu te escrevo é melhor. Porquê? Abro um jornal, leio, depois o dobro, tiro a roupa, tomo banho, me visto, me arrumo e saio. Abro a porta. Fecho a porta e passo a tranca. Deixo lá o seu livro azul, azul. Porque não escrever? Porque ter vergonha? Eu sou pretencioso e, ao mesmo tempo, também sou nada. Tenho quase quarenta. Já fiz de tudo e permaneço como um grão de areia a lembrar da pedreira de onde vim - meu pai é cruz, minha mãe é dia, me criei na praia, sou como este ar, mas, talvez, com areia, água, sal. Porém, a praia é agora diferente daquela praia que tinha pescador pescando arraias-manteiga e peixes voadores com asas cor de arco-íris, que devolviam ao mar por não serem comestíveis, e dois caras que iam às ilhas Cagarras e voltavam cheio de cocos, de conchas lindas e os músculos estourando - eles iam remando numa canoa colorida de azul e vermelho que ficava largada ali na areia. Até o dia que a noite chegou e nada de garotos, nada de peixes ou conchas e cocos. Foi um dia triste, foi mesmo, mesmo para quem não entendeu as luzes na areia que sinalizavam à noite para o horizonte e esperavam uma resposta ao longe. Eram a suas famílias, pais e mães, irmãos, avós e avôs, amigos e todos que os conheciam e admiravam a esperar em vigília ali na praia de Ipanema. Acenderam fogueiras, usavam lanternas e lamparinas com as quais acenavam, esperançosos, para ninguém. Isso aconteceu se bem me lembro, em frente àquela rua, onde havia uma mansão dos donos de uma rede de lojas chique e do outro lado moravam duas senhoras - mãe idosa e a filha excepcional que sempre observavam vestidas com vestidos de franjas e, às vezes, com uma pena negra e curva na cabeça como duas melindrosas, sobre o muro amarelo do seu jardim cimentado, a olhar as pessoas indo para a praia, ali na Farme de Amoedo. O dia anterior amanhecera com a bandeira vermelha de perigo hasteada no posto oito, houvera uma ressaca daquelas que chegara de surpresa, as ondas cobriam as calçadas e a pista de asfalto e banhavam os pedestres que por ali passavam. Ela começara com uma ventania de madrugada, justo a hora que os rapazes costumavam sair para remar até as ilhas e mergulhar. Não voltaram. O alarme foi dada aos salva-vidas que acionaram uma busca lanchas assim que melhorasse o tempo. A noite baixou e nada. Não parecia a praia alegre e sensual aonde surgiria pouco tempo depois a inspiração para a bossa nova. Várias fogueiras acesas pelos familiares tentavam indicar terra firme aos naufragos. Até a manhã do dia seguinte ninguém foi encontrado. Mais tarde,um corpo foi achado boiando em alto mar e o outro numa praia do Recreio quinze dias depois. Mas, aquele foi um amanhecer triste, nunca me esqueci.E de nada adianta me lembrar, foi-se. Neste momento, a areia está quente, sol em meu rosto e todo o céu está azul, azul. Um pivete luta na praia com um rapaz, logo vem a sua turma e a do outro também. Cadeiras voam, como as barracas, os sanduiches, a gritaria. Socos, rasteiras, palavrões. Tudo voa pelos ares com uma chuva de areia. Os guardas-vidas chegam com outros policiais. Os banhistas correm com as crianças pelos braços. A pancadaria continua com os apitos e tumulto. Eu estou bem longe a imaginar quando virá a onda, o macaréu, o maremoto que vai me afogar em cor. Vai quebrar as vidraças, arrancar as pedras portuguesas e deixa-las pra lá do pantanal e da minha passividade. Será a onda espumante, negra, conquistadora que irá transformar a mata Atlântica e arrancar os espinhos da minha carne. Absolvição. Poesia. E me deixo levar nessa correnteza sem ver que em algum lugar do mundo:

um negro atravessa a quinta avenida

e conserta sobre o nariz seu óculos brilhante e verde;

uma mão lanhada retira um peixe arfante,

amarelo e oleoso do rio Javari;

um ator enforca a atriz numa cena percebendo

o quanto ele a amará na cena seguinte;

abre-se um olho irrigado de vermelho e pinga-se

quatro gotas de Lacril até que a irritação desapareça;

um pastor prega que " de embriaguez e de dor te encherás,

do calix de tua irmã Samaria";

um quadrúpede empaca diante de um onibus cheio

de gente e zum-zum dos insetos;

um tapete mágico sobrevoa as torres das refinarias

incendiadas por foguetes terra-terra;

um mulato de morro penetra a sua nega

mordendo seus braços de deusa Shiva;

uma mulata sacode seus peitos, encobreia,

aperta e quase engole todo o seu Ulisses;

alguém coloca gasolina no tanque sem sentir

que os vapores do combustível são um perigo terrível;

duas drosophillas se acasalam numa retorta transparente

acoplada a um contador Geiger à 0 graus centígrados;

a íris azul, azul do Brad Pitt espelha os refletores

iluminando um abismo sobre o Colorado;

o corpo de uma mulher de meia-idade é encontrado

semi-despido, desfigurado, cheio de moscas, enquanto o

investigador desconfia do seu marido de pouca idade;

em algum lugar do mundo existem Das Dores, Franks,

Brendas, Severinos, Freds, Lulas, Marias, Maries, Marys

Marïschens, Maricotas e Dortemünds e Socorros que nascem

crescem, se acasalam, procriam e morrem como gado;

em algum lugar do mundo, tudo que possa acontecer é um movimento descartado, que passa por meus olhos e deixo escapar, porque não faz parte dessa longa cerimônia elétrica que são os meus sentidos, a minha percepção descuidada, porque penso nessa bobagem que é a onda exterminadora, deusa dos surfistas e prefiro me voltar aos pensamentos da minha juventude diante da impossibilidade de resolver o assunto poesia. Deus deixa rastros na areia como as vírgulas nas poesias: reticentes, espaçadas, silenciosas e eu prefiro ouvir uma voz só, mas que me complete em azul, imensa, sagrada e absurda onda - simples poesia.

dedicada à Rosália Milsztajn

Pra quem escreve versos


Poeta?
Eu não sei o que é ser poeta
se tiver que ser assim
de mostrar estrelas quase quasar
de ser telescópios pra dentro
dos neuronios
de redemoinhos no tempo


se tiver que ser uma noite em rotação
mostrar uma corda esticada
que vem ainda de mais além
ou de uma varanda seca de Benghazi
e que vem de ligar de lá
dois lados de uma dor descontínua
acomodada
ou só dormente e descabida
cravada e esquecida

se tiver que vestir um muro com seu sangue
bem azul de poeta
espelho de sua meta
ou desvio apaixonado desta invivência
e aí
tenha que equilibrar tudo
neste duro azul, tão azul
que prosseguirá bem adiante, pra cima
sem ter que colher das almas dízimo
ou um sorriso desengraçado, dormente

veja bem
o que é ser poeta
tome cuidado, se precavenha
porque se existem estradas azuis e longas
e é você que as pinta assim
para que os homens dela esperem
seu broto
sua felicidade
para todos esses homens que não pedem
para nela andarem ou nela olharem
nem por capricho ou curiosidade
se por ela bate um pouco de sol
ou se já é muito tarde
e não há nada a esperar
saberá porque,talvez

eu saiba melhor o que é ser
um guarda-chuva ou um armário
pois,se abrimos um
para nos isolarmos das diluencias
e depois de usado o guardamos no outro
escondendo da vista contudo
que aquele fora usado
é para que não vejam por ele
que prezamos nossa intimidade
que não é só em nós
que os olhos tem se molhado.

segunda-feira, 8 de março de 2010


Tento não ter medo
tento ser melhor.
tento ser o que desejo
ver os outros, sê-los
senti-los
percorro o mundo
eis o circo das tentações

ali, a velha portuguesa caminha, lengalenga
a calçada lhe mostra o esquecer
depois também a esquece
a saia cansada, passos de criança
desaprende a ser, venta no futuro
é sua alma a fugir
deixa o que foi, simples não-ser
não tenta, o mais lhe escapa
e os passos de miúdo,
o tempo a parar, vai ,vai...


o dono da mercearia confere o relógio
ajeita as frutas, confere tomates
quem lhe comprará as mercadorias?
tentará e sorri
o que sai barato?

o adolescente caminha distraído
pensará só nos esconderijos
ou tenta atrair com seu guerreiro
lutas virtuais, vitórias da ilusão
ou percebe o não visto
sob as roupas, insaciável
olha qualquer volume, se excita

o cérebro não para
mas todos param
o sinal fechou
o sinal verde se abre
a batalha continua
o mundo vence

Já eu tento,tento,tento
nenhum tempo é o meu
nenhuma vitrine me distrai, levito
meus dedos estão cravados
com os ponteiros do relógio
dedo mindinho, seu vizinho
cadê o toucinho que estava aqui?
o tempo comeu
tempo guloso!

Arábica
















Uma pequena e bela mulher deitada
sobre os azulejos
do chão geométrico
de um pátio oriental
é como uma cantárida zunindo
em seu voo ritual

água doce e louca
derramada em pingos
esguicho da fonte
no meio do vendaval

tanto calor
e a bela se ajeita
lentamente
sensualmente desamassa
as dobras invisíveis
de sua cerúlea calça

seu aspecto sedoso e puro
quase imaginário
tem a leveza mágica que comparo
com uma asa, juro
de um animal perigoso e raro

Na verdade
ela mesma é essa mosca
a fêmea que voa até o pensamento
da merenda distraída
e zunindo
pica de desejo embebida
o licor que sua essência oferece
enquanto finge
ser a presa inocente seduzida

E no fulgor e doçura
do ato amoroso
seu poder cresce, delira
até sugar a seiva morna
cara à sua vida
e tudo aquilo
que lhe interessa
a vítima sem se dar conta
dessa traiçoeira investida

Em sete véus envolventes
lança num messalino gemido
o invisível e prazeiroso tecido
em torno do parceiro ardente
como um princípe escolhido
eterno prisioneiro consumido
em uma noite de ardor caliente

Ela
sabe que no fundo
é a pequena e tosca moça
cheirando a sândalo e mirra
isca de voz rouca e gozoso grito
e que um dia
terminará seus voos curtos
pelo amor de um mosquito

Sua beleza irá adornar
outras fontes
ou a imaginação distante
do além-mar ou no Levante
e incendiar a alba
e fantasias perdidas
ou de quem lá as encontre
e as cante

O tempo é areia caída
a carne é doce
mas a digestão é rápida
a mosca lambe as patas
foi-se

Faz calor
a moça borboleteia as mãos
em um pátio de azulejos
só uma nuvem que não
é azul, flutua, passa
vê-se que voa
e uma mosca também
no calor só os insetos não dormem
essa mulher, não está à toa,
essa mulher ,como eu, caça.

Paris,
Isso é um delírio oriental em homenagem
à musica árabe que eu ouvi à tarde.
Cândido Mostero
27/9/1943

sábado, 6 de março de 2010

confissão
















Às vezes
quando escrevo
jogo mesmo o pensamento
para debaixo da mesa
a mão logo desperta
levita, fica acesa
por um espírito volátil
que quase sempre acerta

Transcrevo harmonias que nunca ouvi
descrevo visões, fantasias
mas, exponho cruel minhas tensões
me ponho a nu
metaforizo
e disponho como esteta

Assim
quando tomo consciência
me surpreendo sempre
a olhar tudo retornar ali descrito
os escaninhos que nunca vi
alegria,a estrada que caminho
o grito

e, às vezes
o certo é mesmo o torto
e um ponto o infinito
uma flor se abre de uma ferida
a dúvida que não existo
sem pudor surge o invisível exposto
e perfeitamente descrito

Em cada linha sinuosa ou reta
desenha-se com minúcia
a luz que se faz concreta
tenho diante de mim
o abismo
o puro e o desejo
a minha alma secreta

Poema seco


Uma vez
escondi a emoção no bolso
pus meu pensamento
sobre a lâmina fria da vida
e a deixei em cima da mesa
Aí
tranquei meu coração numa gaveta
e satisfeito
a chamei de fortaleza

Hoje
procuro a chave esquecida
por toda casa umida e lodosa
fria
a vazão secreta de meus olhos
pelos meus anos perdida
pois, meu peito vazio
se inundou de choro e surpresas
fez-se mar
onde vago à nau desabrida

Quando penso em terra seca
sei que o meu coração
lá bate feliz
amplo
cheio de calor e alívio
em sua guarida
morno e repleto na certeza
do que chamo
saudoso e triste da sina
de Beleza

Respirar
o sopro deste mundo
que ao contente surgir
ao fluir
do rompido ventre
o fundo
inunda a existência
com um berro
ao acordar

E tragar
o vento estranho
desse louco ambiente
que de tudo
faz sufoco
me faz rir
me faz doente
de alegre me faz pouco
de sofrer me faz persistente
que um dia vai acabar

Se me perguntam
e isso pra que é?
pra que serve a ladainha?
eu não respondo
essa pergunta é minha
tiro um anel do bolso
balanço os ombros
e digo
é da alegria
ou é da dor
é de quem a vida se casar!

E se insistem
mas, me diga
Pra que serve? Pra que serve?
esse balão que não flutua
não é anjo
não é bicho
nem é carro de corrida
não é boi
nem cacatua
que só me serve
pra grilar

E de lá
só se ouve um eco
pra que serve? pra que serve?
e eu não sei
e se soubesse
não era gente
nem estrela
nem cometa
nem abelha
era só um grito infinito
de um bebê

ao acordar

sexta-feira, 5 de março de 2010

O monstro



Monstro covarde, gritei no vazio! Ele não respondeu, não turvando o silêncio. Foi quando me dei conta que eu era seu alimento, se fartava da minha ilusão, do meu corpo e imaginação. E o dia se anunciou claro. O barulho da cidade, o vizinho e sua música, o arrastar de chinelos, gritos no posto de gasolina, brecadas e o relógio tique-taqueando em cima da pia, tudo isso me fez entender e ver a mesa vazia e um papel branco me chamando, modesto e faminto, super-herói:
- Eu sou tua ausência, me alimente, disse numa voz terrível e cavernosa. Tremendo, pulei da cama atrás de alguma arma que me defendesse. Ideias pularam de imediato em socorro e me fizeram segurar a minha lapiseira que escorreu em linhas ligeiras e me fez compreender que ela era minha borracha de apagar o vazio. Desenhei, escrevi, obrei avidamente, preenchendo todo o branco, contudo sabia que era verdade - aquele monstro habitava o não-existir, o vácuo branco de qualquer coisa, um perigo ameaçador, era a insanidade. Tanta ameaça combatida pela simplicidade do ato de apenas fazer, de apenas existir para matar o animalejo. A lapiseira corria célere, lutando ferozmente contra dentes afiados pela censura e o serralheiro do Não. E assim foi. Com ela consegui apagar o monstro da minha mente. Desenhei uma chave, passei cadeado completando todo o branco e tranquei a fera em sua própria ausência. O papel cheio de invenções, desenhos, versos, obras, rimas e uma nova e vibrante criação surgira. Estava livre, ele morrera, eu triunfara! A luz da manhã brilhava e o dia começou.

A revelação













Sei o que sei e sei o que vi e que se resume numa palavra: mistério! Não é mais que o óbvio, como se alguém aceitasse o óbvio. E posso deixar de ser, de pensar, de sentir, e pode ser difícil, impossível, miserável, mas contudo dentro daquele momento, soube que ali sempre existirei, presente, e como tudo de repente foi resumido ao que não se diz e não é nada do que já foi falado, mas, paradoxalmente, é o que todo mundo já sabe. Deito-me no chão, desabotoo a camisa e diminuo em mim mesmo meu eu. Pois, sei o que sei e sei o que vi. Metafísica. Dádiva, doação. Todo universo não é nada! Me entrego, abraço, beijo. Sou apenas pó. Teu vento me leva e agradeço à Deus, pois sei que tudo valeu à pena e deveria ser assim para todos.

A página apagada





















O que havia escrito aqui já se apagou,

porque seu tempo se foi e já não era a hora,

não merecia o papel que ocupava - não do jeito

que estava- pois frágil fora, frágil desapareceu.

E se reescreveu mais além, agora melhor

executada, aprimorada, bela história,

que aparece nesse instante numa melhor versão.


Triste é o que não se apaga, se precisa de conserto,

 pois, se ruim a construção, seu arcabouço desaba,

deteriora

e tudo se estraga sob esta ação,

todo esforço é jogado fora.

Mas, o que houve aqui, teve sorte e renasceu

na página ao lado.


Quem sabe se os olhos que para ela se transportam

tragam o que se pede à ela: a compreensão do que

se diz e que traga ao enigma o que lhe era fatal,

a palavra-chave que escapou e até agora permanecia

oculta, que dá sentido à todas as letras e ideias,

vírgulas e silêncios que devem ser tão simples e

às claras, pois que era como um pássaro que

estava seguro dentro das mãos que de repente

se abriram, ficando o quente e macio ninho com

o sentido que agora está em mim.


O pássaro sabia, traduzia em seu canto,

 mas voou para sempre.

seu canto, se fez perfeito ali sozinho.

Agora ecoa na floresta, expondo o céu e nos mostra

que o que se foi renasce

e assim nos abre a porta

do mistério apagado.





Ponto cego


Ontem viajei até a linha do que não sei e achei o ponto que não havia, talvez porque ali ele não parasse, visto que a linha é um ponto a se mover, a se mudar, trânsito. E este estava entre o que me lembro e o que esqueci. E não havia sentido que eu entendesse por ele, e esse, se houve, se perdeu por ali, assim no ar, no não-ser. Ir tão longe... e tudo é ainda como se estivesse tão perto, percebo isso o tempo inteiro - o conhecido muda, é movimento, o que já verei, o que já senti, o que já passou. Parece erro, mas é o que é certo desde que os meus olhos abriram e eis a mim há existir! Então, aí feliz notei pelo chão, em dado momento, tantas formigas a correr, correr. Uma à uma a se encontrar e continuar para algum lugar além da linha, atrás do ponto, transponto, translinha, transporte, horizonte. Mas, aquele por ali onde se perdera o ponto com todo o sentido que pudesse haver em um ponto que andava, eu ainda não encontrava como sendo parte das minhas lembranças, não determinava qual seria seu caminho. Como o ponto se perdera? Sei, contudo, que estava feliz de só ali estar e ver as formigas a correr e agradecer que viver é se alimentar de se mover, o universo e o tempo foram feitos assim - da vontade de movimento a criar o espaço em rodopios. E continuei a olha-las até o momento em que apenas podia sentir à mim como uma daquelas formigas e isto já era tudo, como aquele ponto cego na linha do que não sei. Pois, alguém foi generoso ao me parir, alguém me deu esta chance, alguém...me pôs a existir para que eu estivesse ali sem entender, sem lembrar, sem saber, como um cego. Mas, o que importa é se estou ainda a me mover e a observar para perceber que o milagre é ver além do que o ponto cego vê - uma imagem que por certo um dia já percebi, mas que não me lembro, esqueci. Porém, então foi que percebi que ele só voltaria a ter sentido e ser lembrado se sentisse o valor do que já vivi, se eu enxergasse em mim a linha que eu mesmo havia traçado e o valor do que eu aprendi quando a risquei, que às vezes, num universo curvo, tem de se voltar quase ao começo para daí partir para um ponto mais alto antes inatingível. E aí sim, o ponto cego voltaria a enxergar - além do ponto, além de tudo que um dia eu mesmo vi. Transpirei. Sorri perplexo. E foi isso então que escrevi.

Difícil de me levar além do que entendo desse mundo. Os acontecimentos são o que fazem girar a Terra. Terra-berço, Terra-ser, Terra com justiça do será, Terra-sendo, e Terra: eu não entendo nada de você! E se eu não me conforto nessa estrada, nesse esférico caminho? O que me passa na retina, na cabeça-estrondo, nem dá pra pensar enquanto arrasto os pés nas calçadas. Chuto pedras, arranco folhas, olho para cima ou que quer que esteja ali, lá. Meu sentimento é de se chocar contra um muro invisível, uma parede que eu não compreendo. Pra quê isso tudo? Me dói o corpo, machuca o dentro e fico como estupor. Acredito que todos já pensaram nisso em algum momento, esse cliché, esse óbvio-ululante, como Nelson diria. O que me surpreende nisso tudo é pra quê entender? Deixe que apenas seja! Esta lama, esse lodo, essa floresta, rios, segredos, galhos na lama. Não há quem entenda-o completamente, ou apenas seu algo inescrutavel e objetivo. Deixe o ser assim ininteligivel, infindo. Pra quê saber tudo? É possível? De que adiantará? As ondas pararão de se quebrar na praia? As folhas permanecerão para sempre nas árvores? O homem cuidará dos outros homens como de si? Se amarão? Não, não e não! Nada muda, tudo continua louco, incompreensivel. Melhor seria pegar uma cadeira de lona, a barraca, balde, toalha e se sentar na praia. Acho que lá pelo menos os problemas de familia acabavam. Mas, isso que não melhora nada! É de mim não se desfazer do que penso. É de mim querer utopias positivas, que as folhas continuem em seus galhos, que as ondas sejam tranquilas em seu fim, que os homens se entendam, se curem, se queiram, que se encontre uma solução pacífica. Não desisto! Tudo aqui consiste em trabalho! Tudo aqui se consegue com árduo trabalho, sem perda de tempo.
A noite extrema veio, ainda devaneio e planejo. Até que entendo que preciso do pensar claro, descansado, que tudo isso hoje ficará para amanhã. Amanhã! Até lá sonharei em minha própria cama, enquanto permito a escuridão e os pensamentos percorram os desertos intermináveis em caravanas sonâmbulas, até que surja o oásis enfim, e ali, satisfeito, em gozo, se descanse o espírito; e um dia a mais virá, um dia querido, e talvez... quem sabe?

O banquete

quinta-feira, 4 de março de 2010

Antes de dormir



Quão vão escrever o que não ouso dizer! Será que me é possível também senti-lo? A solidão e o oculto me dão coragem de ser o que nunca fui. Contudo, quase não sou agora, mas apenas sinto e por isso não há como negar-me. Vivo e sou entre os pingos da chuva que ouço. Enfrento o medo que sempre tive; cada respiração é o que me entrega. Sou apenas de carne e osso, sentimento. E tenho de me reinventar inteiro e, no inteiro, fazer a vida fluir de novo. Mas, isso, só amanhã quando acordar. Agora posso ser apenas aquele que vai dormir, aquele que apaga a luz, aquele que se cobra e reza por melhores dias, e fecha os olhos, e me deixo ser como um tapete que flutua me levando à Sherazade. Mais uma noite a zunir nos ventos, a lhe adiar o destino, a fábula. Quando durmo esqueço as luzes, os dias somem, fazem de conta que apenas serão amanhã. Agora, sou apenas aquele que não está mais aqui e em algum lugar escolhe as cores, as que não existem, que representarão o tempo do "pra sempre", do Era-uma-vez em lugar nenhum, da quimera. Ressono em paz. Persono. Sinto o céu, apago a Lua. E não sou mais nada. O tapete voa, sonho.

















Aqui estou eu no meu mundo, meu pequeno mundo, aqui onde só há quatro dimensões. Mas, dizem que tantas outras existem. Talvez, eu perceba mais algumas onde habitam cada um dos meus sentimentos

um se deita e fecha os olhos
um imagina o impossível
outro vê o futuro, lê o tempo
mais um pensa em quem falta
outro acarinha essa mesma ausência
um fica com a mãe
um entristece, um urra, um geme
um é louco, um cura, um corre, treme
um teme, um briga, um arremete pelo caminho
um quer ser feliz, delira, sorri

entre eles a televisão passa, comerciais seduzem, personagens riem, amam, falam, conversam no espaço

Me lembro do que eu quero
Me lembro de quem não está
Me lembro de quem não me lembro
Mais, de tudo, eu me lembro
de quem mais não me lembra


Fecho um romance
leio poesia
sou diferente
porque sou comum
existo entre xícaras de café
entre copos d'água, sussurros, risos e ventiladores
enquanto minha lapiseira corre
as linhas acabam
a folha termina
É tanto sentir
Mas, como dizê-lo?

O tempo e o vazio 2



Quantas pinceladas se fazem para surgir uma obra de arte?

Uns dizem dezessete mil, outros de tantos pensamentos quanto um discurso de um filósofo, ou de tantas

palavras quanto um escritor precisa para rabiscar e depois escrever seus livros.


Mas, alguns se armam de uma profunda inspiração, inalando, se possível, todo ar da sala ou do universo,

olham para o alto e decretam em tom messiânico, como só as mais altas divindades pudessem lhe escutar e

lhes entender, que não há pinceladas e não há obra de arte e sim uma infinidades de volutas que atravessam

a mente e o espírito de cada um que pousar seus olhos além, ou seja, através dessa superfície que suporta a

pretensão de meia dúzia de reis que reinam nas barrigas de quem as pintam, até os planos em que se tornam

apenas ideias - puras e simples ideias. O olhar é iludido, enganado, traído, mas ao chegar ao terreno sublime

do ideal, tudo se desfaz, ao contemplar nua, despojada de tudo que lhe fosse supérfluo, a imortal e eterna

Verdade. Os olhos, apenas tolos, enquanto os cérebros, estes sim, privilegiados, alçam seus voos mais altos

para melhores e imortais companhias, as quais fariam do êxtase o leito de sua fartura.

E os olhos espertos então revistam e avaliam as condições financeiras dos fiéis adoradores, que pretendem

pagar o bilhete de viagem para o Parnaso prometido. Sorri.

 E eu?

O que faço?

 Eu só pretendo encher os segundos e esse espaço enorme e branco, esse papel qualquer, essas linhas por

onde o tempo caminha, escorre e desaparece, rindo de mim.



Cotidiano



algumas coisas são como são
os carros não param nas avenidas
tanta gente anda nas ruas
nascem, vivem, morrem

Madalena seca as suas mãos
no avental
olha para o vazio
pensa

e eu nem sei
porque falei nessa Madalena
quem seria Madalena?
quem seria eu?
serei eu como sou eu?

o tempo passa
e de que serve tudo isto?
é como é
não serve
apenas é
outros caminhos não são
são apenas passagem
mudam
transformam
reciclam
vivem a metamorfose
o-seu-des-ser

mas, e o que eu pensei antes?
as coisas são como são
é verdade
é como é
ou é como será?
ou já será como foi?
como se tudo
fosse um único sendo?

sim, uma verdade
eu estou sendo a mim
não há como não ser senão a mim
em sendo eu
eu fui
eu sou
eu serei
como tive ou terei de ser

tudo isso já existe em mim
dentro desse movimento 
o tempo
essa dimensão de ser fluxo
assim como essa tal de Madalena
que nunca vi
sujou e depois lava as mãos
e as guarda no bolso do avental

eu também lavo as minhas
também me sujo
também me lavo
torno a sujar
e torno a me lavar
eternamente
obcessivamente
nunca estamos competamente
desprovidos de algo
que não gostamos

porém
tudo será perdão
pois muda
flui
se transforma
como sempre





e continuando a ser
tudo será o que sempre foi 
transição
mudança
o deixar de ser
o não-ser mais
que já sendo é o que será
que já existe desde o inicio
e temos de mudar
entender o que fizemos
e porque fizemos
aceitar em nós
o que não queremos
e o tempo é como é
não existe mais, passa
somos eternos passageiros
somos tudo isso
e já passou
nada
tudo
como antes






A maripôsa
posa
na Lua
como o profundo que emerge
na mente que flutua
ao mistério do céu oriundo
exposto latifúndio
à criatura voadora

O desejo
é a luz que voa
pelo mundo
ao redor do ardor
sincero
que destoa
do triste entorno
que ele inunda
invadindo o universo
em um segundo
como uma frestinha de nada
à toa

Mas, a mente
que recusa que exista na vida
um simples acidente
nem entende
a maripôsa
louca intermediadora
que pousa na Lua
atraída pela luz ardente
algo que com certeza almeja
adora

e o desejo
entremeia então
de sem querer também ser
chama e luz
como o que se queria
nunca antes
mas, precisamente agora
sendo aqui
o que já se precisa
o propósito
o que se necessita
o amor sem explicação
como uma arte
a razão de que não se deixa ir embora
sem satisfazer seu anseio
que por dentro a enlouquece
implora


Chegará a pousar
com suas forças mesmo na Lua?
ou a lunática de asas ainda se demora?
Será só uma explicável atração
ou o desejo que se assenhora?
ou ainda pode ser que ela se confunda
e seja um holofote
de um poste de luz
da rua em que ela mora?

Nunca saberemos
se morre no intento
se é mesmo a Lua
a ameaçadora ardência
dessa luz ao relento
Mas, talvez
só imaginação sua
o instinto que a explora
ou se mesmo são as suas asas
aquelas sombras
que a noturna e vaidosa Selene
ostenta e se arvora
pra nós
e pra toda noite
pra todo olhar
do nosso universo
afora.

Amizade II


Sendo amigo
os dias são companhias
as conversas íntimos atos
as viagens são tantas memórias
os encontros são como publicidade
nosso trato

e as malas não tem poeira
as estradas são amigas
as noites dormem sobre as mesas
os bares são mentes acesas
a destravar qualquer problema

se brigar toma uma
já passou, são lições
coisas de Ipanema
de discutir atrasos não combinados
e frio no cinema
correria pra casa alheia
que delícia as refeições
se ver vale tanto à pena

tristezas serão risadas
lembranças serão contadas
os rostos trânsito a vidas passadas
tudo que não é esquecido
tudo que faz a mesma estrada

pro que se quer ter sempre
pro que aumenta mais que aquela montanha
lembre-se das folhas quando o vento as apanha
se lembra de como a gente se gostou
e desde sempre desse filme que nunca acabou
e tão pra trás ficou nosso rock'n roll


venha comigo
venha sempre
venha vindo
a porta está aberta
vem
você já entrou

Amizade I


Sendo amigo
dias são cinemas
carros são vertigens
conversas são teoremas

de ser pra tudo como solução
de ser pra tudo como sorvete
de ser pra tudo como tua ponte
do que é mais difícil
pro muito mais tranquilo
pra tudo além do horizonte

E é tudo a mesma viagem
não importa quem as conte
e ombros são consolo
livros são nossos rios
tua voz a minha praia
noites são rodas gigantes
interesses são benvindos
uma mão pra que não se caia

teus olhos são convites
pro que se quer mais distante
pro que não se vê nenhum limite
se arrisca, não ensaia
insiste, tudo existe


Venha de avião
venha na contra-mão
venha sem marcar hora
venha sempre como for
venha
venha vindo
já chegou
amigos pra sempre
e de agora, sacou !