sábado, 7 de agosto de 2010

subi a negra montanha



subi a negra montanha
conhecê-la é o meu fim
a encosta é cruenta, mas apoio os pés me equilibrando na ponta de cada rocha pontiaguda
e de vez em quando escuto um punhado de terra escura com areia e pedregulhos despencando
até lá embaixo
até onde não vejo mais o fim e a imaginação não alcança
até o abismo dos dias perder-se na memória do sem fim e do tempo que se apaga





subi a negra montanha
durante esse tempo, penso em tudo que sempre me acorrentou àquela direção
                                                                                           àquela minha estrada reta e rasa
                                                                                           àquela totalmente previsível
                                                                                           àquela que era assim
                                                                                           perfeita por nada se questionar
                                                                                           e por isso ser aceita por todos
                                                                                           comum acordo ao lugar nenhum



até quando, de repente, ela se eleva à minha frente
surge abruptamente como uma vontade de alguém
                                                            a me questionar
                                                            a me colocar uma grande incógnita em  meu caminho
                                                            e que se faz como um temeroso afrontamento
                                                            um desgosto gigantesco em aparência
                                                            gostando de me fazer pouco
                                                            duvidando do que eu estou afim
                                                            do que sou capaz
                                                            do que é meu destino inadiável
                                                            a obcessão plena em minha vida
                                                            pelo desafio que só eu posso vencer
                                                            porque tem o meu nome
                                                            porque eu quero
                                                            porque eu acredito
                                                            porque eu o vencerei





subi a negra montanha
escalo esse deserto de pedra numa luta a tocar clarim
não existem milagres
tudo que existe tem explicação
a razão que não existe para o que se sabe, não sabe ela mesmo de mim
mas se ela existisse com a lógica, a própria não seria desse jeito
porque nem em tudo há coerência
não existiria sentido de sentir sem te fazer conhecedor da dor, a única que sabe porque vim




subi a negra montanha
e vejo que tudo que toda criatura vê
e jura que é o resumo do que está a perceber
mas quando chega à montanha, ao cume
com a paisagem a se resumir pelos olhos, percebe então que tudo é só um milagre
começando a agir - o imaginar que há em você
que sem o limite do horizonte, entende que assim a vida se resume
além do A à Z





subi a negra montanha
aí tudo faz sentido
na direção que o céu está acima
agora é o céu que teu corpo toca
não me desfaço então de mim, porque já começo a entender tudo
tendo visto que o vi até hoje, o que se passou torna a ser refeito
com tudo que a nossa mente invoca
e o que não fazia sentido até então
é o que mais se encaixa no horizonte de eventos
é o que faz tudo se ajustar ao seu caminho
como toda dor é agora tem seu porquê
como todo farinha de trigo, que faz o pão que nos alimenta
passa antes pelo seu moinho




subi a negra montanha
prefiro olhar o luar daqui
e lá pra baixo o mundo continua
pois quando, em espanto, o que não via por ser oculto, por ser claro e exposto
se revela ali subitamente, sem sobreaviso
e por isso, rio e grito, quando descubro que ali também há felicidade
se a montanha, surpreendentemente, ao acaso, a ti invoca
quando, do abismo, um sopro de seu igneo coração derrete o gelo
e o vapor gelado de luz se atravessa e dos confins um arco íris se desloca
reflito sobre o frio que me circunda e me digere quando você não me toca



subi a negra montanha
e até ali, meu sentimento petreo se racha em doce quebranto, que em mim fervia
e expõe uma nova abertura, uma nova via, que me desvia do que eu não via
ou ainda mesmo não existia
porque a fiz com minha inocência de se maravilhar com as possibilidades
de um devir feliz e incompreensível
a porta aberta entre o céu e a Terra
que se desconecta da cruel natureza da matéria
e se dirige à inefável e celeste morada da alegria





subi a negra montanha
e vislumbro então um infinito conforto nesse futuro de meu caminho
porque em mim é agora a verdade é o desejo
que a mim agora se encosta
                              afaga
                              toca
                              geme
                              sussurra
                              implora
                              e eu o possuo
                              e o seu corpo é a tranquilidade
                              de um pouso seguro e querido



subi essa negra montanha
e essa montanha para mim é como um o sonho, é quase um nada
e me pergunto que ideia a minha, como eu podia ser tão maluco de tamanha empreitada
por uma montanha que é uma fantasia
delirio transtornado e louco
se podia seguir meu caminho tranquilo
a arriscar a toda a vida que eu ainda tinha
por tamanha insensatez
para me elevar sobre uma rocha perdida erguida
do não se sabe aonde, por não se sabe o quê
que me acena com um caminho em trevas

mas eis que, quando eu assim pensava
entre nuvens e clarões se revela um portão a se abrir
e chego à um salão de arco íris formado e de altas grandezas ao cume forrado
como em gelo e cristal bruto e de bronze dourado
e que a bênção, grandeza e gozo internamente me invoca
só ainda que mais me surpreendo, porque já então sequer imaginava
que tudo isso ali
todo esse sublime, todo esse andor de maravilhas
é apenas onde lhe construi entre as nuvens e o completo êxtase
um lugar só para ti
indestrutível, indevassável
e para sempre
onde todo meu sincero amor por ti aloca

e agora sei
ninguém mais nos separa
ninguém mais nos afasta
e certo disso
senti então um súbito calor que a mim me completa
e era a sua presença enfim
que depois de me fazer entender tudo
me surgiu
por merecimento e dádiva
por alcançar o meu objetivo

então, se fêz meu descanso
o que ali nas alturas não pensei que existisse
que por fim me recebe, sorri, se aproxima
e  me abraça
                 

                                         ilustração por Gustavo Doré



quarta-feira, 28 de julho de 2010

O segredo ( para quem eu adoro )




uma figura precisa de um fundo
um jornal precisa de notícias
um carro precisa de passageiros
um livro precisa de histórias
um dia precisa de sol
um caderno precisa de letras
uma carta precisa de confissões
um pássaro precisa de amplidão
uma questão precisa de respostas


nada pode ser o que falta
tudo é o que completa se nada existe
nada se encaixa quando se está triste
tudo voa se o vento se faz uma borrasca
e se vai embora, agora não mais existe


o mar precisa de horizonte
um assobio precisa de sopro
a praia precisa de ondas
um castelo precisa de torres
a serra precisa dos montes
um doce precisa de lábios
um beijo precisa de desejo
um balão precisa flutuar
a rainha precisa de cortejo
a condessa precisa do conde
pra respirar preciso de ar


mas e quando se sente
que não se sabe o que lhe completa?
e se o que vier não der conta do recado?
mas se depois do que já está, ainda faltar uma lacuna?
e se o destino não for reinterado
mesmo contado as horas uma à uma?
e se nunca for uma linha reta?
e será que o futuro prescinde do passado?
mas se tudo isso não for uma verdade concreta
ou coisa nenhuma?


uma gaveta precisa de cartas
um pensamento precisa de liberdade
um movimento precisa de ideias
uma ressaca precisa de ondas
o homem precisa da verdade
um ninho precisa de ovos
um avião precisa das asas
os velhos precisam dos novos
dois corpos precisam de fogo
um vulcão precisa de erupção
e uma cidade das suas casas


e será que esse vazio se vai?
e se a estrada não for a lugar algum?
e se a dança se fizer sem música?
e se eu pular ao som do ritmo desse baticum?
e será que são necessário tantos acordes para ser uma manhã?
e virá o término do meu ser sozinho
e fará em mim o fim dessa vida vã?
e o ciclo se repetirá no seu caminho?
como saber o que em mim falta?
onde acharei enfim o meu xamã?
onde é a caverna que se esconde um carinho?


um perfume precisa de colo
os travesseiros precisam de cabeças
um carinho precisa de sentimento
a ladeira precisa de freio nas rodas
uma gaivota precisa de mergulho
um hino precisa de orgulho
uma festa precisa de alegria, whisky e soda
uma rota precisa de uma caravana
a fogueira precisa de lenha acesa
e Cuba precisa de Havana


portanto, o mundo sempre está a se completar
embora o tempo que isso se faça, seja
por exemplo, todo o tempo a se formar
porém, quem espera sempre alcançará ou não?
contudo, sempre fará algum sentido o que virá
de onde esteja?
todavia , não seja o arranjo perfeito exemplo
entretanto, sempre tantas esperanças há,
tantas esperanças , tão benfazejas
mas quem não tenta se exclui e não saberá a solução
nem o que ficará, estará a contento perdido
outrossim, terá algo a compreender ainda na mão


um baralho precisa das cartas
uma roupa precisa de botão
um corredor precisa de fôlego
uma bicicleta precisa de pedais
um arrependimento precisa do perdão
um animal precisa de comida
um automóvel precisa de gasolina
o céu precisa do azul
e um chinês da China
o teatro precisa de emoção
um cego precisa do que não vê
o ator precisa do momento
e eu
apenas preciso de você





segunda-feira, 26 de julho de 2010

Díonisio devorado



ver-te
desfigurado pela memória
com toda a nossa vida
                  nosso mundo
                  nossa invenção
                  nossa história

no limite linear
             do passado
em frente ao abismo
               nebuloso
               de você
dionísio devorado
               me desintegra
               me constrange
               me rouba o chão

mesmo que eu soubesse
que já não existindo
existes em mim
e ainda o amoroso 
em mim, por ti despertado
semente pequena e irrisória
de uma antes árvore imensa
que se fez lenha
agora será semeada
fértil pouso e amanhã

e  que nascerá do nada
    que nascerá de novo
    que nascerá pra sempre

verde até a madura vitória
e a colheita farta
que compensará
                  o que se foi
                  o que ficou de fora
                  o que feriu ou magoou

sinto
que nada é inútil
nem mesmo o triste
                   ou o passado inglorioso
                   ou os limites em dor
                   ou o que se sabe
                   e não queria

no entanto
quando eu me pergunto
se me lembro do que não devia
agora que me rio de tudo
quando me surge ainda a mesma questão
                                                 pra quê?
                                                 porque?
                                                 silencio
                                                 descubro toda verdade
                                    
                                                 Eu desamo você!





terça-feira, 6 de julho de 2010

O jantar está servido



Sem ti
toda alma prova o gozo
do sentimento desprovido
de toda grandeza
a solidão de prosseguir o almoço
sem ter ninguém a brindar o vinho
ou ninguém sentado
em torno à mesa

Mas, que fazer
se nada ou se ninguém interessa
quando nada lhe preenche
nem cresce, ou o prende
e toda surpresa súbito cessa
e até lhe traz angústia
por temer o que vem pela frente

Porém, como de novo
esquecer o temor
de como enfrentar as horas
se o que vem à noite
ainda é o vão de sua forma
o estrondo vazio
do que não lhe questiona mais
do que não lhe responde mais
do que não desarruma a casa mais
e depois não lhe abraça

e até lhe evita
se o acaso maldoso
faz com que se encontrem
para que aconteça
como uma traição
ao que à si próprio jurou
de jamais ter atitudes rudes
ou indignas
nem em legítima defesa

Voltando
então, à casa
tudo acentua a
abstrata lacuna
que tudo contorna
de um nada presente
que dentro em si constata
a ausência que não lhe deixa

E continua
por lhe evidenciar seu engano
e por sobrar tantos ecos
ressoando por todos os cantos
da lacuna, de seu apartamento
no vácuo de sua inexistência
como única prenda
como único bom dia
como único cumprimento
que não mais existia                                                                                           



Entretanto
o amor é assim
como o nascer do dia
que chega de mansinho
se escondendo
por trás da montanha
ao alvorecer
e pensamos, esperamos
a luz e o clarão
que viria a acabar
toda obscuridade estranha

Sabe-se porém
que, um momento, ele terá fim
como tudo que de vida se entranha
e o frio e o escuro deste ínterim
se ameniza nas imagens e lembranças
que a memória feliz
por graças ganha

Até que se olhe atento
ao sempre ali
velho e conhecido horizonte
e vemos de novo
de repente, o dia surgir
com seu céu à tudo iluminando
por trás da montanha




Mas, não se vê nada ainda
nem entendemos o que se passa
pois se nem janela temos
que agora por milagre
na mente achamos
e olhamos ávidos
o que há através da vidraça

e aí imaginando tudo
o cenário e os personagens   
a ser como sempre amamos
e realmente tudo volta à luz
não mais nos assusta
nem mais nos amedrontamos

Então sem perder tempo
corremos e pomos a mesa
pois um convidado não esperado
à nós, a luz trouxe
e já ali bate à porta,
sem mais nem menos
pois revelou o que não víamos
ser tão claro
quando a mente está acesa

e então trazemos
tudo de melhor
que há para jantar
que à ele, com prazer
será servido
para que esse alguém
nos diga contente e comovido 
bom apetite!
e nós escutemos por dentro
O jantar está servido!
E adeus, lá se foi a tristeza!



                                   
 4/11/2007

                                  
                                  
                                                                      pintura- La salle à manger sur le jardin - Bonnard





sexta-feira, 25 de junho de 2010

Se houvesse flores

                                                                   foto de Anders Petersen



se houvesse flores

talvez existisse alguém que inventasse a palavra jardim


e que

descobrisse as minhas tristezas, meus cantos escuros

meus becos sozinhos, os canteiros secos de toda terra

quase um nada

com as suas árvores nuas, impacientes, ignorando todo existir

que não lhe balança os ramos, pois ainda não venta

se não há o que vir


e com

a sua paciência, arrancasse dali todos esses frutos tristes

duros, do fundo dos vazios ocultos, impuros com tudo que

não fosse colorido do adentro apagado e fosco, tenso ou estéril


e em

íris revertesse ao que traz a cor do em si, subterrâneo e oprimido

mas que, às vezes, se supõe que exista por um segundo, quando

extravaza subitamente,como um  jorro indomável do que se produz

com o que há em mim, pelo espaço desse mundo do improvável

em que tudo respira e se observa em matéria vibrante, viva


e depois 

ali plantasse a calma, sem a velocidade da bem aventurança

que explode em velocidade, em fazer voando e por correrias

como movimentos de raios elétricos estabanados

 o que tiver de fazer

porque a ligeireza é o  tom de quem não mede tempo pra se divertir


e que

não quer o espaço de pensar no fim

mas, ao contrário, que fizesse com a tranquilidade ritual

semeando risadas e inocência, pouco à pouco, com as minhas

coisas boas da infância - as brincadeiras, os jogos de pique, tudo

que eu não esqueço encantado



e que

na minha lembrança de todas as felicidades, ainda tenho soltas


e graças aos céus

não assim tão poucas, pois escorrem estravazando pelas bordas

plenas, nesse ínterim





e depois

 fertilizasse todas as frestas e ranhuras plenas de insegurança

medo e solidão, todos os problemas

simplesmente encerrados

apenas com uma palavra

- sim -


                                                          foto de Robert Mapplethorpe

e dali

o inesperado em flor surgisse em forma de fato e surpresa

essa que, às vezes, explode surda, muda, de todo acesa nas ruas

que o acaso desce, e você, coincidentemente, também, surgindo

como uma pessoa que de repente vemos, e a gente mal reconhece,

que você tivesse cansado de esperar toda a vida e só uma prece

ou o horizonte lhe apontasse o seu lugar, e de repente lhe surgisse

assim do nada, na sua frente, suave, leve, materializada.


e  pudesse

 lhe envolver no seu cheiro, perfume, e uma cor que

você não encontra, que de repente transparece 

fazendo tudo mudar

o ardor viceja, desponta - e pronto - a sorte voltou a atuar

tudo reluz e se abre, cresce 

olha-se pro o céu límpido, os pássaros, a delicadeza das nuvens


e o vento

tão doce que passeia por seu corpo que agora

se sente querido, em paz

voa
   
                                                                    foto de Robert Mapplethorpe


mas, como

conhecer a palavra flores, se não conheço todos os

segredos que existem em mim?


então, imagino

se houvesse flores é porque já as vi bem perto de

onde moro, ou por onde sigo meus olhos, por meu caminhos

esquecidos, pela água de um rio passado, quando passo com

atraso, ou mesmo, talvez, ali bem perto de mim


é que

talvez eu não as olhe e não me dê conta de quantas sementes

quantos botões se abrem, germinam em cores, em amarelos, azuis

ou violetas, brancas ou carmim, por não serem parte de minhas

obrigações, das minhas urgências, é o invisível comum




daí

me deitei , me despi do mundo, e pensei como podia isso

ter acontecido comigo, logo eu tão preciso em detalhes, tão

objetivo em minúcias, tão claro em observar que nem tudo

que vem na vida, vem porque estamos acordados

o quanto na vida nos distraímos do que achamos que não

é preciso, quando às vezes apenas um soslaio de alguém

perdido, ou detalhe de um gesto esquecido, nos faz ver

o que realmente nos prende ao que somos ou porque somos assim


e nem eu

em meu sono profundo, se quero ver que haja flores

me permito que eu seja apenas a alma presa dentro de mim


e dormi

e as flores vieram, todas.


e quando menos esperava

a fortuna, vinda na forma de meu

espírito liberto, me abriu as mãos e ali pôs sementes bem

pequenas, arrumadas em silêncio e cerimônia, como as letras

de uma palavra que eu não li, porque eu não precisava, pois

me lembrei que era algo que sempre conhecera

que eu já sabia que era a palavra

                                         JARDIM.

                                                                           foto de Issei Suda



quinta-feira, 3 de junho de 2010

A verdade e o invisível



falemos a verdade

e a verdade é que tudo é invisível

ou melhor

veio do invisível e se tornou visível

e nós percebemos esse invisível

quando pela primeira vez o descobrimos

quando nos deparamos com ele

ao abrir os olhos para esse mundo inteiro

nos engolfando em um nada cheio de formas, sons e cheiros

e nos sentimos completamente sós e desamparados




nessa imensidão onde não vemos limites ou um fim

e então não entendemos porque vivemos cercados pelo invisível

quase nos afogando nele

quando aí o inalamos sôfregamente

até que algo por dentro se infla, não sabemos bem como

e vem um impulso como ao sair de uma prisão quente e abafada

que depois identificamos como um berro

ou choro

ou a vida




porém, o invisível não é apenas o que não se vê, o que não se toca

e sim o que se percebe pelo que não está ali

mas o que está em qualquer lugar onde não se existe

mas que mesmo assim

quer ser percebido, sentido

até que lhe doa a vista

ou que lhe fira os ouvidos

ou lhe contraia os intestinos e arda em sua pele

ou que mesmo enlouqueça a sua mente

como uma criança que não para de pregar peças e fazer arruaças

a lhe fazer doer a cabeça como se ela estivesse rachando

para que, enfim, quando você estiver à ponto de endoidar

num rompante de desespero, quando já olhar

para os móveis e eles lhe sorrirem, parecendo se mover

num frenesi como numa dança tribal e antropofágica de

seu próprio sacrifício doméstico em honra aos que não enxergam

                                                       
                                                                                         foto de Sven Turck


e as estrelas fosforescentes, que brilham no imaginário

de qualquer estrela fútil e megalomaníaca de Hollywood

girarem, como num chapéu mexicano de um parque de

diversões lisérgico, enlouquecido por doses extravagantes

e abusivas de ayahuasca e marijuana




e quando para você não houver mais os pés sobre o chão

e nem cabeça lhe habite o seu lugar tradicional

em cima do pescoço e sob o céu cheio de nuvens

a lhe chover gatos pingados, molhados e arrepiados




e você num ato de derradeiro de subsistência, grite com toda

força de seus pulmões, arrasados por toda a sua vida de

excessos e irresponsabilidades marotas de sua adolescência

maluca e maturidade descompensada :

- Chega , me diz por favor o que você quer, que lhe obedeço

mas pare com isso agora pelo amor de Deus, por favor

tenha piedade! Eu lhe entrego o que você quiser, tudo

mas pare, eu lhe imploro! O que eu te fiz? Pare,agora!




e aí ele se volta, senta-se em sua poltrona favorita

sopra, por sua boca invisível, círculos de fumaça

de algum cigarro imaginário de uma grife divina

e , te encarando, resolve lhe dar uma oportunidade

dizendo meiga e suavemente

como se nada tivesse acontecido

que tudo que houve

foi para que saísse de si mesmo e se desse conta

do que havia ao redor, do que lhe cercava

e principalmente dele - o invisível


                                                                                            foto de Liu Bolin
                           

e que sempre aconteceria isso, porque

ele existia ali, na sua frente, e que você não se dava conta

e que então faria isso até que percebesse toda

a  carência que ele tinha de não ser, para que assim

se delineasse o seu vazio ou sua falta de alguém que lhe

abraçasse e que lhe pudesse dizer

olha, eu estou aqui

eu existo

e preciso de você


disse então queria ouvir isso apenas para que fosse aceito

e não lhe trouxesse mais qualquer medo

e que pudesse existir assim mesmo, invisível

e ser querido exatamente por ser assim

para que lhe possa penetrar por seu corpo e mostrar um lado

mais doce e belo, pronto a lhe servir

como a todo gênio humano sempre servi

para que me ordenasse

me organizasse

me harmonizasse

nas mais sublimes melodias, inesquecíveis harmonias

ou em ritmos atordoantes a lhes despertar o humano

e para que eu possa despertar a todos em poesia

para que ali enxergassem à ele - o invisível                                                                


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          foto de Michael Manheim


e para que eu despertasse também a minha invisibilidade

e me tornasse de alguma maneira invisível

porque os seres humanos são assim

tudo organizam

tudo arrumam

tudo enfeitam

e o mundo lhe faz então um sentido confortável

de ter sido pacificado e que há um controle

e querem assim mesmo, daquela maneira

o que não vêem

o que não compreendem

apenas sentem

intuem

mas não conhecem verdadeiramente o invisível

porque querem tudo visível

                                                                                                                                                   foto de Fred Lébain


porque os faz perceber que esse universo, como todos os outros

que podem existir por aí, não são nada, e que, mesmos eles

não são nada

o que os apavora de sobremodo

e que o invisível é sim

o imensurável

o desconhecido

o absurdo

o inesperado

o que não se pode entender sem ter medo

ou despertar o êxtase

o espanto ou até mesmo a felicidade

ou o amor
                                                                                                                                                                foto de Don Gregorio Anton


que é o próprio existir - a essência da vida

o movimento que, ao se cansar da imobilidade de ser um

de ser sozinho

e resolveu usar sua energia para gerar um deslocamento

para um talvez desconhecido

originando tudo em círculos

voltando sempre para si  retomando energias

e partindo para novas aventuras

inventando tudo o que hoje há

como o espaço, o tempo

e tantas outras dimensões ainda invisíveis

e por isso imperceptíveis aos nossos toscos e insensíveis olhos

e que ali, agora, apenas se permite humildemente, que o ordene

para que o aceitemos, o adotemos como cria afável

que permite que se eduque para te ninar

ou mesmo te abraçar com seu corpo invisível e lhe passar calor

agradável, para que durmas sossegado, ou a lhe esfriar a pele

para que suporte o calor que lhe queima a pele, ou acenda

humores que turvem a mente e incendeiem o olhar

embora se entenda por aí , porque surgiu a arte

assim

do olhar

do que existe e por consequência está vivo, pulsa



                                                                                                                                                                   foto de Madge Donohoe


mas, surpreendentemente, o invisível também pulsa , freme

e também habita toda e qualquer boa arte porque a transcende

com o mistério

com o que não se explica

com a aura

com o segredo de ser - não sendo, até que se o perceba

sinta-o

veja-o

ali muito mais vivo de tudo que é apenas visível

com todos os nossos olhos de ver além

e que não são esses dois espaçados na cara

separados pelo nariz

por exemplo

o amor é o invisível visto com os olhos do coração

e a alegria é o invisível visto com olhos do sorriso

o carinho é o invisível visto com os olhos da tocar

a delícia é o invisível visto pelo olhos do paladar

o perfume é o invisível visto com os olhos do desejo

a fúria é o invisível visto pelos olhos da tempestade

a melancolia é o invisível visto com os olhos da dor

e a pressa é ..deixa pra lá, não importa, não dá tempo!




eu, então

pessoalmente

aprendi que sinto o invisível

sempre presente como um companheiro imprescindível

a penetrar a minha mente e a tocar meu corpo e meus órgãos

ininterrupta e prazeirosamente

até que ele me diga porque ele se faz

urgente naquele instante, pedindo para ver sua a

sua configuração, a sua transparência que não habita

lugar nenhum, porque todos os lugares são sua casa

e onde estende o seu corpo que parece não-ser e se faz prazer

ou dor imensurável ou mesmo se aquieta

em sua quase inexistência
                                                                                     
                                                     

                                                                                                                                                                  foto de Emmet Gowin


é como meu par querido, que eu sei que está ali

mas que nunca saberei com certeza qual será

sua manifestação

a receber tudo que se desfaz

ou a fazer tudo que é

e que veio dele

para que nós

com tudo o mais

partíssemos para conhecer o que pudesse acontecer

perdoando aos nossos caminhos

porque entende que apenas foi mais um caminho vindo dele

voltando até ele, como um círculo vicioso

o invisível que se faz visível, cria

e lhe tem afeto e precisa dele

e que à isso nós damos o nome de amor

e por isso voltamos ao invisível

por seu amor





mas que sempre estará por perto por que somos um só

vivemos não cercados do invisível , mas dentro dele

ou melhor somos o movimento que a partir dele

vindo dele,

e parte dele

nos fez visíveis, concretos, para senti-lo, para ama-lo

em seu infinito saber

o que adquiriu também por estar em nós

sobre nós

por nós

para nós

para sempre

como
             o Eterno






sábado, 29 de maio de 2010

Caixa de Pandora

                                                                                                                                                                          foto de Parke Harrison



a razão agora tudo devora
somos nossos ditos carcereiros 
tanto como tristes e frios prisioneiros
pois a mente levanta mil paredes
a nossa própria caixa da Pandora



                                                                                                                                        

se a razão é humana
a emoção e o afeto
são nossos frutos, fetos
onde nossa esperança 
ansiosa
mora!


                                                                                                                                                                         Tears - foto de Man Ray


A paixão é do desejo
a sua cria insana,
o filho que vive inquieto,
grita , esperneia
e chora,
chora,
chora,
E de tudo 
faz um drama
aonde ele nos leva
agora?
                                                                                                    
                                                                                                                                                                       O Pensador de Rodin



O que faz o homem 
construir um mundo 
de máquinas,
e admirar apenas a teoria
as regras?
Sentir é andar
por um beco?
É tropeçar às cegas?

                                                                                            
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        
                                                                                                                                                           foto - Yasuhiro Ishimoto


somos os monstros 
que criamos
o que imaginas,
o que pensas!



                                                                                                                                             foto de Mark Parke-Harrison


mas podemos pensar 
exclusivamente?
e o sentir?
negas?

                                                                                 foto de Sieges



as lágrimas 
estão fora de moda
e todo amor 
é piegas!



E assim,
continuamos 
como almas cegas
com a solidão
e a dor
como comédias
entregas! 





quarta-feira, 26 de maio de 2010

Alô!



                                                                                                       foto de Lisette Model


sorrir

é tão fácil falar - sorrir

mas tudo tem a sua hora

falar também

porém, é isso o que eu não encontro agora 

penso em silêncio

nada parece soar adequado, nem o meu sentir seria - poderia se dizer

nada que eu aqui pudesse julgar como sendo totalmente perfeito ou

exatamente aconselhável, justo, pois, falar, sorrir, ou calar-me

totalmente, nesse momento, em que me permito a reflexão, eu

entenderia como um comportamento exagerado


quisera ter a medida certa em que tudo se equilibra com

esmêro, lado à lado, e nem uma gota se derrama, nem no meu

oceano imaginário contido, por milagre, dentro de um cálice

sagrado, equilibrado na ponta de um bastão vacilante em

minha mente
            
                                                                                                                                                                              foto de Inta Ruka



é tão fácil transbordar, perder o controle, desorganizar-se

como ter o juízo que se demanda?

ser apropriado, justo, o não complicado

mas, ainda, quão difícil se torna julgar isso

se nada que julgo transmitirá também toda a verdade

quem me poderá dizer isto?

ou o que é isto?

quem me traçará o desenho da minha própria realidade?

                                                                                                                                                   foto de Hugo Rostev


por dentro sou carne que amasso

renego

retalho

desejos que refuto

mãos que tremem

embaralho

cérebro que pensa

pés trocados, equívocos, enganos,desmedidas

como julgar o que está lá fora?


                                                                        foto de Lothar Mendes e Clara Bow



há complexidade em qualquer caminho ou gesto combinado

a perturbação terrível do trânsito que é por dentro do meu

corpo, um túnel repleto, congestionado, com buzinas histéricas

a reverberar sem juízo pelas paredes de concreto, com os

guardas de trânsito apitando em minha cabeça embaralhada

neurônios entupidos


                                                                                                            
                                                                                                                                                                                     foto de Meatyard



se não quero nada para mim agora, tudo à frente ali, já é mentira

arrependimento, paixão, desespero - qual comportamento ou

julgamento pode ser o meu? ou mesmo, como pode ser negado

de que também esse não o seja?


e pra que meu?

o quê, se nunca foi ou poderá ser , se nem eu próprio tomei

conta de mim?


terra abandonada, perdida, despovoada

não me possuo, só risco pontos, paisagem sem traços

sou um continente desconhecido

território sem dono

selva terrível

lago parado

ou tormentoso

riacho doce

e medo, medo à cada passo

                                                                                                                               
                                                                                                                                                                                             foto de Chen


enlouqueço a cada descanso porque perco a vista

amanso a fúria de saber que sou aquele que está cego

por não saber onde estou 

o que não arrisca sair dali

não tenta ir sem arriscar e ir tateando no escuro o significado

do - quem eu sou?

digo apenas palavras tolas, ou escondo meu precipício

distraindo os olhos desavisados

quando sorrio simpático

feliz

e digo, cumprimentando, o que talvez seja tão fácil para

os outros

um simples

Alô!





e aí, percebo que entendi a solução

que é simplesmente me abrir e não dificultar

dar um primeiro passo, percebendo que eu quero que

seja assim

apenas feliz

e sorrir!
                                                                                                           
                                                                                                                foto de Robert Doisneau- Paris 1936





Eu não sei o que é ser poeta

                                                                                                   foto de Parke Harrison



pó é, tá

é pó, tá!

tá é pó

pó é pó, tá!

só pó, pó, pó...poeta!


pois, eu não sei o que é ser poeta

se tiver que assim

de mostrar estrelas quase quasar

de ser telescópios pra dentro
                                
                                  dos neurônios
                                
                                  de redemoinhos no tempo
                                
                                  do ser


se tiver que ser uma noite em rotação

                                     uma corda esticada

                                    que vem ainda de mais além

                                    de um carinho rejeitado
                                  
                                    ou quase
                                  
                                    da consciência de um pecado
                                 
                                    ou quase
                                
                                    da iminência da morte
                              
                                    ou quase
                            
                                   das feras que rondam à noite
                          
                                   ou quase
                         
                                   ou quase aquele dia
                        
                                  que me jogaste uma flor
                      
                                  de uma varanda quente de Benghazi


pode ser que seja aquele que por dentro se avessa

e traz à gente

os dois lados de uma dor descontínua

acomodada

ou só dormente
                    
                      e descabida
                    
                      cravada
                    
                       e esquecida
                     
                       tida
                     
                       ou só protegida



se tiver que vestir um muro

                             com seu sangue

                             bem azul de poeta

                             espelho de sua meta

                             ou desvio apaixonado

                             desta invivência

                             desta jungle absurda

                             inquieta e doente


e aí tenha que equilibrar tudo

neste duro azul, tão azul

que prosseguirá adiante

prá cima

sem ter colher

das almas dízimo

ou um sorriso desengraçado

                      dormente

                      um mínimo

                      uma semente


veja bem o que é ser poeta

sei lá, sei não

somos como tudo e todos - pó

viemos do pó e voltamos ao pó

portanto

tome cuidado se precavenha

do destino, da definição

porque se existem estradas azuis e longas

e é você quem as pinta, intui

escreve

para que homens delas esperem

                                   seu broto

                                   sua felicidade

                                   the heaven

                                   aqui ou não


ou que para todos esses homens

                            que não pedem

                            para nelas andarem

                            para elas olharem

                            nem por capricho, desleixo

                                                        ou curiosidade



                            se por elas batem um pouco de sol

                            ou mesmo se já é muito tarde

                            e foi-se ali a felicidade

                            saibam o porque

                            e talvez

                            ser o que é poeta

                          
ou talvez até eu aí perceba melhor isso

ou mesmo o que é ser

um guardachuva

ou um armário

                     pois, se abrimos um

                     para nos isolarmos

                     das diluências

                     e depois de usado

                     o guardamos no outro


é apenas para que não vejam

 por ele

que não é só em nós

que os olhos tem-se molhado.