terça-feira, 29 de julho de 2025

Descobertas











o horizonte existe

não duvide
dentro do que a gente vê e não alcança
por detrás dos olhos
dentro deles

o horizonte mora quieto
é belo
e parece inalcançável

é como o silêncio de uma festa
até que explode 
como um foguete de artifícios
ou um beijo do inesperado

é como um pardal que voa e voa
e procura entender do que é feito o azul
e escapa de tudo que não é azul
ou que não é ainda azul






hoje
o horizonte de mim 
surgiu à minha vista
vasto e veloz
unificador
uma nuvem ou linha mágica
me traçando um fim
um limite infinito a derivar
sem nenhum plano para navegação até ele
mostrou apenas uma rota para o mistério
arriscando a longínqua hipotenusa
querendo imposição de uma descoberta
além do que parco imagino

antes guiava
doidas barcas apocalípticas
negava qualquer meta perdida
como hoje, meu querer, meu afeto
o impossível, o invisível
ou o corpo do outro a se entregar

por isso
desbravei também oceanos em fúria
até a terra descoberta
aventura
o país da selva oculta em cada um
e à cidade perdida
que alcancei em segredo
e me descobri
desenterrando um deus que não era de pedra
mas vivo

mas antes
coletei esperanças
fui destemido
e me lancei
contudo, a sorte então
me surgiu em surto
me arrancou
me jogou
me bateu 
como a borrasca maltrata
e lança naus 
sobre os recifes



                                                                                 foto de Frank Hallam Day



porém
me agarrei à coragem 
como um salvavidas
sobrevivi ao naufrágio
e venci
fui até a praia respirando
como a vida que há lá
ao longe
no horizonte perdido

aquele 
que lhe fixa os olhos
doce afago
trêmula aflição
e me misturei
me integrei
me afoguei
em desejos refeitos
mar de carne antes do repouso




terminara enfim 
todo confronto
como quando imaginei 
que ainda não chegaria 
à terra
sem horizontes
porém, 
graças à Deus
entendi que não!
A gente sempre 
se engana!

Mas, 
naquele momento,
ao contrário,
já estava em meu ponto 
de encontro
a descoberta daquele paraíso 
que é só meu
que está ali
ou aqui
peito aberto
até onde 
o que se realizará

acena feliz por sua presença
sem frestas
sem medo
e à frente apenas estamos nós
unindo-se ao secreto derradeiro
o objetivo de uma vida
em ajuste

deixando impérios desconhecidos
a conquistar suas lutas ou destemperos
o horizonte de mim
essa união a ti 
não passiva

pois agimos, arrojamos e conseguimos
pois, toda vitória
casa com o horizonte
tange nossos fluxos
e ali se une

te abraço
sinjo fundo o que posso
e pleno da tua aliança
e o continente agreste emerge
por trás dos corais e recifes
salvação




nossa nau de união foi nosso olhar
nosso porto, teu leito
nossa ilha, todo fogo

é o dessonho sonhado
porque é real
e até a íngreme montanha escalamos
e o longe agora perto uniu-se
num íntimo cume

o horizonte é onde para sempre estaremos
o horizonte em nós
o horizonte que são seus olhos
meu pardal
meu vôo
e juntos entendemos de que cor é feito o azul
e porque o azul será sempre
o azul
 
 
 
 
 
 
 
 
 

olhos fugitivos



súbito levantar
e a noite me escapa
a consciência turva sob o lençol
lenta do tempo inconsciente
algo que me angustia
me chama ao quarto apagado
agora deserto sem areias
agora espaço preso no escuro sem ventos
marcha sem passos, sem scirocco ou sem simun
entre o que se passou e o que não foi acabado
corrida sem aventuras
dormência na vertigem da alma


será esse momento como a caravana a vagar entre as dunas dos meus mistérios?
será que dá voltas sem ver a cidade ao longe
ou algum oásis, que nos descanse do que vai acontecer?
será melhor, então, me agarrar as lembranças
ou imaginar logo o que, com o amanhã despontando, devo fazer?



                                                                                                foto de Weston


ou será que é melhor me despojar de tudo
e inventar um novo despertar, um novo diálogo
esquecer os dias passados, tormentos e agruras
e sorrir para o feliz futuro que desejo que aconteça?


será esse amanhã a manhã do último dia?
a inescrutável questão de todo os dias
e todas as noites
e todas as horas
e todos os segundos
e do justo agora?
na verdade, tudo me apavora
não sou um super herói que a platéia adora
antes parvo observador das horas
temeroso aventureiro do acontecer
que pelo andar da carruagem
estacionou-se em contemplar o precipício
que despenca para dentro de sua mente
e divorcia do amor que tem pelo dia
e se amazia com o ávido prazer
que a atmosfera em breu lhe tem a oferecer
sabe-se impotente para os minutos
que escorrem pelos dedos
lhe cegam
lhe entopem
lhe afogam na areia do deserto
gigantesca ampulheta
que nenhum caminho evita por desvios
para que veja o mundo se esquecer

melhor me fazem os olhos
que não mais procuram um qualquer futuro
o que ainda não se pode prever
e descem a cortina do distanciar
do sobressalto de tanto murmúrio e incógnitas
desligam a luz do cômodo
e tudo se apaga
e deixam o sono me conhecer
e sonho
Boa noite!





































































































































t
r
i
s
t
e
z
teza
dura
dura
ruge
moe
mura
tritura
cora cora
chora cara
ora ora ora
ora ora ora
a cara rouge
ruge ruge ruge
ruge ruge ruge
ruge ruge ruge
- corta -

O monstro

esse monstro medonho 
agora me ataca
eu frágil
eu risonho
eu temeroso
eu só coragem
eu despreparado
eu pronto agora
eu perdido de aqui estar, me atraco contra sua fúria e seguro sua pata
e lhe aplico todos os golpes que sei
urro
xingo
grito
esmurro
bato
passo rasteira
torço seu braço
chuto seu corpo
me amaldiçoo por não ser um herói de um blockbuster milionário
e continuo o embate sangrento
evitando seus dentes amarelos, gosmentos e carniceiros
tremendo pelo esforço de com a tremenda besta lutar





esse monstro medonho agora me ataca
rolamos pela lama, rocha e terra, sangue e lama, sujo e cansado nesse esforço
eu embolado
eu prisioneiro em luta, talvez com um fruto da minha imaginação que algum remorso encerra e agora liberta para se vingar
mas que não tem dó 
e piedade foi um sentimento que nunca conheceu
e que também não aceito enquanto viver e puder brigar


                                                                                                            cena de Vinte mil léguas submarinas



esse monstro medonho agora me ataca
vil, violento, impiedoso embate que nunca compreendi
como ainda nada compreendo até hoje
como vencer
como suportar o que sei, o que vi, incógnita surpresa
esse gigante em espirais surge, ruge e golpeia como Bruce Lee





esse monstro agora me ataca
e agora sei que dele também faço parte, todos já esperavam isso em mim
afinal, assim se delineia o sucesso, essa é a vitória  - ser  Arte
existir é assim, como ser um Artista que se abstrai pelo amor, para além do comum e da hecatombe
e apesar de sofrer, a rodopiar em um grotesco motor, que é o Todo
o sentir nosso - o Dele
onde vou do onde vamos, onde estou...
somos todos um só
dentro Dele estamos
até que não nos consideremos separados
não há nada à parte
mas tudo mudou

todos somos monstros
todos somos anjos
todos somos esse Ser puro que amamos
penso
e sinto
não há mais fera
e tudo em mim levitou



As muralhas e as serras brancas



     Constrói-se muros. São de pedra, cimento e argamassa. Outros são de granito, magmas impenetráveis ao olhar. Muros e mais muros. Tantos muros a não deixar uma fresta, restos de imagem, uma aragem, um sopro, movimento. Calafetam-se, erigem-se aqui e ali. Outros fragmentam-se. Caliça e ciscos, parede de olho. Isso quando os podemos ver - nem todos protegem a China. Outros são só ruína.
     Há os de massa óssea, carne e pele e neurônios, massa de uma farinha que não se percebe, acostuma-se. São pedras que deixamos por acaso, enquanto andamos de janela em janela, a desviar do assunto dos muros. E eles vão crescendo por dentro, separando os sentimentos - um quarto para a aflição, uma sala para a dor - que tranco e esqueço, um quarto para o prazer - que à toda hora eu volto, um quarto de portas abertas para o querer, um mal iluminado e confuso para a ilusão, um compartimento para cada coisa que já sentimos.
     Mas as alegrias não. Elas se espalham no jardim, espaço aberto, gritam pela casa, riem, brincam, e outras até correm por dentro de mim. Fartam-se em piqueniques na grama, molham as saias no capim da manhã. E, à frente, ficam as muralhas das serras brancas.
 - Que serras brancas se não há montanhas com neve por aqui? pergunto encimesmado.


Será porque no íntimo todo frio é abstrato?  E lá ? Quem fica lá, se gela os pés, se resfria a coluna, adormece a pele, tudo se endurece? continuo abestado.
 -   É simples, respondo à mim mesmo. Lá mora o pavor, o medo absoluto. Então se tem medo e se o medo é o mais frio, é então o melhor construtor. Sua alvenaria é mais sólida e branca, firme cantaria, tudo feito de gelo mais duro - o da tristeza. Os operários não dormem porque gelam de pavor, tremem, sacolejam as carnes e assim fazem crescer as mais altas muralhas, para lhes compensar o tremor, e também como defesa da vergonha de ter medo, que traz consigo todas outras vergonhas. 
    Os muros são humanos e são a cara do medo. E são tantas voltas emparedadas quantos pensamentos que nascem.
    As alegrias não, dissolvem o gelo das serras brancas, conhecem as portas, as aldravas, abrem todas e sobre as portas colocam aquelas placas de wellcome, benvindo, e as espalham por todas as casas muradas das serras brancas e enquanto perguntam se por ali  é perto do Polo Norte, se alguém pode emprestar um trenó.
     Lá nas serras brancas há uma cidade. Essa cidade é de paredes brancas, mas as casas não tem tetos, os habitantes podem crescer cercados, caramujos de si, a ter medo.As muralhas vão crescendo levando a cidade junto, até o fim da estratosfera. Tão alto, que então os moradores percebem que também são como habitantes da Lua. Aluecem na gravidade zero e voam para o infinito. E, de repente, lá do alto percebem como são pequeninos, quase nada, como as serras brancas.
    As alegrias não, sempre o souberam. Não conhecem os muros brancos pintados de cal, nem os brancos porque se cobrem de neve e gelo. Sabem até que as serras nunca existiram, nós as construimos mentalmente. No íntimo, toda essa arquitetura é invisível, todas são limites da imaginação.
    As alegrias não, não tem limites. Brilham nos olhos e saltam aos céus. Flutuam. Estão por toda parte!Veja! Lá vai uma!

                                                                                               foto de Albert Lamorisse




A vidente

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uma vidente me revelou que a minha vida acabara
                                                       que terminou
mas só porque eu estava aqui
                                       agora
                                       onde eu piso
                                       onde estou
porque ela 
( a minha vida )
não vivia aqui comigo
porque rolava lá ..............................bem lá longe
e não por onde eu sempre sigo


porém
se não for aqui
em que lugar seria
se não é onde estou?





não adianta imaginar
as infinitas maneiras
de aqui não estar
mas a minha vida vivendo
a minha vida acontecendo
à parte
em algum outro lugar
em qualquer outro lugar
                            ou aqui           
                            ou ali
                                       lá                                
                             ou acolá
ou até na Conchinchina
talvez em além mar
ou no Turquistão
não sei





aí pelo  ar 
disse ela
vendo o meu futuro
abanado as mãos e dispersando dúvidas
espera
que um dia vai chegar até ......lá
no mesmo lugar
aonde você vai encontrar
o seu destino
nem que você não queira esse tal destino


                         desenho - Bola de Cristal -  Escher


essa é a pergunta 
como chegar onde não sei que se está?
e se isso é verdade
além de me fritar os ossos
me deixa cego
surdo
e mudo
e catatônico
porque me fez aparvalhado
e não sou idiota
porque devo ter errado em algum  lugar
                                                    no presente
                                                    ou no passado
                                                    ou até ontem
                                                    ou agora

e posso deixar de estar na minha vida
por ter pego o caminho trocado
ou ter esquecido
ou passado do ponto, distraído
e acabei num mundo do equívoco
onde nada é pra mim
e está tudo errado!

                                                                   
foto de Mc Cartney


o que mudou minha vida inteira?
como iria eu
não querer viver
a minha própria vida
se dela dependo
para poder viver......... a vida certa?
e que agora está perdida
não sei onde!
em algum lugar .........na minha esteira
posso estar vivendo a vida de alguém que nem conheço

ou a sua que lhe quero bem
ou a do porteiro quando faz a faxina
ou a do motorista daquele fiat sujo e arranhado
ou  a de um bandido que agora esteja preso sendo interrogado
ou a de um mestre cuca a lhe servir um prato fino
ou um milionário infeliz, velho, desbocado e feio
ou o garanhão que se faz parecer tímido, depois avançado
ou a de um astronauta devastado
por sua insignificância no espaço
ou aquela mulher de bíquini
ou até mesmo ser aquela mosquinha ali andando na poltrona
ou uma bactéria que caiu dela 
e sumiu no que nunca vi 



mas como posso viver a minha vida?
ou como encontrar a que ainda é minha
se ela me estiver esperando até agora
por falta do seu herói atrapalhado?





chego à uma conclusão
dessa situação surrealista
e solucionarei como posso
da seguinte e sensata  maneira:
 porque me preocupar de antemão
com o que não chegou à vista?
se há alguma verdade
ou não
virão com elas os meios
pra que ela exista





vida certa e errada
não existe
por mera antecipação

o que vier
            será luta
para que a conquiste
                            e realizá-la
como a descoberta de um estranho e selvagem país

                                                                        foto de Henry Cartier Bresson



ou a invenção mirabolante do aeroplano
que depois virou avião
que depois virou foguete
que depois virou satélite
que foi abduzido por um disco voador
numa canção baiana
que fez muito sucesso

cada um
tem diante de si
à si próprio
               em cada momento
               em cada segundo
               em cada gesto
               em cada ação
torturante ou não
inebriante ou não
inteligente ou não
correta ou não
egoísta ou não
a exclusiva responsabilidade
por aquilo que escolhe
ou que se deixa escolher
          se sai do emprego onde te tratam feito coisa
          e lhe pagam mal
          se enforca o feriado
          ou quem não lhe paga o aluguel por malandragem
          se sorri quando não obtém um elogio verdadeiro
          ou desmascara a falsidade 
          se pega um ônibus lotado ou um táxi caro e amarelo
          se sai do armário e assume a dignidade do que é
          ou se continua um covarde
          se vai ao supermercado ou rola na cama mais um pouco

todo mundo tem que ser aquilo que é
doa o que doer
ou não

sei que há momentos
em que é impossível alternativas
e
à essas
só há uma decisão
lúcida e imaginativa
           que não há decisões
           apenas saber
           como tirar uma lição
           ou descobrir um viés positivo
           depois subir ao palco
           para revelar seu personagem
           desvendar a trama
           e entregar o vilão

mostrar em tudo a poesia
e quando a cortina desce
que se espere
aplausos

e por nossa parte
a compreensão
e a moral da história
                   se tiver
                   e que talvez
                   só a nós mesmo
                   interesse

se uma vaca vai pro brejo
ou vai pro pasto verde
tem que se saber
de quem é o mérito
quem ou o quê
a fez chegar lá
o pastor deve ser
o culpado ou o herói?
a estrada está errada
ou é atalho?
e o brejo pode ser
raso e cálido
e o pasto
a entrada do curral
prévio ao seu pronto retalho

quem pode garantir qualquer coisa?
quem pode prever com certeza o que vem?
quem pode dizer que essa vida que você vive
é a sua vida certa
a premeditada
a que está no seu programa?
ou se a verdadeira era estar numa caravana em Nínive?
ou amarrado no trilho de um trem?


afinal
vamos em frente
a viver todo esse delírio que
convenhamos
é muito além do que se pensa

talvez seja
para apenas se saber
aonde
entramos na contramão

ou
se isso
agora
não faz mais
nenhuma diferença
que tudo é besteira
e que a vidente devia é vender mesmo
abacaxi
na feira

O velho e o lago


                                                                        
foto de Brassai


A rua está vazia
as calçadas não tem ninguém
  se há sons
    feitos lá fora
devem ser
cães
que ladram
pra quem não vem



                                                         foto de Hewitt Garret

devo me aquietar
nessa hora
pra que meus olhos
se fechem

não há anjos
 que esperem

nem fadas
nesta história

se problemas
viessem então
teria que os trancar
na memória



aquietar-se
 toda noite
é como um lago descoberto





peixes nadam por dentro
o vento sopra
por perto
                                                                                                   foto de Henkji Koen Tjoro



mas atravessá-lo
porém é necessário
se na margem o sossego
é precário

 eu
me conheço tanto
como à esse lago
um velho pescador
                                                                                                             foto de Araquem


se há vento ao contrário
posso não chegar aonde vou

a mente é um barco genioso
pois tem vontade própria




mas o lago
é o mistério da vida
e nunca saberemos exatamente

como num gozo

se foi nosso comando
que lá
nos levou.







Adormecendo

A
DOR
DORME
MAS SE DÁ
ADORMECIDA
JE SUIS SI DOWN
NÃO
SE
DÁ A DOR
DORME SIM
ADORMECIDA
ME EXCITA
CITA
O
SIM
E
ME
CEDA
DORME TÁ
BEM CEDO
QUE O MEDO
MORRE
TÁ
AÍ
VAI
DORME
O FIM DA
DOR ENORME
NA MANHÃ AÍ
LUZ MORNA
MORRE DOR
MORRE
TÁ
E
SE DO
AMOR MORRER
AMOR CEDA DOR
DOR DORME DORME DOR
A BELA ADORMECIDA DORME
ADORMECE ADORMECE ADORMECE
MERECIDA SE DOMINA A DOR SAI SE DORME
E SE DÁ A DOR SE DÁ A SEDA E DOR A DOR SE
TROCA TROCA TROCA TROCA TROCA TROCA
AMOR
AMOR
AMOR
AMOR

Queda dágua



Sofro em mim
lá tão profundo
de ver o acontecer de mãos atadas
que agora desisto do que nela se inclue
do que surge
em termos de acreditar não ser nada
que não está acontecendo
me iludir, 
me enganar radicalmente

Me recuso a ser
como um prisioneiro,
ou guarda de cela
à essa obrigação imposta
à essas grades
ao que me obriga
a ver sempre
essa mesma paisagem.

Também não quero
adotar um vício enganador
para que a festa continue da noite
até o dia que me aprouver
com pessoas que não existem
a surgir iluminadas 
por luzes ilusórias
à luz de vela
ou à luz 
do que eu possa imaginar

Quero que eu construa um real
quase real
entretanto sem a dor
de não poder atravessar
o que é escuro
num vôo até as janelas abertas
para o dia claro

Canalizar esse sentir
tão caudaloso
que me faz desaparecer
quando mal
a noite chega à beira
na escuridão

quando essa substância
não me deixa ver
que é uma corredeira
e que nela habitamos
sem a conhecer
embrulhados
rolando por dentro dela
a vida inteira

se transformando
numa gigantesca queda'água
incontrolável
que chamamos
de inconformismo
e que inunda
a cidade 
dos sensíveis!
                                 
                                                                                                                                foto de John Pfah


Sofrer é
no entanto
como de mim venho a saber
- se à mim ou ao não ser
pertenço
quer queira
ou não queira.

Porém
não há de tornar-se perpétuo
porque nada mais é eterno
ainda mais, tão cruel se revela
que não é o que eu quero
acordado
e nem dormindo
nem lúcido
nem alucinando
me perpetuando
a me vitimizar sob esse teto
inundado por tal fluência poderosa
a impiedosa produção da natureza

                                                                                               foto de John Pfah


Contudo,
dessa revolta contra
o que não dou conta
me conscientizo
que toda queda d'água traz a força
que produz energia
e que justo desse manancial
o potencial se produz e revela
o que dali trabalha, cria
para que surja algo novo
e reconfortante

algo que avise
a quem lhe encontre
de como supera-la
como encontrar um barco corajoso
e indomável que a atravesse
ou  a ponte imaginária suspensa
sobre o que sabemos
que existe e não domamos

por enquanto
pois sei que amanhã tudo muda
- como será com ela -
a primavera não inverno
rio manso e límpido
colorido ou aquarela
onde todos se divertem e nadam

Aí corro e me jogo n'água
arranjo um barco
e velejo sem rumo
e, quando dele eu sair
eu pinto outra tela






Cores



                                                                                         foto de Thomas Ruff

Cores

Agora só penso com cor

cor de cor que foge 

quando se encontra sem cor

cor de céu imenso

cor amarela de quando 

o dia de aniversário é amanhã

cor de um sonho esquecido

cor das flores que caem 

quando você chega

cor invisível porém palpável

cor indigesta mas tratável 

com chás e boas noites

cor do mar quando se chama 

uma sereia

cor do caminhão desabotinado 

pelas estradas 

do não-sei-onde-vai-dar

cor avarenta sendo passada pra trás

cor dos seus olhos 

quando vêem um quadro meu

cor do lugar que é belo como você

cor da selva, da selva, da selva

cor de ninguém daqui

mas de alguém 

a carregar água atrás das serras

e vê um pingo cair à cada passo

e cor do breu se dissipando 

atrás da porta que fechei

porque descobri que é o amor 

que colore tudo

e porque tudo fica tão colorido

quando penso

em você!

























A imensidão e o poeta



 
                          
                            
 
                                                                                Foto - Ralph Graef
 
 
 
Estou olhando
para o meu umbigo
e não vejo nada 
do que queria ver

estou olhando 
para o meu umbigo
e as ruas não clarearam 
e nenhum poeta apareceu

pena, 
porque queria entender 
mais de mim
queria ver um azul 
que sei dentro de mim
e que só ele sabe
o poeta

pois, 
o poeta 
é que é um sábio
por entender 
de imensidão
mas que 
só vê claro 
o que é impossivel,
o que se esconde 
numa noite imaginária
de nossa precária lucidez
que não entende nada,
nada.

E eu, 
tão simples 
e tão comum, 
sou possível
deixo a luz passar 
através de mim,
e jogo a rede 
de pescar maravilhas
para tudo além 
de meu próprio 
e tolo umbigo.

quem sabe 
não consigo 
pescar a metáfora
ou idiossincrasia 
que resolva 
toda solidão?

É, 
amanhã é outro dia
e a vida é mesmo imensa
imensa!

Dorme em mim o que sonho

                                                                                                                                     foto de Ralph Gibson


Dorme em mim o que sonho
dorme em mim o que se perdeu
vaga à noite de tantos cielos
e à cada um 
uma luz se prometeu

E, agora que abro os olhos,
não enxergo o que vi dormindo
minha cabeça procura um nexo
que ao dormir surgiu sorrindo
sorriso de saber o que não existe
enquanto me vejo aqui existindo.

Toda vida me perdi nesta busca
do que não existe a não ser dormindo
se valeu tanta briga, tanta luta
só saberei no escapar das horas findo

talvez mesmo só exista eu nesta gruta
do mundo desperto mera sombra seja
desfeito o sono em mim 
aflita imagem exulta
o infinito espanto que a claridade reja

Assim, prefiro a fuga
de não ver o que não pressinto
invento solto no céu sem lua
sou feliz se assim sinto
criando o gozo que dentro de mim atua
durmo e assim descortino o ponto
durmo, a vida é aqui feliz e perfeito encontro
do que almejo com a realidade nua







Delirio

                                                                                                                  foto de Andre Kertesz




Como ser tamanha quimera
se nem sei como que fui o que fui
se afasta de mim ser aqui na vera
o que foi de mim que não flui

E assim parte a ser tal assombro
da divisão dos caminhos seguidos
não resta de mim só escombros
não deixa tantos anseios assim perdidos

porque não anseia o que não se vela
pois este é o sinal de todo o desejo
senão como querer o que não se observa
e se não o vejo, como então o cortejo

Assim delineia-se uma conclusão
pode ser que eu não seja o que imaginei
talvez melhor ou pior conforme a ocasião
mas ainda resta o porvir do que eu não sei

e este eu o quero que venha, 
de nada eu sabendo,
para que seja 
o que reaja com autenticidade
e assim se aflorará 
o que há de mim de verdade
se for o que sonho, 
assim não mais sonharei 
eu o sendo.




E se



encontrar
 o Eterno



e

 for permitido

 Dele

 extrair
todo saber
resumido
e
todo
o existir
 e muito mais
do que eu penso

tudo
será integralmente
 reproduzido
num doce sorriso
e luminoso silêncio

e

nada dito







Libertas quae sera tamen

                                                                             foto de Hengki Koentjoro
                                   


Idealizo tudo na amplidão

a liberdade a luz intera

sentir é o que penso aqui

permitir o novo é o que gera

que se aceite aquilo tudo que vem

e tudo que não se espera 

e que chega, 

zera 


Assim mais vale ter a questão,

e com ela fazer as pazes, 

seguro, tranquilo,

se divertindo entre quimeras

que encontrar a solução

no final torturante

por abrir a jaula das feras.

Acorda!

     O caderno está aberto de novo. Aqui estou eu a me esconder entre as folhas. Sigo cada linha como um dever para comigo. Mas, às vezes, por esse caminho azul a escorrer, chego além. É o único local que me acolhe, esse agora. Aqui posso ser eu, é a minha intimidade a desenrolar em cada linha. Os espaços, as linhas e as letras são amigos silenciosos, seguem-se, abraçam-me, dilatam-se para escutar o que me grita e traduzi-lo. O que me é certo é que agora os olhos os lerão e, como todos os meus amigos, continuam silenciosos, inertes. Me observam estáticos, passam minutos, segundos, todo tempo, sem parar de me olhar. O lápis segue as linhas afoito, aflito. E vai rabiscando, escrevendo, contando tudo como eu conto para os meus amigos mais chegados. Esse é o caminho da redenção.
     Mea culpa, mea maxima culpa, me respondo. E nada. O quarto em silêncio, os amigos escutam - apenas estalidos indefinidos aqui e ali. O escuro, o frio, estou só. Deus me perdoe! Continuarei a escrever até que as letras formem um só vocábulo, aquele que não me deixa ter sono e é tão simples de lê-lo, mas a mim luto, me degladio em escrevê-lo, como ao olhar em um espelho e ver toda a realidade de quem você é,  porque as letras formam uma verdade terrível e tola que grita, berra. E vocês sabem qual é claramente,conhecem bem a palavra que é: - Acorda!



  

O labirinto

                                                                                      foto de Henri Cartier-Bresson NY1947
                                                                                                            


um lugar esquecido de Deus
esse estranho lugar
entre o será e o ido
que me veste
de um mundo perdido
ou me despe de tudo
que se perdeu


ali
onde tantos dias se seguiram
e não revelaram ainda
o que será cumprido
como um segredo das tumbas
todo esquecido
um Vale dos Reis
onde só os tempos existiram
e aonde ainda vive fremente
o que sou eu 
ou o que faço em mim
e que necessariamente
se escondeu


esse vazio cheio
de espanto
esse retiro
esse convento
esse circo
prisão
ou paraíso

não há jeito
não há riso
talvez apenas
só um aviso
ou grito
ou acalanto
e mais uma vez
minha mão tremeu
talvez
um som poluído
com tudo isso
que acontece 
mas caminho e espero
no vento do inimaginável
que de fato em minha alma
se rompeu

esse vão desconhecido
que me persegue
não esmorece seu compromisso
em nenhum canto
mesmo num lugar longínquo
do hipogeu

carrego cada segundo
enchendo
do meu vivido
esse espaço que à mim
corresponde
projeto do que não sei como existe
ou de como se deu

ainda bem 
que não sou nenhum santo
nem nada parecido
apenas um ser 
procurando saída
espanto
atrás de espanto,
ao seguir seus dias
com sua presença
atrás do fio para a saída
que é cada linha, 
a suma verdade
que sempre sonhante 
de si escapa
como um destino 
que trama ou intui.
e no caderno 
do fim dos dias
rindo
escreveu:
isso aqui
sou eu!  


                                                                                                             foto de Brassai

segunda-feira, 21 de março de 2011

Como todo mundo


vai pro teu lugar, menino

que o mundo é logo ali

está aqui, esta lá

ou mais além

à sua espera

mas acha teu lugar, garoto, vai!

agora, anda!


a luz me cega

tudo me aperta

me expulsa

e sigo

vou para à luz!



figuras surgem

batem à porta, rompem a soleira

balbúrdia, festa, bebidas e delírios

e depois passa, todos se vão

e você fica

você mentiu

para si mesmo

você não foi você

mas outro alguém

e esse é o prêmio

todos se vão e você aí

só


continuo a preencher a imaginação

desaparecem presságios, pensamentos

um milhão de movimentos elétricos, tantos impulsos nervosos

todos me empurram para quem realmente sou

menos a visão

que ainda não é clara

não quero ver o que sempre foi claro como o céu

a se tornar infinito e diferente acima das árvores, pura verdade


lá, a lagoa formiga de reflexos

e os fachos de luzes

fenestram minha sensibidade de olhar

tantas paisagens vazias

a cair em cada célula da massa de células cinzentas

memorizo tudo, cada  graveto abandonado e cada seixo

memorizo olhares e trovões

estou vivo!

e apenas miro e sinto meu corpo a pulsar


a porta se abre

é a semana que vem

a vida, o acontecer enfim!

ou a fuga



me lembro de um dia

quando ainda era domingo

mas um domingo como um dia comum

pois, terça não era

e quarta também não

não sei porque acho isso

talvez, porque seja hoje domingo também

fogem-me as razões

na época pensava em como deixar de ser assim

como deixar de sentir

aquilo que não se pode alcançar

como aquela fruta lá em cima da árvore de minhas lembranças

era sensato renunciar a não ser eu

já que era chegar ao impossível

fugia de mim mesmo

afugentava-me, não queria pensar no óbvio

apenas ser eu mesmo, nada além disso

só pensar como eu pensava de verdade

sentir o que eu sentia realmente

dormir como eu tinha de dormir

comer como eu queria

falar o que eu queria falar

entender o mundo como eu entendia, tão simples 

mas que me fazia entrar em pânico

querer fugir pelas ruas até não ter de olhar para mim mesmo

em algum reflexo a me cumprimentar dizendo

ei, você aí! olhe para mim, eu sou legal, como todo mundo

eu tenho defeitos como todo mundo tem

mas também tenho coisas maravilhosas aqui comigo


venha e me descubra, me conheça e me aceite

porque eu sou você

e não todo mundo!



mas naquela época, tinha tanto medo de mim mesmo

de sofrer

de errar

ou de acertar

e ter que abaixar a cabeça para mim mesmo

que espanto era o meu corpo



até um dia

quando naquele domingo caí em mim

lembro ainda de tudo de antes

o segredo então já não era mais mistério

que se materializou em milagre de ser como a verdade

inegável

e quem me fez a ver 

foi

você




se o meu sangue corresse pelo céu

eu te chamaria para olhar

como as minhas hemácias são rosas

no meu jardim-corpo-firmamento

e diria que são anjos rubros

que eu havia chamado para tratar e curar minha dor

ou alimentar meu amor em ser

o proibido

e por isso ver você como meu amor além do possível

se tornando ali possível



veja minhas células vermelhas voando como aqueles carros

como correm em busca de ar

das nuvens

do oxigênio

dos meus olhos à chover inocentes gôtas marginais

eles vem te buscar, te sequestrar

roubar sua imagem para dentro de mim



o amor nunca será proibido

ele não me deixa mentir para mim

que a única saída para vida é ser quem você é

cada um tem de ser como é

quem é

e ser apenas

a verdade

para dizer

vem comigo!

vem assim desnudado

sujar o nácar dos corais

sou oceano sem fundo

verto-me, lembro

sou afinal fluido

sou ar

seu sôpro

seu respirar

mas onde está você?

o mundo é muito grande!



toma teu lugar, menino

já me disseram isso antes

e nunca me corrigi

e por isso

ainda sei que sou menino

bem no fundo

mas aquele menino que aponta as árvores

que estão mais perto do céu

lá, naquele lugar onde eu sempre

achei  que estariam as melhores frutas, lembro

aquelas que eu queria te dar

e agora eu já estou aqui perto do céu, sou, sei

estou certo que vim aqui para isso!

pronto!

subi até lá

roubei uma

toma!

mas onde está você?

e o sol  acendeu o azul