sábado, 25 de setembro de 2010

Reflexões sobre uma folha de papel



Tenho lido tanta coisa minha e todas me deixam desejar!
O papel deve ser o mesmo, o lápis, ou caneta, a pena
e nenhum escreveu uma só linha, uma só letra que me faça com que eu pense :
- está aqui uma obra prima a respirar!

E faço um último ponto, o ponto final, usando de toda energia
cravando a lapiseira no papel esperando que ele grite de dor
sangre ou gema, implore
ou como se eu agisse como aquele gênio italiano
a bater seu martelo no joelho de seu herói em mármore: - Parla!
faço um ponto - o final


                                    foto por Jirel



Eu sou um que escrevo com a incerteza de uma meta
Se a forma é inédita, se surpreende alguém
eu me realizo de fazê-lo conhecer, dessa forma inaudita 
esse rude correr do lápis
para que então talvez acredite que ali está o que não pode se corromper
luz e sombra a serem letras
que são na verdade átomos, íons da minha alma
as portas abertas de tantos não sei,
como o que será
ou de não entendi
deixe eu ver
de : - Que coisa incrível!
ou o que vai acontecer
que se identifica com seu próprio arsenal de espantos
sendo quase como uma coisa que ela escreveria também
um momento seu também
e por isso criando uma estima e uma coerência íntima com o que leu

O que me estupefacta é como ver tudo
                                               sentir tudo
                                               respirar tudo
atônito de não saber que não sei coisa nenhuma
e que nunca saberei mais do que esse sentir
esse respirar
esse abobalhamento de se saber ali, ou aqui,
neste mundo que não se sabe a serventia
e ter que passar por tudo o que passei
passo
e continuarei passando
como todo mundo
sabendo que nesta corrida, ao final, não há vencedor
e não há louvores
a não ser o que regozijamos em fazer aquilo que planejamos
e que deu certo
porque não saberemos quando cruzaremos a reta de chegada
até o momento que não podemos mais fazermos nada 
e então não adianta os abraços ou aplausos
e sim agradecermos a oportunidade
e sorrir

 
Resta então apenas saber que fizemos tudo o que pudemos
com o que tínhamos para realizar nosso objetivo
e que, talvez
esses escritos na verdade sejam flores que nunca olhamos
mas que viverão para sempre!

                                                                                                                                    foto de Philippe Peche





quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Cidade vazia




como chegara até ali?
não me lembro de nada, nem daquele sofá, daquele abajur, o armário branco de portas fechadas, os tapetes persas, o sofá gasto e os retratos emoldurados de pessoas sorrindo em cima da mesinha em um canto esquecido, daquele ambiente estranho, desconhecido

como chegara até ali?
não me lembro de nada!
apenas, o telefone que tocava sem parar
e quando atendia
ele permanecia mudo
me questionando
me aspirando toda pergunta
e as dúvidas que surgiam
aumentando a angústia e a ansiedade
que me faziam tentar ouvir
por detrás do invisível silêncio
                                 silêncio
                                 silêncio


voltei ao que me preocupava, pensando nos trabalhos
pilhas de cartas
desenhos a serem feitos
contas a pagar
na preocupação com uma amiga que dava antialérgicos para seu cachorro
na mamãe, que perdera a dentadura em algum escaninho da casa
e de como explicar para ela como deveria tomar seus remédios
e mesmo me assombrar com a possibilidade dantesca de um meteoro cair sobre a Terra
e tudo se acabar
quando o telefone tornou a tocar na mesinha de cabeceira



desconfiado
alcanço o fone
e lentamente o tiro do gancho para atender a chamada
e digo: - alô, quem fala?
ele responde em silêncio
                         silêncio
                         silêncio

nenhum número no visor do bina denunciava aquela falta de sons
mas que à mim soava como um silêncio de vivos
de respiração entrecortada
de espera
de mãos nervosas a apertar os tecidos de uma camisa
de alguém que aguardava uma declaração que não tinha certeza
da sua insegurança em não encontrar o amor que achava que era o amor de sua vida
transbordante de amores que sempre entendia que eram os amores definitivos de sua vida
ou mesmo de ouvidos atentos à espera comunicado da entrega de algum pacote da farmácia
das compras do supermercado
ou qualquer pessoa que poderia ser alguém que dividisse tudo em antes e depois

isso me apavorou porque
nesse instante
entendi que também tudo à minha volta era um contumaz aspirador de percepções
de ruídos
de tato
de calor
de qualquer sensação
ou percepção de uma companhia à minha volta
e que tudo entorno era um compacto, absurdo, agudo, um doído silêncio
                                                                                              silêncio
                                                                                              silêncio





e os pássaros não voavam mais ou pousavam em algum galho que farfalhasse
a rua estava deserta
asfalto todo visível e sem trânsito e por onde folhas de jornais voavam livres ao vento
calçadas limpas de dejetos, homens e animais
as lojas abertas e iluminadas estavam sem fregueses e pareciam não ter mais vendedores e nem caixas
não se viam policias
táxis vazios e sem motoristas jaziam de portas abertas, largados pelo meio da avenidas
e todos os sinais sinalizavam indefinidos amarelos que piscavam sem nenhum clic-clac

eu tinha a intuição que tinha chegado à pouco nessa cidade
mas nem me lembro como
um intervalo vazio
uma lacuna em negro
interrupção do acontecido
angústia e desorientação

                                                                              foto de Stephen Wilkes Ellis


como chegara até ali?
e pra que?
quando eu queria escutar o barulho de pessoas amigas
quando o calor de corpos me acalmava
quando o olhar sorridente de alguém me dizia  o infinito
quando a presença de quem quer que fosse me restaurava a possibilidade da existência
quando sabia que se existe um momento daqueles
que por mais que tivesse perfuradas as minhas defesas
que me desestruturasse o desabar dos eventos de um dia à dia
que fosse completamente refeito por um simples ato dos olhos de alguém a me dizer o que não precisava ser enunciado
porque era claro, explicito
que era como me rasgasse os véus de minhas defesas
que era como me oferecesse um barco para alguma travessia
que o destino seria compartilhado por ele, aquele olhar
e se outras mão segurassem as minhas então
o meu mundo antigo desmoronaria
sugerindo
em vez de um mundo explícito
outro, vertical e ascendente
ali defronte, resplandecendo
que eu não via
pois que o imaginava lá, além mar, centro das nuvens
e que depois me convidaria para a viagem até essa inesperada terra das possibilidades sem fim
para o paraíso selvagem, mas doce
aquele eu inventasse no delírio mais desvairado
como um leito tranquilo e macio
e aonde tudo que viesse pelo futuro
eu teria uma companhia, ao lado, a me dizer :
fique tranquilo, vai passar
eu estou aqui
ou
felicidades
essa alegria é pra você

me dei conta então do desaparecimento de tudo à minha volta
tudo agora era vácuo e amplidão
e o silêncio
    silêncio
    silêncio
só com o telefone contava para ter ligação com alguém
um ser exterior àquele vazio
ao não ser
que era aquele lugar


                                                                                                                 foto de Marvin Newman



então decidi correr atrás da única ligação que eu tinha com o exterior
o encontrar seguindo aquele fio
e o arranquei da parede
e nervosamente o segui através de um sem fim de corredores
de mil quartos assombrados pela meia luz
outros mais iluminados, mas todos agora tão familiares
pois, chocado, percebi que eram todos os quartos da minha vida
que da minha memória que voltavam ao meu redor e se construiam à minha volta
e assim os percorri cabreiro
os explorando como já os conhecesse , como conhecia mesmo

através quartos cheio de brinquedos infantis
através de salas desmobiliadas onde festas viveram e sujaram o chão com doces
através do saguão mudo sem ninguém a passar
através de escadas mal pisadas porque usava-se mais o elevador
através da portaria avessa à recepção
através das ruas e dos postes
escalando um à um
até chegar ao seu cume
aonde me orientava e descobria tornava a arrancar dali o fio de minha salvação
e o enrolava em um cabide sem roupas
por quarteirões sem fim
por espaçosas avenidas
por becos e praças e mercados
e estações, ruelas, bordéis, pontes e estádios
por cabines desocupadas aonde outros telefones balançavam desligados no ar tristes e abandonados
como quem estivesse falando tivesse sido interrompidos por algum cataclisma
seguindo e seguindo sem pronunciar palavra ou desabafo
entendendo, agora, tudo que vinha por lembranças mal ajustadas ou bloqueadas
a correr os dedos pelo fio interminável e quase imaginário de minha comunicação com o que há
e o segui, segui, segui
enrolando em uma gigantesca bobina
até entrar por um bueiro, indo através do esgoto
entre ratos e baratas
e o negro e imundo troar do silêncio
o fantasma do silêncio
o eco inaudível do silêncio
a ferida medonha do silêncio
para chegar à uma escada
em que o fio tornava a se elevar por uma abertura para o mundo exterior

                                                                                             foto de Rene Groebli


subi até o asfalto quase morrendo
e as calças encharcadas do que eu não queria ver
por saber que de mim aquela lama vinha
não queria ver e continuei a seguir
já me fora demais
e pensava enlouquecido em desistir
mas o silêncio
    o silêncio
    o silêncio

e persisti a seguir o fio
até a praia
e me despi, me lavei, mergulhei nas ondas
e me purifiquei, me livrei do que não era para mim o que eu sou
e me cobri de sal, rolei na areia, tornei a me banhar
e me deixei flutuar, se ir a boiar tantos erros inverossímeis
para sempre livres e perdoados, se esquecendo

acima de minha cabeça aturdida
tresloucada e ansiosa por um gesto afetivo
por um olhar de boa noite
por um abraço
por uma voz que me animasse
e servisse de entorno vivo a pulsar
por algo que vivesse e me desse a razão
para que eu me permanecesse na paz
que eu sabia que ali ainda morava
por algo que me tirasse desse circo imóvel
por uma ave a traçar um voo
ou até um morcego que denunciasse
algum pomar noturno e feliz
em que eu pudesse em consolar do que imaginava ou não do impensável
que podia abrir suas portas através de mim
um cartaz apontava  - saída

à minha frente uma estação ferroviária
onde uma locomotiva imensa e seus vagões pareciam devorar quem os usasse para sair dali
e da sua chaminé antiga desse monstruoso cavalo de ferro à vapor
uma coluna cinzenta e quente brotava
vomitada por rolos de fumaça negra
e em suas laterais
placas explicavam por anúncios
Minus Taurus Linha Férrea e Cia

e agora, via já acima de mim, outra placa
que dava boas vindas
à quem ali pudesse chegar:

Benvindo à Cidade da Solidão
entre se precisar
mas, para sair, é preciso ter o bilhete Coragem
a próxima estação é a Cidade do Destino
saltar à esquerda
Boa Viagem!

devolvi o carretel com fios à uma cesta
onde um outro letreiro explicava

Deixe aqui seu fio condutor

e pensei sorrindo
a solidão maior é esquecer de si
é perceber a possibilidade de não ser
de que nem você lhe faz mais companhia
que aí se resume o Nada
o que nunca virá

e entrei na estação e fui a bilheteria
e quando entrei o único telefone tocou
e eu corri frenético até ele
e o peguei
e então escutei
com a voz que jamais esquecerei enquanto viver
Alô
Vamos sair ?

O trem partia!


                                                                                      foto Rene Groebli



segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Tanto,tanta




tanto espera
tanto faz
de mim se encontra
o que ainda de mim será

desenho a hora
desfaço o tempo
o meu caminho
é o que se constróe
dissolvendo exemplos

tanta espera
tanto quiz
tanto isento
da minha culpa
e do meu tolo intento

mas, às vezes, não caio em mim
mas ainda tento
porque sou largo mundo
e quase as bordas arrebento

tão grande assim
como a luz em um segundo
e, se não for, então
surpresa
invento


sábado, 21 de agosto de 2010

O que será?

                                                                                                                                      cena de Asas do Desejo



o que será de mim?
será o tempo meu fôlego?
ou o sopro fortuito do que vem?
será o desejo o meu desenho do que vejo
ou do que sou?
ou será um pretendido espaço destinado à quem vem
mas para quem?
será o risco traçado de uma amanhã perdido
quase apagado
que não me permitirá a que eu um mar pinte
e  não lhe colha suas ondas com tinta?
ou um pássaro que lhe adivinhe o seu voo?
o que será que é o que salva alguém
de uma ilha sem ninguém?

o que será de mim
de um íntimo tão breve,
curta flor de um vaso cristalino
sobre uma mesa polida para um jantar de domingo
em que não se serve bom vinho
e os presentes não retribuem um cumprimento?

e a minha memória tão longa
será sua terra arrasada
tua toda morada?
ou a confiança de toda beleza
ali crescida
essa frágil criança ali, perdida, deitada
agora aquecida, protegida de toda tempestade
por minhas mãos mornas
a dormir sem percalços e sem nenhuma porta fechada?

o que será de mim
se eu vejo amanhã
ou tuas tardes que não esqueço?
será como um rio?
será como a chuva?
será como a lama na luz da estrada?

que me importa, se o sol já seca o caminho e a te encontrar por ela desço
se a felicidade para mim já se revela a ser encontrada
e, entre meus braços, a tomo como parte minha
a que se encaixa perfeita na minha obra inacabada

mas, e se, de repente, as folhas se rasgam e se desfazem
nuvem a fugir entre meus dedos como poeira seca
de um livro sem alma e sem letras a contar uma história complicada?
como saberei sua prateleira?
como identificarei meu destino sem capítulos e um parágrafo final?
como o fecharei a elocubrar o que acontecerá quando a página for virada?

o que será do que imagino?
o que será desses barcos de papel em meu oceano de lençóis e folhas brancas?
mas se o que devaneio é sempre a miragem de uma mente chuvosa,
que por entre trovões e rios em cachoeira, imagina uma sala seca cheia de amigos alegres
felicitando sua chegada com gritos e vivas e taças cheias, confianças sobrecarregadas
em vez de se proteger, e ao seus anos de futuro, em uma cápsula encerrada
numa frágil bolha de garantias materiais, como se ali, o que lhe faz brilhar os olhos,
permitisse o seu eterno aconchego

o que será da noite que curva pelas ruas e desaparece na névoa?
o que será da luz?
o que será do fim?
o que será se nada adianta?
o que será se tudo que acontece, mesmo sem sentido, é o sentido
da parte de uma trama sem sentido que o transcendente trama?
o que será de ti, a alegria que eu acreditava
se não for então essa alegria absoluta e à mim sobrar só ficar pensando, largado nessa cama

será, então, a verdade
um corpo largado
sobre a calçada suja
a ver uma bela morada que não tem a chave
e não conhece o dono para lhe pedir acolhida ou um copo d'água?
ou do nada refulge
o brilho
que nos acolhe querido
e diz
essa aqui é a sua casa!

o que será?
o que será?
o que será?



sábado, 7 de agosto de 2010

subi a negra montanha



subi a negra montanha
conhecê-la é o meu fim
a encosta é cruenta, mas apoio os pés me equilibrando na ponta de cada rocha pontiaguda
e de vez em quando escuto um punhado de terra escura com areia e pedregulhos despencando
até lá embaixo
até onde não vejo mais o fim e a imaginação não alcança
até o abismo dos dias perder-se na memória do sem fim e do tempo que se apaga





subi a negra montanha
durante esse tempo, penso em tudo que sempre me acorrentou àquela direção
                                                                                           àquela minha estrada reta e rasa
                                                                                           àquela totalmente previsível
                                                                                           àquela que era assim
                                                                                           perfeita por nada se questionar
                                                                                           e por isso ser aceita por todos
                                                                                           comum acordo ao lugar nenhum



até quando, de repente, ela se eleva à minha frente
surge abruptamente como uma vontade de alguém
                                                            a me questionar
                                                            a me colocar uma grande incógnita em  meu caminho
                                                            e que se faz como um temeroso afrontamento
                                                            um desgosto gigantesco em aparência
                                                            gostando de me fazer pouco
                                                            duvidando do que eu estou afim
                                                            do que sou capaz
                                                            do que é meu destino inadiável
                                                            a obcessão plena em minha vida
                                                            pelo desafio que só eu posso vencer
                                                            porque tem o meu nome
                                                            porque eu quero
                                                            porque eu acredito
                                                            porque eu o vencerei





subi a negra montanha
escalo esse deserto de pedra numa luta a tocar clarim
não existem milagres
tudo que existe tem explicação
a razão que não existe para o que se sabe, não sabe ela mesmo de mim
mas se ela existisse com a lógica, a própria não seria desse jeito
porque nem em tudo há coerência
não existiria sentido de sentir sem te fazer conhecedor da dor, a única que sabe porque vim




subi a negra montanha
e vejo que tudo que toda criatura vê
e jura que é o resumo do que está a perceber
mas quando chega à montanha, ao cume
com a paisagem a se resumir pelos olhos, percebe então que tudo é só um milagre
começando a agir - o imaginar que há em você
que sem o limite do horizonte, entende que assim a vida se resume
além do A à Z





subi a negra montanha
aí tudo faz sentido
na direção que o céu está acima
agora é o céu que teu corpo toca
não me desfaço então de mim, porque já começo a entender tudo
tendo visto que o vi até hoje, o que se passou torna a ser refeito
com tudo que a nossa mente invoca
e o que não fazia sentido até então
é o que mais se encaixa no horizonte de eventos
é o que faz tudo se ajustar ao seu caminho
como toda dor é agora tem seu porquê
como todo farinha de trigo, que faz o pão que nos alimenta
passa antes pelo seu moinho




subi a negra montanha
prefiro olhar o luar daqui
e lá pra baixo o mundo continua
pois quando, em espanto, o que não via por ser oculto, por ser claro e exposto
se revela ali subitamente, sem sobreaviso
e por isso, rio e grito, quando descubro que ali também há felicidade
se a montanha, surpreendentemente, ao acaso, a ti invoca
quando, do abismo, um sopro de seu igneo coração derrete o gelo
e o vapor gelado de luz se atravessa e dos confins um arco íris se desloca
reflito sobre o frio que me circunda e me digere quando você não me toca



subi a negra montanha
e até ali, meu sentimento petreo se racha em doce quebranto, que em mim fervia
e expõe uma nova abertura, uma nova via, que me desvia do que eu não via
ou ainda mesmo não existia
porque a fiz com minha inocência de se maravilhar com as possibilidades
de um devir feliz e incompreensível
a porta aberta entre o céu e a Terra
que se desconecta da cruel natureza da matéria
e se dirige à inefável e celeste morada da alegria





subi a negra montanha
e vislumbro então um infinito conforto nesse futuro de meu caminho
porque em mim é agora a verdade é o desejo
que a mim agora se encosta
                              afaga
                              toca
                              geme
                              sussurra
                              implora
                              e eu o possuo
                              e o seu corpo é a tranquilidade
                              de um pouso seguro e querido



subi essa negra montanha
e essa montanha para mim é como um o sonho, é quase um nada
e me pergunto que ideia a minha, como eu podia ser tão maluco de tamanha empreitada
por uma montanha que é uma fantasia
delirio transtornado e louco
se podia seguir meu caminho tranquilo
a arriscar a toda a vida que eu ainda tinha
por tamanha insensatez
para me elevar sobre uma rocha perdida erguida
do não se sabe aonde, por não se sabe o quê
que me acena com um caminho em trevas

mas eis que, quando eu assim pensava
entre nuvens e clarões se revela um portão a se abrir
e chego à um salão de arco íris formado e de altas grandezas ao cume forrado
como em gelo e cristal bruto e de bronze dourado
e que a bênção, grandeza e gozo internamente me invoca
só ainda que mais me surpreendo, porque já então sequer imaginava
que tudo isso ali
todo esse sublime, todo esse andor de maravilhas
é apenas onde lhe construi entre as nuvens e o completo êxtase
um lugar só para ti
indestrutível, indevassável
e para sempre
onde todo meu sincero amor por ti aloca

e agora sei
ninguém mais nos separa
ninguém mais nos afasta
e certo disso
senti então um súbito calor que a mim me completa
e era a sua presença enfim
que depois de me fazer entender tudo
me surgiu
por merecimento e dádiva
por alcançar o meu objetivo

então, se fêz meu descanso
o que ali nas alturas não pensei que existisse
que por fim me recebe, sorri, se aproxima
e  me abraça
                 

                                         ilustração por Gustavo Doré



quarta-feira, 28 de julho de 2010

O segredo ( para quem eu adoro )




uma figura precisa de um fundo
um jornal precisa de notícias
um carro precisa de passageiros
um livro precisa de histórias
um dia precisa de sol
um caderno precisa de letras
uma carta precisa de confissões
um pássaro precisa de amplidão
uma questão precisa de respostas


nada pode ser o que falta
tudo é o que completa se nada existe
nada se encaixa quando se está triste
tudo voa se o vento se faz uma borrasca
e se vai embora, agora não mais existe


o mar precisa de horizonte
um assobio precisa de sopro
a praia precisa de ondas
um castelo precisa de torres
a serra precisa dos montes
um doce precisa de lábios
um beijo precisa de desejo
um balão precisa flutuar
a rainha precisa de cortejo
a condessa precisa do conde
pra respirar preciso de ar


mas e quando se sente
que não se sabe o que lhe completa?
e se o que vier não der conta do recado?
mas se depois do que já está, ainda faltar uma lacuna?
e se o destino não for reinterado
mesmo contado as horas uma à uma?
e se nunca for uma linha reta?
e será que o futuro prescinde do passado?
mas se tudo isso não for uma verdade concreta
ou coisa nenhuma?


uma gaveta precisa de cartas
um pensamento precisa de liberdade
um movimento precisa de ideias
uma ressaca precisa de ondas
o homem precisa da verdade
um ninho precisa de ovos
um avião precisa das asas
os velhos precisam dos novos
dois corpos precisam de fogo
um vulcão precisa de erupção
e uma cidade das suas casas


e será que esse vazio se vai?
e se a estrada não for a lugar algum?
e se a dança se fizer sem música?
e se eu pular ao som do ritmo desse baticum?
e será que são necessário tantos acordes para ser uma manhã?
e virá o término do meu ser sozinho
e fará em mim o fim dessa vida vã?
e o ciclo se repetirá no seu caminho?
como saber o que em mim falta?
onde acharei enfim o meu xamã?
onde é a caverna que se esconde um carinho?


um perfume precisa de colo
os travesseiros precisam de cabeças
um carinho precisa de sentimento
a ladeira precisa de freio nas rodas
uma gaivota precisa de mergulho
um hino precisa de orgulho
uma festa precisa de alegria, whisky e soda
uma rota precisa de uma caravana
a fogueira precisa de lenha acesa
e Cuba precisa de Havana


portanto, o mundo sempre está a se completar
embora o tempo que isso se faça, seja
por exemplo, todo o tempo a se formar
porém, quem espera sempre alcançará ou não?
contudo, sempre fará algum sentido o que virá
de onde esteja?
todavia , não seja o arranjo perfeito exemplo
entretanto, sempre tantas esperanças há,
tantas esperanças , tão benfazejas
mas quem não tenta se exclui e não saberá a solução
nem o que ficará, estará a contento perdido
outrossim, terá algo a compreender ainda na mão


um baralho precisa das cartas
uma roupa precisa de botão
um corredor precisa de fôlego
uma bicicleta precisa de pedais
um arrependimento precisa do perdão
um animal precisa de comida
um automóvel precisa de gasolina
o céu precisa do azul
e um chinês da China
o teatro precisa de emoção
um cego precisa do que não vê
o ator precisa do momento
e eu
apenas preciso de você





segunda-feira, 26 de julho de 2010

Díonisio devorado



ver-te
desfigurado pela memória
com toda a nossa vida
                  nosso mundo
                  nossa invenção
                  nossa história

no limite linear
             do passado
em frente ao abismo
               nebuloso
               de você
dionísio devorado
               me desintegra
               me constrange
               me rouba o chão

mesmo que eu soubesse
que já não existindo
existes em mim
e ainda o amoroso 
em mim, por ti despertado
semente pequena e irrisória
de uma antes árvore imensa
que se fez lenha
agora será semeada
fértil pouso e amanhã

e  que nascerá do nada
    que nascerá de novo
    que nascerá pra sempre

verde até a madura vitória
e a colheita farta
que compensará
                  o que se foi
                  o que ficou de fora
                  o que feriu ou magoou

sinto
que nada é inútil
nem mesmo o triste
                   ou o passado inglorioso
                   ou os limites em dor
                   ou o que se sabe
                   e não queria

no entanto
quando eu me pergunto
se me lembro do que não devia
agora que me rio de tudo
quando me surge ainda a mesma questão
                                                 pra quê?
                                                 porque?
                                                 silencio
                                                 descubro toda verdade
                                    
                                                 Eu desamo você!





terça-feira, 6 de julho de 2010

O jantar está servido



Sem ti
toda alma prova o gozo
do sentimento desprovido
de toda grandeza
a solidão de prosseguir o almoço
sem ter ninguém a brindar o vinho
ou ninguém sentado
em torno à mesa

Mas, que fazer
se nada ou se ninguém interessa
quando nada lhe preenche
nem cresce, ou o prende
e toda surpresa súbito cessa
e até lhe traz angústia
por temer o que vem pela frente

Porém, como de novo
esquecer o temor
de como enfrentar as horas
se o que vem à noite
ainda é o vão de sua forma
o estrondo vazio
do que não lhe questiona mais
do que não lhe responde mais
do que não desarruma a casa mais
e depois não lhe abraça

e até lhe evita
se o acaso maldoso
faz com que se encontrem
para que aconteça
como uma traição
ao que à si próprio jurou
de jamais ter atitudes rudes
ou indignas
nem em legítima defesa

Voltando
então, à casa
tudo acentua a
abstrata lacuna
que tudo contorna
de um nada presente
que dentro em si constata
a ausência que não lhe deixa

E continua
por lhe evidenciar seu engano
e por sobrar tantos ecos
ressoando por todos os cantos
da lacuna, de seu apartamento
no vácuo de sua inexistência
como única prenda
como único bom dia
como único cumprimento
que não mais existia                                                                                           



Entretanto
o amor é assim
como o nascer do dia
que chega de mansinho
se escondendo
por trás da montanha
ao alvorecer
e pensamos, esperamos
a luz e o clarão
que viria a acabar
toda obscuridade estranha

Sabe-se porém
que, um momento, ele terá fim
como tudo que de vida se entranha
e o frio e o escuro deste ínterim
se ameniza nas imagens e lembranças
que a memória feliz
por graças ganha

Até que se olhe atento
ao sempre ali
velho e conhecido horizonte
e vemos de novo
de repente, o dia surgir
com seu céu à tudo iluminando
por trás da montanha




Mas, não se vê nada ainda
nem entendemos o que se passa
pois se nem janela temos
que agora por milagre
na mente achamos
e olhamos ávidos
o que há através da vidraça

e aí imaginando tudo
o cenário e os personagens   
a ser como sempre amamos
e realmente tudo volta à luz
não mais nos assusta
nem mais nos amedrontamos

Então sem perder tempo
corremos e pomos a mesa
pois um convidado não esperado
à nós, a luz trouxe
e já ali bate à porta,
sem mais nem menos
pois revelou o que não víamos
ser tão claro
quando a mente está acesa

e então trazemos
tudo de melhor
que há para jantar
que à ele, com prazer
será servido
para que esse alguém
nos diga contente e comovido 
bom apetite!
e nós escutemos por dentro
O jantar está servido!
E adeus, lá se foi a tristeza!



                                   
 4/11/2007

                                  
                                  
                                                                      pintura- La salle à manger sur le jardin - Bonnard





sexta-feira, 25 de junho de 2010

Se houvesse flores

                                                                   foto de Anders Petersen



se houvesse flores

talvez existisse alguém que inventasse a palavra jardim


e que

descobrisse as minhas tristezas, meus cantos escuros

meus becos sozinhos, os canteiros secos de toda terra

quase um nada

com as suas árvores nuas, impacientes, ignorando todo existir

que não lhe balança os ramos, pois ainda não venta

se não há o que vir


e com

a sua paciência, arrancasse dali todos esses frutos tristes

duros, do fundo dos vazios ocultos, impuros com tudo que

não fosse colorido do adentro apagado e fosco, tenso ou estéril


e em

íris revertesse ao que traz a cor do em si, subterrâneo e oprimido

mas que, às vezes, se supõe que exista por um segundo, quando

extravaza subitamente,como um  jorro indomável do que se produz

com o que há em mim, pelo espaço desse mundo do improvável

em que tudo respira e se observa em matéria vibrante, viva


e depois 

ali plantasse a calma, sem a velocidade da bem aventurança

que explode em velocidade, em fazer voando e por correrias

como movimentos de raios elétricos estabanados

 o que tiver de fazer

porque a ligeireza é o  tom de quem não mede tempo pra se divertir


e que

não quer o espaço de pensar no fim

mas, ao contrário, que fizesse com a tranquilidade ritual

semeando risadas e inocência, pouco à pouco, com as minhas

coisas boas da infância - as brincadeiras, os jogos de pique, tudo

que eu não esqueço encantado



e que

na minha lembrança de todas as felicidades, ainda tenho soltas


e graças aos céus

não assim tão poucas, pois escorrem estravazando pelas bordas

plenas, nesse ínterim





e depois

 fertilizasse todas as frestas e ranhuras plenas de insegurança

medo e solidão, todos os problemas

simplesmente encerrados

apenas com uma palavra

- sim -


                                                          foto de Robert Mapplethorpe

e dali

o inesperado em flor surgisse em forma de fato e surpresa

essa que, às vezes, explode surda, muda, de todo acesa nas ruas

que o acaso desce, e você, coincidentemente, também, surgindo

como uma pessoa que de repente vemos, e a gente mal reconhece,

que você tivesse cansado de esperar toda a vida e só uma prece

ou o horizonte lhe apontasse o seu lugar, e de repente lhe surgisse

assim do nada, na sua frente, suave, leve, materializada.


e  pudesse

 lhe envolver no seu cheiro, perfume, e uma cor que

você não encontra, que de repente transparece 

fazendo tudo mudar

o ardor viceja, desponta - e pronto - a sorte voltou a atuar

tudo reluz e se abre, cresce 

olha-se pro o céu límpido, os pássaros, a delicadeza das nuvens


e o vento

tão doce que passeia por seu corpo que agora

se sente querido, em paz

voa
   
                                                                    foto de Robert Mapplethorpe


mas, como

conhecer a palavra flores, se não conheço todos os

segredos que existem em mim?


então, imagino

se houvesse flores é porque já as vi bem perto de

onde moro, ou por onde sigo meus olhos, por meu caminhos

esquecidos, pela água de um rio passado, quando passo com

atraso, ou mesmo, talvez, ali bem perto de mim


é que

talvez eu não as olhe e não me dê conta de quantas sementes

quantos botões se abrem, germinam em cores, em amarelos, azuis

ou violetas, brancas ou carmim, por não serem parte de minhas

obrigações, das minhas urgências, é o invisível comum




daí

me deitei , me despi do mundo, e pensei como podia isso

ter acontecido comigo, logo eu tão preciso em detalhes, tão

objetivo em minúcias, tão claro em observar que nem tudo

que vem na vida, vem porque estamos acordados

o quanto na vida nos distraímos do que achamos que não

é preciso, quando às vezes apenas um soslaio de alguém

perdido, ou detalhe de um gesto esquecido, nos faz ver

o que realmente nos prende ao que somos ou porque somos assim


e nem eu

em meu sono profundo, se quero ver que haja flores

me permito que eu seja apenas a alma presa dentro de mim


e dormi

e as flores vieram, todas.


e quando menos esperava

a fortuna, vinda na forma de meu

espírito liberto, me abriu as mãos e ali pôs sementes bem

pequenas, arrumadas em silêncio e cerimônia, como as letras

de uma palavra que eu não li, porque eu não precisava, pois

me lembrei que era algo que sempre conhecera

que eu já sabia que era a palavra

                                         JARDIM.

                                                                           foto de Issei Suda



quinta-feira, 3 de junho de 2010

A verdade e o invisível



falemos a verdade

e a verdade é que tudo é invisível

ou melhor

veio do invisível e se tornou visível

e nós percebemos esse invisível

quando pela primeira vez o descobrimos

quando nos deparamos com ele

ao abrir os olhos para esse mundo inteiro

nos engolfando em um nada cheio de formas, sons e cheiros

e nos sentimos completamente sós e desamparados




nessa imensidão onde não vemos limites ou um fim

e então não entendemos porque vivemos cercados pelo invisível

quase nos afogando nele

quando aí o inalamos sôfregamente

até que algo por dentro se infla, não sabemos bem como

e vem um impulso como ao sair de uma prisão quente e abafada

que depois identificamos como um berro

ou choro

ou a vida




porém, o invisível não é apenas o que não se vê, o que não se toca

e sim o que se percebe pelo que não está ali

mas o que está em qualquer lugar onde não se existe

mas que mesmo assim

quer ser percebido, sentido

até que lhe doa a vista

ou que lhe fira os ouvidos

ou lhe contraia os intestinos e arda em sua pele

ou que mesmo enlouqueça a sua mente

como uma criança que não para de pregar peças e fazer arruaças

a lhe fazer doer a cabeça como se ela estivesse rachando

para que, enfim, quando você estiver à ponto de endoidar

num rompante de desespero, quando já olhar

para os móveis e eles lhe sorrirem, parecendo se mover

num frenesi como numa dança tribal e antropofágica de

seu próprio sacrifício doméstico em honra aos que não enxergam

                                                       
                                                                                         foto de Sven Turck


e as estrelas fosforescentes, que brilham no imaginário

de qualquer estrela fútil e megalomaníaca de Hollywood

girarem, como num chapéu mexicano de um parque de

diversões lisérgico, enlouquecido por doses extravagantes

e abusivas de ayahuasca e marijuana




e quando para você não houver mais os pés sobre o chão

e nem cabeça lhe habite o seu lugar tradicional

em cima do pescoço e sob o céu cheio de nuvens

a lhe chover gatos pingados, molhados e arrepiados




e você num ato de derradeiro de subsistência, grite com toda

força de seus pulmões, arrasados por toda a sua vida de

excessos e irresponsabilidades marotas de sua adolescência

maluca e maturidade descompensada :

- Chega , me diz por favor o que você quer, que lhe obedeço

mas pare com isso agora pelo amor de Deus, por favor

tenha piedade! Eu lhe entrego o que você quiser, tudo

mas pare, eu lhe imploro! O que eu te fiz? Pare,agora!




e aí ele se volta, senta-se em sua poltrona favorita

sopra, por sua boca invisível, círculos de fumaça

de algum cigarro imaginário de uma grife divina

e , te encarando, resolve lhe dar uma oportunidade

dizendo meiga e suavemente

como se nada tivesse acontecido

que tudo que houve

foi para que saísse de si mesmo e se desse conta

do que havia ao redor, do que lhe cercava

e principalmente dele - o invisível


                                                                                            foto de Liu Bolin
                           

e que sempre aconteceria isso, porque

ele existia ali, na sua frente, e que você não se dava conta

e que então faria isso até que percebesse toda

a  carência que ele tinha de não ser, para que assim

se delineasse o seu vazio ou sua falta de alguém que lhe

abraçasse e que lhe pudesse dizer

olha, eu estou aqui

eu existo

e preciso de você


disse então queria ouvir isso apenas para que fosse aceito

e não lhe trouxesse mais qualquer medo

e que pudesse existir assim mesmo, invisível

e ser querido exatamente por ser assim

para que lhe possa penetrar por seu corpo e mostrar um lado

mais doce e belo, pronto a lhe servir

como a todo gênio humano sempre servi

para que me ordenasse

me organizasse

me harmonizasse

nas mais sublimes melodias, inesquecíveis harmonias

ou em ritmos atordoantes a lhes despertar o humano

e para que eu possa despertar a todos em poesia

para que ali enxergassem à ele - o invisível                                                                


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          foto de Michael Manheim


e para que eu despertasse também a minha invisibilidade

e me tornasse de alguma maneira invisível

porque os seres humanos são assim

tudo organizam

tudo arrumam

tudo enfeitam

e o mundo lhe faz então um sentido confortável

de ter sido pacificado e que há um controle

e querem assim mesmo, daquela maneira

o que não vêem

o que não compreendem

apenas sentem

intuem

mas não conhecem verdadeiramente o invisível

porque querem tudo visível

                                                                                                                                                   foto de Fred Lébain


porque os faz perceber que esse universo, como todos os outros

que podem existir por aí, não são nada, e que, mesmos eles

não são nada

o que os apavora de sobremodo

e que o invisível é sim

o imensurável

o desconhecido

o absurdo

o inesperado

o que não se pode entender sem ter medo

ou despertar o êxtase

o espanto ou até mesmo a felicidade

ou o amor
                                                                                                                                                                foto de Don Gregorio Anton


que é o próprio existir - a essência da vida

o movimento que, ao se cansar da imobilidade de ser um

de ser sozinho

e resolveu usar sua energia para gerar um deslocamento

para um talvez desconhecido

originando tudo em círculos

voltando sempre para si  retomando energias

e partindo para novas aventuras

inventando tudo o que hoje há

como o espaço, o tempo

e tantas outras dimensões ainda invisíveis

e por isso imperceptíveis aos nossos toscos e insensíveis olhos

e que ali, agora, apenas se permite humildemente, que o ordene

para que o aceitemos, o adotemos como cria afável

que permite que se eduque para te ninar

ou mesmo te abraçar com seu corpo invisível e lhe passar calor

agradável, para que durmas sossegado, ou a lhe esfriar a pele

para que suporte o calor que lhe queima a pele, ou acenda

humores que turvem a mente e incendeiem o olhar

embora se entenda por aí , porque surgiu a arte

assim

do olhar

do que existe e por consequência está vivo, pulsa



                                                                                                                                                                   foto de Madge Donohoe


mas, surpreendentemente, o invisível também pulsa , freme

e também habita toda e qualquer boa arte porque a transcende

com o mistério

com o que não se explica

com a aura

com o segredo de ser - não sendo, até que se o perceba

sinta-o

veja-o

ali muito mais vivo de tudo que é apenas visível

com todos os nossos olhos de ver além

e que não são esses dois espaçados na cara

separados pelo nariz

por exemplo

o amor é o invisível visto com os olhos do coração

e a alegria é o invisível visto com olhos do sorriso

o carinho é o invisível visto com os olhos da tocar

a delícia é o invisível visto pelo olhos do paladar

o perfume é o invisível visto com os olhos do desejo

a fúria é o invisível visto pelos olhos da tempestade

a melancolia é o invisível visto com os olhos da dor

e a pressa é ..deixa pra lá, não importa, não dá tempo!




eu, então

pessoalmente

aprendi que sinto o invisível

sempre presente como um companheiro imprescindível

a penetrar a minha mente e a tocar meu corpo e meus órgãos

ininterrupta e prazeirosamente

até que ele me diga porque ele se faz

urgente naquele instante, pedindo para ver sua a

sua configuração, a sua transparência que não habita

lugar nenhum, porque todos os lugares são sua casa

e onde estende o seu corpo que parece não-ser e se faz prazer

ou dor imensurável ou mesmo se aquieta

em sua quase inexistência
                                                                                     
                                                     

                                                                                                                                                                  foto de Emmet Gowin


é como meu par querido, que eu sei que está ali

mas que nunca saberei com certeza qual será

sua manifestação

a receber tudo que se desfaz

ou a fazer tudo que é

e que veio dele

para que nós

com tudo o mais

partíssemos para conhecer o que pudesse acontecer

perdoando aos nossos caminhos

porque entende que apenas foi mais um caminho vindo dele

voltando até ele, como um círculo vicioso

o invisível que se faz visível, cria

e lhe tem afeto e precisa dele

e que à isso nós damos o nome de amor

e por isso voltamos ao invisível

por seu amor





mas que sempre estará por perto por que somos um só

vivemos não cercados do invisível , mas dentro dele

ou melhor somos o movimento que a partir dele

vindo dele,

e parte dele

nos fez visíveis, concretos, para senti-lo, para ama-lo

em seu infinito saber

o que adquiriu também por estar em nós

sobre nós

por nós

para nós

para sempre

como
             o Eterno